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Carta de um recém-formado em jornalismo para um estudante do ensino médio

*Rubens Rodrigues

Fala, Moleque!

Sabe aquele sonho que você projetou há dez anos? Venho te falar que ele se realizou. Você se formou! Você é jornalista e eu tenho um baita orgulho do caminho que percorreu até chegar aqui. Te escrevo não apenas para te parabenizar, mas para relembrar do quanto você foi forte nesse percurso.

Você nunca foi fã do Racionais, muito menos do gênero musical que o grupo canta, mas recentemente tá ouvindo bastante, né? Talvez porque algumas de suas letras fazem você refletir e lembrar do quanto foi difícil a caminhada.

“É necessário sempre acreditar que o sonho é possível. Que o Céu e o limite e você, truta, é imbatível. Que o tempo ruim vai passar, é só uma fase. E o sofrimento alimenta mais a sua coragem.”

Lembra daquele pivete de 14 anos que ia pra escola com camisa de time, que só falava de futebol na sala, e, nas aulas de Educação Física, brincava de narrar futebol e entrevistar os jogadores? Hoje não é mais brincadeira. Os entrevistados não são mais os amigos. Hoje você é um profissional do jornalismo.

Na escola você não via a hora da aula acabar pra assistir aos programas esportivos. Gostava de se informar sobre o mundo da bola. Durante as passagens de cada repórter, sonhava: “Um dia o GC será Rubens Rodrigues em vez de Fernando Fernandes, Nivaldo De Cillo, Felipe Kileing, Marcio Gontijo, João Paulo Vergueiro, Fábio Neves, Sandro Gama e outros repórteres que apareciam nos programas “Jogo Aberto” e “SPA Acontece”. Você já até conheceu e entrevistou alguns desses repórteres, né? Você é diferenciado moleque! É esforçado, dedicado e tem um amor pelo jornalismo gigante.

Antes de se matricular na faculdade, você inventou de trabalhar de auxiliar de caravana, só para conhecer e estar dentro de uma emissora de TV. Saía convidando todo mundo para ir aos programas, principalmente os da TV Bandeirantes, pela qual você tem uma paixão indescritível. Você sempre foi curioso, mas, ao mesmo tempo, ingênuo. Tirava dinheiro do seu bolso para pagar as pessoas para irem na plateia, tudo isso para não dar mancada com as produtoras dos programas. Já quando estava prestes a parar de fazer caravana, descobriu que foi enrolado por uma das caravanistas. Nunca viu a cor do dinheiro que deveria receber por levar as pessoas aos programas. Chateou-se demais com isso, mas relevou.

Lembra de quando você foi muito mal no ENEM e não conseguiu ingressar na faculdade? Se achou incapaz, ficou magoado, não queria mais cursar faculdade. Chegou a pensar que a faculdade só era para quem estudava em escola particular. Quase desistiu, porque não tinha condições de pagar uma faculdade tão cara. Depois de um ano e meio, conseguiu uma bolsa de 50% e ingressou seus estudos na FAPCOM. No fim daquele primeiro semestre foi o único da turma que pegou DP. O script se repetia: se achou incapaz, ficou magoado, chorou….

Mas tu era foda, moleque. Trabalhava à noite em uma empresa de ônibus em Santo Amaro, ia para faculdade (Vila Mariana) virado do trampo, chegava em casa em Embu Guaçu (Grande São Paulo) por volta das 14h para dormir até as 17h30, porque tinha que ir trabalhar. Era compreensível as DPs porque você tinha rotina muito intensa e era seu primeiro contato com a vida acadêmica. Não era igual o ensino médio.  Tinha que ralar para tirar a média que era 8.0. Era difícil, mas você precisava dar um trampo para pagar a faculdade.

