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A todos que temem não vencer no jornalismo

*Patrícia Paixão


Boas histórias são para serem compartilhadas. Elas inspiram, elas ajudam a convencer quem pensa em desistir, elas enchem nossos corações de esperança.

Essa é uma história muito bonita sobre uma aluna de jornalismo.
Me lembro do primeiro dia em que dei aula para a Deise Dantas. Pedi que cada aluno se apresentasse para mim e, quando chegou a vez da Deise, ela me encurralou:

“Professora, quero que você seja extremamente sincera. Sou mais velha e estou há muito tempo sem estudar. Eu vou ter chance no mercado jornalístico? Vou conseguir um estágio? Pergunto isso, pois, caso eu não tenha chances, eu vou desistir do curso”.

Eu não costumo vender um “mundo Poliana” aos meus alunos. Com um aperto no peito, encarei Deise e disse a verdade. Expliquei que o mercado dá preferência sim a pessoas mais jovens, que é competitivo e cruel. Mas destaquei que, apesar desse cenário desfavorável, já tive alunos e alunas mais velhxs que, por terem um amor imenso pelo jornalismo, dedicaram-se e perseveraram muito, muito mesmo, conseguindo uma vaga na área.

Deise, então, prosseguiu no curso, mas insegura, sempre duvidando da sua capacidade, do seu texto. Eu permanecia estimulando-a, tentando convencê-la sobre seu potencial.


Em 2015 a faculdade em que eu e Deise estávamos (lá eu era professora e coordenadora do curso de jornalismo) fechou repentinamente. Eu, ela e outros centenas de alunos e professores ficamos desamparados. Consegui me recolocar em um mês, mas muitos dos meus pupilos permaneciam no desespero. A mensalidade na Faculdade do Povo era bem acessível, e eu só conseguia pensar na situação de alunos queridos como a Deise, que dificilmente poderiam arcar com uma mensalidade puxada em outra instituição com a qualidade da FAP. Sim, a Faculdade do Povo era maravilhosa. Tinha quatro estrelas no Guia do Estudante e nota 4 no MEC. Que orgulho daquela faculdade!!


Graças à generosidade e à ajuda da amiga Patrícia Rangel, coordenadora nas Faculdades Integradas Rio Branco, eu, Deise e muitos alunos da FAP fomos acolhidos. Tive que deixar a instituição poucos meses depois (havia conseguido aulas em outras duas universidades e estava muito puxado), mas Deise encontrou na Rio Branco professores maravilhosos. Dentre eles Patrícia Ceolin, Carina Macedo Martini, Renata Carraro e André Rosa de Oliveira, que acabou se tornando seu orientador de TCC.


Ontem eu tive a oportunidade, nesses reencontros maravilhosos que Deus nos proporciona por intermédio dos nossos amigos, de ser avaliadora da banca da Deise. Eu analisei seu livro-reportagem chorando de emoção. Deise, que desconfiava tanto do seu texto, escreveu uma obra linda, com perfis de integrantes de um movimento de luta por moradia em Taboão da Serra. E eu que falei tanto sobre Eliane Brum com Deise, vi vários parágrafos em seu livro que parecem ter sido escritos pela diva do nosso jornalismo. Deise hoje é uma JORNALISTA madura e muito boa. UMA JORNALISTONA dessas que farão a diferença na nossa área, que honrarão a natureza social da profissão.


Ela conseguiu entrar na área. Está fazendo estágio, feliz e orgulhosa das suas conquistas. Deise venceu. Como diz o título do seu livro-reportagem, ela foi do “Chão ao céu”.


E hoje eu sou uma professora boba, rindo sozinha pelos cantos, lembrando da jornalista maravilhosa em que Deise se transformou.