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Vícios de linguagem: saiba como evitá-los

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*Patrícia Paixão

 

Sabe aquelas pérolas que as pessoas dizem/escrevem com frequência, sem saber que estão “assassinando” a nossa querida Língua Portuguesa?

Pois é. Muitos desses erros são chamados de “vícios de linguagem”, desvios das nossas normas gramaticais, que pegam muito mal, em especial quando saem da boca de um profissional que tem como missão “comunicar”, como é o nosso caso.

Agora que você escolheu o Jornalismo como profissão vai ter que lidar com suas dores e delícias. É sim a melhor carreira do mundo, mas também uma das mais cobradas. Sempre haverá um “ser” pronto pra te enfiar o dedo no nariz: “Nossa! Você é jornalista! Não pode falar errado desse jeito!”. Mesmo naquele momento mais inocente, de descontração e intimidade no sofá da sua sala de estar, seu irmão, mãe, tio ou primo vai virar pra você e dizer algo desse tipo, se você cometer um deslize. Não nos é permitido errar. E, pra dizer a verdade, essas pessoas estão certíssimas, quando nos fazem esse tipo de cobrança. Afinal, se um jornalista escreve e fala errado, como pretende ter credibilidade?

Resolvi fazer esse post sobre os vícios de linguagem. Muitos dos vícios aqui expostos devem ser do seu conhecimento, mas pode haver um ou outro que você não conhece, e que, de agora em diante, vai passar a evitar.

Vamos lá?

*Redundância

Redundância é frisar algo que já foi compreendido.

Exemplo 1: Paulo encara de frente todas as situações difíceis

Por acaso você já viu alguém encarar de costas???

O correto é:

Paulo encara todas as situações difíceis.

Exemplo 2: Cientistas procuram o elo de ligação entre o homem e o macaco.

O termo “elo” já significa ligar uma coisa à outra.

O correto é:

Cientistas procuram o elo entre o homem e o macaco.

Exemplo 3:  Além de trabalhar em dois empregos, Fernando também tem uma barraca na praia.

O termo “além” significa que uma outra ideia/coisa será apresentada na frase. Portanto, não é necessário usar junto com além o termo “também”.

O correto é:

Além de trabalhar em dois empregos, Fernando tem uma barraca na praia.

Exemplo 4:

O Brasil é um país de diversos absurdos, como por exemplo a corrupção e a desigualdade social.

É errado usar os termos “como” e “por exemplo” juntos, pois eles querem dizer a mesma coisa.

O correto é:

O Brasil é um país de diversos absurdos, como a corrupção e a desigualdade social.

ou

O Brasil é um país de diversos absurdos, por exemplo a corrupção e a desigualdade social.

Exemplo 5:

Diversos artistas da nossa MPB estarão presentes na festa, como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, entre outros.

Também é errado usar na mesma frase os termos “como” e “entre outros”. O “como” já passa a ideia que você vai apresentar uma amostra dos artistas que estarão no evento. Se você coloca o “entre outros” no final da frase, gera a redundância.

O correto é:

Diversos artistas da nossa MPB estarão presentes na festa, como Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil.

ou

Diversos artistas da nossa MPB estarão presentes na festa: Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, entre outros.

Exemplo 6:

Governo vai lançar novo programa social de moradia

Ué? Se vai lançar é claro que o programa é novo!!

O correto é:

Governo vai lançar programa social de moradia

E existem muuuuuitas outras redundâncias que você precisa evitar: subir pra cima, sair pra fora, chegar a uma conclusão final,  sorriso nos lábios, planos para o futuro, panorama geral, criar novos empregos, pequenos detalhes, repetir de novo, planejar antecipadamente, surpresa inesperada…

*Solecismo

São erros de sintaxe, que afetam normas de concordância, regência ou colocação pronominal.

– Concordância:

Sobrou muitas vagas. (em vez de “sobraram”).

Haviam muitos alunos naquela sala. (em vez de “Havia”. O verbo “haver” no sentido de “existir” é impessoal)

– Regência:

Hoje assistiremos o filme (em vez de “ao filme”).

– Colocação:

Me diga o que você quer (em vez de “Diga-me”)

*Ambiguidade

Quando ocorre uma duplicidade de sentido, em função do emprego de uma palavra inadequada, da falta de uma marcação gráfica ou da disposição incorreta das palavras numa frase.