Moleque, quando você criou o Blog Bola Rolando tu me encheu de orgulho. Lembro que era apenas para escrever sobre futebol. Viu que deveria ter algo de diferencial em relação aos demais blogs. Então resolveu criar um quadro de entrevistas com cronistas esportivos. Essa sua paixão pelo jornalismo sempre me deixou orgulhoso. Cara, você lembra quando foi para frente do espelho ensaiar para fazer sua primeira entrevista com um jornalista esportivo? Você era chato quando queria entrevistar. Mas estava fazendo apenas a função de jornalista: ser persistente. No Bola Rolando tu fazia tudo cara: produtor, pauteiro, repórter, cinegrafista, editor.

Você cresceu ouvindo rádio e, com o tempo, começou a acompanhar futebol somente pelo dial. Gosta da emoção que esse veículo proporciona. Viu que o rádio seria um bom lugar para trabalhar. Ligou por muitas vezes nas redações das rádios pedindo para visitar e acompanhar um programa esportivo para ver como funciona. Foi muito chato. Ligava a cada 10 minutos até que conseguiu. Batia cartão na extinta Bradesco Esportes FM.

Lembra de quando você falou pela primeira vez ao vivo numa rádio? Apresentou um programa musical com jornalismo na Rádio Paradise FM (Rádio Comunitária da sua cidade). Era da hora ver você se entregando tanto.

E a sua primeira experiência com a reportagem, tá lembrado? Eu tô falando daquela reportagem da Virada Esportiva que você foi voluntariado. Com apenas  um mês de faculdade, você se inscreveu para cobrir a Virada Esportiva e foi lá e fez o trabalho bem feito, né? A reportagem foi parar no site da prefeitura de São Paulo. E lembra de quanto você recebeu? MUITO! A experiência que você adquiriu ali foi crucial para seu aprendizado, moleque! Você ainda estava aprendendo o que era lide, e conseguiu fazer uma boa cobertura.

Você lembra quando brincava de ser repórter da Band? Assistia ao jogo anotando tudo. Quando acabava, ia para frente do computador (que não tinha internet), escrevia a matéria daquele jogo, colocava em um pen drive e ia para a Lan House no outro dia, só para confirmar as informações na internet.  Completava a reportagem e imprimia. Lembro que às vezes a matéria saía ali mesmo na folha do caderno da escola. Todas eram assinadas como Rubens Rodrigues, repórter da Rádio e TV Bandeirantes. Essas matérias você tem guardadas e, às vezes, quando vê que tá difícil, vai lá na caixa e pega as reportagens pra matar saudade.

Você foi um moleque doido pelo jornalismo esportivo e sempre sonhou em trabalhar na TV Band. Era o canal que você mais assistia, porque não tinha TV a cabo e era a emissora que mais tinha programação esportiva. Sua história relembra os antigos narradores que iam para campo de várzea narrar. Você pediu pro seu irmão fazer um microfone de madeira para “brincar” de entrevistar os jogadores. Mandou confeccionar uma camisa de “reportagem” só para se sentir um repórter na beira dos gramados dos campos de várzea de Embu-Guaçu. O microfone era de Karaokê com o fio cortado, a canopla era de madeira com adesivo da Band, que mais tarde daria lugar ao logo do seu blog. Você sempre foi louco rsrs.  

Na Copa do Mundo, gostava de fazer coberturas ao vivo. Cada jogo do Brasil ia para a casa dos amigos e fingia entrar em link ao vivo para ver como estava o ambientes dos brasileiros, saber das expectativas dos torcedores. Para isso, você promovia uma credencial semelhante aos dos jornalistas que trabalhavam na Copa. Já disse que você era louco, né?

Tenho muito o que relatar aqui, mas preciso te alertar de uma coisa: o mercado jornalístico tá bem complicado. Preciso dizer que estou orgulhoso do Rubens que se formou. Ele amadureceu e vê o jornalismo hoje muito diferente de quando era moleque. Hoje ele entende que não existe jornalista que trabalha só com esporte, e sim jornalista que deve saber falar de tudo. Hoje o Rubens escreve para uma grande agência de jornalismo que fala de periferia.

Hoje as pessoas encontram o Rubens e perguntam o que ele vai fazer da vida, uma vez que terminou a faculdade e não está trabalhando na área. “E aí? Agora que terminou a faculdade, você vai trabalhar na TV quando? Ou vai ficar trabalhando em uma gráfica?” Eles não entendem que o Rubens trabalha na área. Na Agência Mural o trabalho lá é bem feito. Ele consegue ter o tesão pelo jornalismo, quando elabora a pauta, entrevista, vai atrás de fonte e senta para escrever.

O Rubens hoje pensa em investir no seu canal para falar de futebol, já que não tem um trampo fixo no jornalismo. O Rubens não quer abandonar o Bola Rolando, porque cada entrevista, texto, reportagem tem uma história que ele lutou muito para conseguir. O Rubens formado tem um recado para o Rubens estudante do ensino médio:

“Obrigado por nunca ter desistido do jornalismo. Obrigado por cada lágrima derramada, sejam elas de alegria por pisar pela primeira vez em um estádio de futebol para reportar um jogo, ou porque estava se formando e viu que não estava trabalhando diretamente com futebol. Rubens, tá difícil, tá foda, tá complicado, mas não desiste não, cara. Lute muito! Nunca foi fácil e nem será. Eu espero que daqui um tempo você possa estar escrevendo outra carta e, nela, você estará ainda melhor do que agora.”

*Rubens Rodrigues acabou de se formar em Jornalismo pelas Faculdades Integradas Rio Branco. Ele escreve para a Agência Mural de Jornalismo das Periferias.

A todos que temem não vencer no jornalismo

*Patrícia Paixão


Boas histórias são para serem compartilhadas. Elas inspiram, elas ajudam a convencer quem pensa em desistir, elas enchem nossos corações de esperança.

Essa é uma história muito bonita sobre uma aluna de jornalismo.
Me lembro do primeiro dia em que dei aula para a Deise Dantas. Pedi que cada aluno se apresentasse para mim e, quando chegou a vez da Deise, ela me encurralou:

“Professora, quero que você seja extremamente sincera. Sou mais velha e estou há muito tempo sem estudar. Eu vou ter chance no mercado jornalístico? Vou conseguir um estágio? Pergunto isso, pois, caso eu não tenha chances, eu vou desistir do curso”.

Eu não costumo vender um “mundo Poliana” aos meus alunos. Com um aperto no peito, encarei Deise e disse a verdade. Expliquei que o mercado dá preferência sim a pessoas mais jovens, que é competitivo e cruel. Mas destaquei que, apesar desse cenário desfavorável, já tive alunos e alunas mais velhxs que, por terem um amor imenso pelo jornalismo, dedicaram-se e perseveraram muito, muito mesmo, conseguindo uma vaga na área.

Deise, então, prosseguiu no curso, mas insegura, sempre duvidando da sua capacidade, do seu texto. Eu permanecia estimulando-a, tentando convencê-la sobre seu potencial.


Em 2015 a faculdade em que eu e Deise estávamos (lá eu era professora e coordenadora do curso de jornalismo) fechou repentinamente. Eu, ela e outros centenas de alunos e professores ficamos desamparados. Consegui me recolocar em um mês, mas muitos dos meus pupilos permaneciam no desespero. A mensalidade na Faculdade do Povo era bem acessível, e eu só conseguia pensar na situação de alunos queridos como a Deise, que dificilmente poderiam arcar com uma mensalidade puxada em outra instituição com a qualidade da FAP. Sim, a Faculdade do Povo era maravilhosa. Tinha quatro estrelas no Guia do Estudante e nota 4 no MEC. Que orgulho daquela faculdade!!


Graças à generosidade e à ajuda da amiga Patrícia Rangel, coordenadora nas Faculdades Integradas Rio Branco, eu, Deise e muitos alunos da FAP fomos acolhidos. Tive que deixar a instituição poucos meses depois (havia conseguido aulas em outras duas universidades e estava muito puxado), mas Deise encontrou na Rio Branco professores maravilhosos. Dentre eles Patrícia Ceolin, Carina Macedo Martini, Renata Carraro e André Rosa de Oliveira, que acabou se tornando seu orientador de TCC.