Exemplo 1:

Barcelona mudará até a Olimpíada.

Da forma como a frase foi construída não dá para saber se a cidade de Barcelona sofrerá mudanças na sua infraestrutura para receber o evento ou se Barcelona irá alterar a forma de fazer a Olimpíada.

O correto é:

Até a Olimpíada, Barcelona mudará.

Exemplo 2:

Aluga-se casa para jovem de fundos amplos.

Quem tem os fundos amplos??? rs #jesus

O correto é:

Aluga-se casa de fundos amplos para jovem

*Barbarismo

Pode ser um erro na pronúncia, na grafia, na semântica ou na ortografia das palavras.

Erro de pronúncia:

Gratuíto em vez de gratuito

Rúbrica em vez de rubrica

Erros de grafia:

-Espero que ele esteje bem.

O correto é: Espero que ele esteja bem.

-Espero que você seje feliz.

O correto é: Espero que você seja feliz.

-A metereologia indica chuva para os próximos dias.

O correto é: A meteorologia indica chuva para os próximos dias

-Isso não tem nada haver com a história.

O correto é: Isso não tem nada a ver com a história.

-Paulo é uma pessoa muito fácil de lhe dar.

O correto é: Paulo é uma pessoa muito fácil de lidar.

-Se você o ver, diga-lhe que estou com saudades.

O correto é: Se você o vir, diga-lhe que estou com saudades.

-Os cidadões brasileiros deveriam ser mais exigentes com os governantes.

O correto é: Os cidadãos brasileiros deveriam ser mais exigentes com os governantes.

*Estrangeirismo

Emprego em excesso de palavras ou expressões próprias de línguas estrangeiras. Se existe palavra correspondente em português, utilize-a!

Ex: Estou aguardando o feedback do meu staff, depois do coffee-break, para mandar fazer os folders.

Forma mais correta: Estou aguardando o retorno da minha equipe, depois da hora do intervalo, para mandar fazer os panfletos.

*Cacófato (ou cacofonia)

Junção de duas palavras, que cria um som constrangedor.

Exemplo 1: O chefe havia dado ordens severas.

Exemplo 2: Nesta terra abunda a pita.

Exemplo 3: Fábio beijou a boca dela.

Exemplo 4: Ela tinha muito dinheiro.

Exemplo 5: Pagou vinte por cada.

*Eco

Emprego de palavras que têm a mesma terminação na mesma frase. Somente em textos literários podemos trabalhar a mesma terminação, com efeito de rima.

Exemplo 1: O requerimento que enviamos naquele momento era o único instrumento do departamento.

Exemplo 2:  Na última reunião, o chefe da nação avisou pela televisão que iria fazer uma convocação.

*Acumulação de pormenores

Consiste em encher o texto com pormenores, dificultando a compreensão.

 Ex: Quando Paulo chegou à casa do amigo dele, que fica lá perto da linha do trem, ao lado daquele matadouro antigo, onde houve um assassinato em 1987, encontrou todo o pessoal pronto para a festa.

*Chavões e clichês 

Evite expressões como:

“Pano de fundo”

“Dar o último adeus”

“Chegar a um denominador comum”

“Segredo guardado a sete chaves”

“A nível de”

“Correr atrás do prejuízo”

* Excesso de “que”:

O texto se torna cansativo.

Exemplo: Logo que ele telefonou eu disse que esperava que ele resolvesse aquilo que ele dissera que iria resolver.

*Gerundismo

Usar vários verbos em vez de usar um único.

Ex: O ministro afirmou que estará entrando em contato amanhã.

O correto é: O ministro entrará em contato amanhã.

*Obviedade

Dizer o que o leitor já sabe.

Ex: O terrorismo deixa as pessoas com muito medo.

Anotou tudo no seu bloquinho? 🙂

 

Esperiência em asseçoria de impressa

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 *Patrícia Paixão

A dificuldade para conseguir um estágio em jornalismo é uma reclamação recorrente que ouço dos alunos em sala de aula. Muitos estudantes colocam a culpa na exigência que o mercado faz de experiência na área (sendo que eles ainda estão na faculdade), no famoso QI (quem indica), entre outros fatores.