Ontem eu tive a oportunidade, nesses reencontros maravilhosos que Deus nos proporciona por intermédio dos nossos amigos, de ser avaliadora da banca da Deise. Eu analisei seu livro-reportagem chorando de emoção. Deise, que desconfiava tanto do seu texto, escreveu uma obra linda, com perfis de integrantes de um movimento de luta por moradia em Taboão da Serra. E eu que falei tanto sobre Eliane Brum com Deise, vi vários parágrafos em seu livro que parecem ter sido escritos pela diva do nosso jornalismo. Deise hoje é uma JORNALISTA madura e muito boa. UMA JORNALISTONA dessas que farão a diferença na nossa área, que honrarão a natureza social da profissão.


Ela conseguiu entrar na área. Está fazendo estágio, feliz e orgulhosa das suas conquistas. Deise venceu. Como diz o título do seu livro-reportagem, ela foi do “Chão ao céu”.


E hoje eu sou uma professora boba, rindo sozinha pelos cantos, lembrando da jornalista maravilhosa em que Deise se transformou.

Carta de uma jornalista apaixonada

Carta

Divulgação/Comunique-se

*Por Patrícia Paixão

Em 2016, fui convidada pelo Portal Comunique-se para participar de um especial sobre o Dia do Jornalista.

Fiz esse texto que é minha homenagem a todos que escolheram A MELHOR PROFISSÃO DO MUNDO, O JORNALISMO.

Nele, falo sobre as dores e as delícias de ser jornalista (muito mais delícias que dores), através de uma carta que escrevi para mim mesma. A Patrícia Paixão de 40 anos (hoje 41 rs) escrevendo para a Patrícia Paixão de 19, uma foca.

Me emocionei muito redigindo este texto e sei que ele responde às dúvidas de muitos que pretendem seguir a profissão.

Hoje, 7 de abril de 2017, data em que mais uma vez comemoramos o Dia do Jornalista, republico a cartinha (com a data atualizada), com a mesma carga de emoção que me fez escrevê-la.

Espero que gostem 🙂

FELIZ DIA DO JORNALISTA! FELIZ NOSSO DIA ❤

EU SIMPLESMENTE AAAAAAAAAAAAMO ESSA PROFISSÃO!

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São Paulo, 7 de abril de 2017.

Querida Patrícia,

Tudo bem?

Quem escreve é você mesma, aos 40 anos.

Nesta data em que se comemora o Dia do Jornalista, resolvi te dar alguns conselhos e acabar com certas interrogações que andam colocando na sua cabeça sobre permanecer ou não no curso de jornalismo.

Sei que já te contaram sobre casos de familiares e conhecidos que fizeram jornalismo e não conseguiram trabalhar na área. Ou que trabalharam durante algum tempo e depois acabaram mudando de profissão.

Sei também que andam dizendo que o melhor seria você optar por uma profissão “mais séria” e “que desse mais dinheiro”, para garantir seu futuro e o de sua família.

Pois bem. Em vez de dar ouvido a esses questionamentos, lembre-se do que disse sua estimada professora de Língua Portuguesa do terceiro ano do ensino médio, da escola estadual “Professor José Marques da Cruz”. Lembra como ela te incentivou a prestar jornalismo pelo fato de você escrever bem?

Some a este precioso estímulo seu amor pela leitura e seu jeito inconveniente de querer opinar e estar por dentro de tudo o que acontece, querendo mudar o que considera injusto. Jeito este que lhe rendeu, quando pequena, alguns puxões de orelha, por se meter em “conversas de adulto”, e quebra-paus homéricos (já na adolescência) com alguns de seus familiares por pensar diferente de muitos deles em relação a assuntos polêmicos.

Escute também uma das poucas vozes sensatas que te rondam neste momento, a do seu pai.  Ele insiste em destacar que quem faz o que ama, dando o seu melhor, consegue vencer, por mais difícil que seja a profissão que escolheu. Ele está certo. Acredite!

Rica, realmente, você não vai ser. Pelo menos uma verdade foi dita por essas pessoas que estão empenhadas em te fazer desistir do jornalismo. Pra falar a verdade, aos 40 seus bens se resumirão a uma casa própria modesta e um carro popular “bem detonado”, diga-se de passagem.

Mas você vai conseguir pagar todas as suas contas, realizar alguns sonhos de consumo e, o mais importante, será uma pessoa plenamente realizada em diversos sentidos.

Sabe esse seu horror pela rotina? Pode ficar tranquila, porque, no jornalismo, você não corre o menor risco de ficar entediada. Todo dia conhecerá pessoas novas e aprenderá sobre diferentes assuntos. Começará como locutora da rádio da sua faculdade, comentando sobre Esportes, Economia, Cultura, entre outras editorias. Depois escreverá sobre a colônia japonesa, em um jornal voltado a brasileiros que moram no Japão; trabalhará como colunista de comportamento, escrevendo para pessoas que vivem sozinhas, dando dicas sobre como conquistar alguém; atuará na editoria de Política da agência de notícias de um dos principais jornais do país (a Folha de S.Paulo, que você tanto admira); será editora de duas revistas na área de papel e celulose e no mercado de indústria gráfica; escreverá sobre política tributária em um sindicato de funcionários da Receita Federal e será assessora de imprensa de organizações de diferentes setores.

Sabe esse seu hobby por viagens? Também será atendido. Como jornalista você terá a chance de conhecer diferentes lugares, suas culturas, suas peculiaridades.

Perderá, sim, finais de semana, feriados, Natal, Ano Novo, Carnaval, Páscoa, e adentrará madrugadas na redação. Trabalhará muito, muito mesmo. Mas também se sentirá fazendo parte da história ao participar de coberturas marcantes, como a dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA, um dos dias em que você mais vai trabalhar na vida. Você se sentirá orgulhosa de ter feito essa e outras coberturas. Vai vibrar com cada furo conseguido, com cada elogio que receber do público.

Ficará extremamente grata e sensibilizada ao notar alguns entrevistados contando suas histórias, com lágrimas nos olhos, abrindo suas vidas sofridas para você, vendo em seu trabalho a única saída para seus dilemas, já que o Estado e outras instituições que deveriam zelar pela sua proteção lhes viraram as costas. Você dará voz a essas pessoas que têm suas falas tantas vezes ignoradas e/ou silenciadas e perceberá que, com seu trabalho, a vida delas terá uma chance de ser modificada.

Entrará em contato com personalidades que costumam aparecer na telinha, enchendo os olhos de quem pensa que ser jornalista significa trabalhar na Globo e conquistar a fama. Aliás, ao longo de sua carreira vão te perguntar muitas vezes se você trabalha na vênus platinada. Acostume-se! Você perceberá que este contato com celebridades é irrelevante perto da chance de poder denunciar o que está errado no seu país. Aliás, prepare-se, porque denunciar o que não anda bem significa muitas vezes mexer com interesses de grupos poderosos, dispostos a perseguir e até mesmo calar quem deseja revelar seus mandos e desmandos.

Mas você vai superar cada obstáculo que aparecer no seu caminho, impulsionada pelo prazer de seguir numa profissão tão enobrecedora.

Um dia você decidirá deixar a redação para se tornar professora de jornalismo. Vai fazer essa opção para tentar ter uma vida mais organizada e com o objetivo de passar adiante toda experiência acumulada na área.

Continuará a escrever e a reportar, pois é um “vício” muito bom,  do qual você nunca vai conseguir se desvencilhar, mas desta vez com o pé na sala de aula, ajudando a formar profissionais que estão cheios de dúvidas e expectativas, como você está neste momento, aos 19, no primeiro ano do curso de jornalismo.

Lecionar será uma experiência igualmente enriquecedora. Você poderá discutir os erros e acertos que vê na profissão, passando seu idealismo e sua paixão aos discentes.