Não questiono a pertinência desses argumentos. É claro que eles contribuem para tornar mais difícil a disputa por uma vaga para praticar a profissão. Só que, na verdade, o que percebo é que esses não têm sido fatores decisivos para excluir um candidato de uma vaga. O desrespeito à nossa língua mãe, o português, é, muitas vezes, o verdadeiro vilão.

Falo não só como professora e jornalista, mas no papel de recrutadora, que já exerci em diversas ocasiões. O motivo para eu “deletar” logo de cara um candidato, antes mesmo de conhecê-lo, é encontrar no campo assunto do e-mail o título “Curriculo para o estagio”, sem acento nas palavras currículo e estágio; ou no corpo da mensagem ou do currículo encontrar algo como: “tenho esperiência em asseçoria de impressa”, em vez de tenho experiência em assessoria de imprensa. Esses não são exemplos inventados. São casos que tive o desprazer de presenciar…

Não sou especialista em Língua Portuguesa e confesso que ainda hoje tenho dificuldades com algumas questões da nossa gramática, mas uma coisa felizmente aprendi a ter: zelo, muuuuuito zelo com o português. Afinal, é a minha imagem que está por trás do que eu escrevo.

Isso quer dizer que, após fazer um texto, você deve revisar, revisar, revisar, revisar e revisar… quantas vezes puder! Consulte o dicionário, um professor, aquele seu amigo que escreve bem e domina a língua. E tem que ser aquele amigo crítico e sincero e não um que vai fingir que seu texto está maravilhoso para te agradar, sendo que ele traz um “derrepente” ou um “não tem nada haver”.

Jornalistas, mais do que qualquer outro profissional (à exceção dos professores de português, é claro), devem ter uma boa gramática e ortografia. Uma reportagem bem apurada, com diversas fontes e profunda pesquisa, pode perder toda sua credibilidade por conta de um erro ortográfico.

Você pode falar inglês, espanhol, francês, ter feito dezenas de cursos na área e assistido a várias palestras interessantes sobre jornalismo. Pode ser uma pessoa criativa, proativa, inteligente, com ótimo relacionamento interpessoal. Mesmo assim, se deslizar no português em um e-mail ao empregador, certamente não será chamado para uma entrevista.

Essa dica é válida, inclusive, para as redes sociais, territórios nos quais os queridos focas acham que “tudo é permitido”. Cuidado, muito cuidado. Aquele simples post sobre o Timão ou o São Paulo que traz a pérola “Seu time é bom, mais o meu é melhor” (emprego de “mais” em vez de “mas”) pode deixá-lo com um péssimo conceito. Diversas reportagens e profissionais da área têm destacado que hoje as empresas utilizam o perfil do candidato no Twitter e/ou no Facebook como um dos fatores influenciadores na contratação. Portanto, isso não é exagero como muitos costumam pensar.

Se há a crítica dos alunos com relação à dificuldade para estagiar, há na mesma proporção o lamento de colegas jornalistas, que afirmam ser complicado selecionar um estagiário que tenha um texto bom, sem erros de português. No livro Mestres da Reportagem (produzido pelos meus alunos da FAPSP – Faculdade do Povo) muitos repórteres apontam o respeito à língua como um dos pré-requisitos essenciais de quem pretende ser um bom jornalista.

Portanto, não tenha preguiça de consultar a grafia correta de uma palavra e revisar os seus textos. A começar daqueles que você entrega para os seus professores no curso de Jornalismo. Lembre-se de que seus mestres serão os primeiros “recrutadores”, te recomendando ou não para vagas das quais eles têm conhecimento. Eles certamente não vão recomendar um aluno que tenha problemas com o português, pois é o nome deles (um nome que eles construíram durante muitos anos) que estará em jogo.

Eu costumo brincar com meus alunos: “Sejam neuróticos com o português!”. O mesmo vale para você que em breve ingressará na profissão. Baixe um corretor ortográfico e uma minigramática no celular, ande com um dicionário (que já esteja em conformidade com o novo acordo ortográfico) na bolsa. Se necessário, faça aulas particulares com uma boa professora de Língua Portuguesa, para combater seus pontos fracos. Seja humilde em admitir que nossa língua é complexa e precisa ser tratada com seriedade. Uma boa dose de neurose lhe fará muito bem. Pode ter certeza!