Em muitas aulas você vai se empolgar ensinando as técnicas de entrevista e reportagem que aprendeu ao longo da carreira. Vai comemorar cada conquista dos seus alunos como se fosse sua. Conseguirá ver seus sonhos jornalísticos sendo colocados em prática pelos seus pupilos, como se eles estivessem incorporando um pouquinho de você dia a dia.

Aos 40, você vai ouvir muita gente dizendo que o jornalismo está em crise. Sabe por quê? É que este novo meio de comunicação, que nesse momento você está vendo nascer, a tal da internet, ganhará força e realmente abalará os veículos tradicionais, dando a qualquer pessoa a oportunidade de divulgar informação. O impresso, em especial, perderá muitos leitores para a internet, que veiculará a notícia de forma mais rápida e sintética. Muitos dirão que a mídia impressa vai desaparecer. Haverá também uma dependência ainda maior da mídia em relação aos seus anunciantes e a grupos políticos e econômicos. Tente não se abalar com esses acontecimentos. Com um pouco de observação e cautela, você perceberá que a informação com credibilidade continuará dependendo do bom jornalismo, ou seja, da apuração, do bom texto e de todas as técnicas que você aprendeu na faculdade.

Você vai ver muitos colegas serem demitidos devido a tal crise do jornalismo? Sim, verá. Mas também verá formas interessantes de reportagem surgindo na internet, um jornalismo independente de interesses políticos e econômicos, como não vemos nas grandes redações. Muitos colegas sem espaço na grande imprensa apostarão nessas novas formas de comunicação, que buscam outros caminhos de sustentação financeira, a partir da contribuição do próprio público. Grandes reportagens continuarão a ser feitas, revelando feridas e males da nossa sociedade, mostrando que, apesar de todo o cenário de incertezas, o jornalismo continua sendo essencial.

Por tudo isso, querida Patrícia, digo com segurança: pode seguir tranquilamente no curso que escolheu.

Só não perca nunca sua sensibilidade social, sua perseverança e o seu amor pela profissão. Essa coisa do brilho no olhar, sabe? Brilho no olhar é TUDO! Ao longo da carreira você verá que os profissionais mais bem sucedidos são os que mantiveram o tesão pela área, a esperança de que você pode mudar o mundo com uma reportagem. É uma ilusão pensar assim? Sim, é! Mas é uma ambição extremamente importante para quem está numa profissão de natureza social.

Fácil não será. Aliás, vai ser bem difícil. Você vai ouvir pelo menos uns 30 “nãos” até conseguir sua primeira oportunidade de trabalho num mercado que é extremamente competitivo, e que ficará cada vez mais disputado. Ganhará pouco e nem sempre vai ser devidamente reconhecida, mas, com certeza, será feliz por fazer o que gosta e ver na sua carreira uma oportunidade de colaborar com um mundo melhor. Quer maior riqueza que esta??

Nos vemos daqui a 20 anos. Pode estar certa de que você não terá se arrependido. Como disse o mestre Gabriel García Márquez, esta é “a melhor profissão do mundo”. Não me imagino fazendo outra coisa.

Patrícia Paixão é jornalista e professora do curso de jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi, da Universidade Presbiteriana Mackenzie e das Faculdades Integradas Rio Branco. É também responsável pelo blog Formando Focas (www.formandofocas.com), voltado a estudantes de jornalismo e jornalistas recém-formados.

 

Precisa entrevistar???

*Patrícia Paixão

Dentre as várias categorias de estudantes de jornalismo, uma das mais bizarras é a dos que não gostam de fazer entrevista.

Não, você não leu errado. Eles querem ser repórteres, mas não gostam de entrevistar. Poderiam ter escolhido medicina, arquitetura, administração, direito, agronomia, mas escolheram jornalismo e reclamam quando são pautados para ir pra rua.

Há alguns anos tenho me deparado em sala de aula com esta figurinha e confesso que continuo com a mesma estupefação.

Quando cobrados nos exercícios de reportagem, saem logo com uma dessas:“tem mesmo que entrevistar, professora? Eu tenho um material ótimo que dá conta do assunto.”

Outra saída típica é: “a amiga da minha mãe vive exatamente essa situação da pauta, professora. Posso ouvi-la?”. Ou: “tem um médico no posto de saúde lá da minha rua que é excelente pra essa matéria”. Isso sem contar os casos de aspas inventadas… (abafa!)

A resposta é sempre taxativa: SIM, VAI TER MESMO QUE ENTREVISTAR! E PRESENCIALMENTE!

E NÃO! SEU PAI, A AMIGA DA SUA MÃE, O MÉDICO DA SUA RUA, O OBREIRO DA SUA IGREJA E O SEU VIZINHO NÃO SÃO FONTES! CHEGA DE “FONTE-AMIGA”, essa praga das salas de aula de jornalismo. Aff!

A entrevista é uma das etapas essenciais do processo de apuração, ao lado da pesquisa. É a matéria-prima do Jornalismo. É ouvindo os diferentes lados de uma história que conseguimos retratá-la com fidelidade. Na maioria das vezes o conhecimento que nós, jornalistas, temos do fato não vem de nós mesmos, mas das fontes.Se você está escrevendo um texto sem entrevista, sorry, mas você está fazendo qualquer coisa menos reportagem. E não adianta entrevistar conhecidos para se livrar rapidamente de uma tarefa que deveria ser um prazer na sua vida e não um estorvo. Você precisa de fontes de credibilidade para que seu texto seja lido. O que gera mais leitura? Uma matéria sobre doenças coronárias que traz aspas do cardiologista do posto de saúde da sua rua (por melhor que ele seja, e ele realmente pode ser ótimo, mas não é conhecido do grande público) ou do cardiologista-chefe de um hospital de renome como o Albert Einstein, Hospital das Clínicas ou Sírio Libanês?

A lei do mínimo esforço infelizmente prevalece. E é por isso que hoje vemos aos montes blogs de estudantes de Jornalismo que são meros achismos. Como é chato e desnecessário esse tipo de blog. Será mesmo que essas pessoas acham que já no primeiro, segundo ou terceiro ano de faculdade têm credibilidade suficiente para arrebatar leitores apenas com opinião (muitas vezes palpite de boteco)? E aí você tem que botar na cabeça dos caixas d´águas (alcunha “carinhosa” que costumo dar aos estudantes sem noção, que agem como se seus cérebros fossem uma gigante caixa da Brasilit): escuta, você ainda não é um Clóvis Rossi, um Jânio de Freitas, um Paulo Vinícius Coelho. Existe um caminho natural no jornalismo ou que pelo menos deveria existir: primeiro o cara rala muito fazendo reportagem pra depois ter respaldo para ser um articulista, um colunista. Tudo bem que o blog dá liberdade para textos opinativos e é importante sim que o aluno de jornalismo seja crítico, que tenha opinião. Mas não dá para se limitar a esse tipo de texto. Um estudante ainda tem uma imagem a ser construída, muita leitura pra fazer, muito conhecimento pra adquirir, antes de sair ditando como as coisas devem ser. Com certeza conseguiria muito mais visitantes para o blog,se investisse em entrevistas e pesquisa, produzindo reportagens capazes de furar a mídia tradicional. É dessa forma, aliás, que o jornalismo de blog tem se destacado.

E não adianta reclamar também do tempo para entrevistar. Você dá um mês para o cara fazer três, quatro entrevistas, e ele acha um absurdo. Meu, querido, na redação de um veículo hard news você vai fazer bem mais que três entrevistas numa manhã ou tarde! Mesmo em veículos que contam com deadlines mais amenos essa cobrança acontece. Quando era editora e repórter de duas revistas segmentadas, cheguei a entregar em uma semana uma reportagem que envolveu 14 entrevistados e muito pé na rua.

Tá mais do que na hora de quem não gosta de entrevista repensar a escolha do curso. O segredo do sucesso no jornalismo passa por: trabalho, trabalho, trabalho, tesão, tesão, tesão, humildade, humildade, humildade. Se você não sente prazer em entrevistar e não quer se esforçar, pois acha que já tem respaldo suficiente para escrever um texto sem apuração, não vai conseguir crescer na área. A não ser que seja pelo famoso QI (se algum doido resolver te indicar – eu nunca, pois tenho um nome a zelar) e, mesmo assim, se estiver em uma empresa jornalística séria, corre o risco de não durar muito tempo no cargo. O esforço de reportagem -número de entrevistas feitas, grau de dificuldade de contato com os entrevistados, credibilidade das fontes ouvidas, distância percorrida para fazer as entrevistas, pesquisa de campo, entre outras coisas – é cuidadosamente avaliado na banca de um Trabalho de Conclusão de Curso de jornalismo, momento-chave para dizer se o aluno está pronto ou não para ir para o mercado. Os professores-avaliadores levam em conta esses fatores exatamente porque sabem que, sem entrevista, não dá samba, não dá reportagem. E reportagem é a alma do jornalismo.

Então, #ficaadica. Pense bem se é mesmo jornalismo que você quer. Você é foca e não bicho-preguiça!

Imagem: Pixabay

Esperiência em asseçoria de impressa

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 *Patrícia Paixão

A dificuldade para conseguir um estágio em jornalismo é uma reclamação recorrente que ouço dos alunos em sala de aula. Muitos estudantes colocam a culpa na exigência que o mercado faz de experiência na área (sendo que eles ainda estão na faculdade), no famoso QI (quem indica), entre outros fatores.

Não questiono a pertinência desses argumentos. É claro que eles contribuem para tornar mais difícil a disputa por uma vaga para praticar a profissão. Só que, na verdade, o que percebo é que esses não têm sido fatores decisivos para excluir um candidato de uma vaga. O desrespeito à nossa língua mãe, o português, é, muitas vezes, o verdadeiro vilão.

Falo não só como professora e jornalista, mas no papel de recrutadora, que já exerci em diversas ocasiões. O motivo para eu “deletar” logo de cara um candidato, antes mesmo de conhecê-lo, é encontrar no campo assunto do e-mail o título “Curriculo para o estagio”, sem acento nas palavras currículo e estágio; ou no corpo da mensagem ou do currículo encontrar algo como: “tenho esperiência em asseçoria de impressa”, em vez de tenho experiência em assessoria de imprensa. Esses não são exemplos inventados. São casos que tive o desprazer de presenciar…

Não sou especialista em Língua Portuguesa e confesso que ainda hoje tenho dificuldades com algumas questões da nossa gramática, mas uma coisa felizmente aprendi a ter: zelo, muuuuuito zelo com o português. Afinal, é a minha imagem que está por trás do que eu escrevo.

Isso quer dizer que, após fazer um texto, você deve revisar, revisar, revisar, revisar e revisar… quantas vezes puder! Consulte o dicionário, um professor, aquele seu amigo que escreve bem e domina a língua. E tem que ser aquele amigo crítico e sincero e não um que vai fingir que seu texto está maravilhoso para te agradar, sendo que ele traz um “derrepente” ou um “não tem nada haver”.

Jornalistas, mais do que qualquer outro profissional (à exceção dos professores de português, é claro), devem ter uma boa gramática e ortografia. Uma reportagem bem apurada, com diversas fontes e profunda pesquisa, pode perder toda sua credibilidade por conta de um erro ortográfico.

Você pode falar inglês, espanhol, francês, ter feito dezenas de cursos na área e assistido a várias palestras interessantes sobre jornalismo. Pode ser uma pessoa criativa, proativa, inteligente, com ótimo relacionamento interpessoal. Mesmo assim, se deslizar no português em um e-mail ao empregador, certamente não será chamado para uma entrevista.

Essa dica é válida, inclusive, para as redes sociais, territórios nos quais os queridos focas acham que “tudo é permitido”. Cuidado, muito cuidado. Aquele simples post sobre o Timão ou o São Paulo que traz a pérola “Seu time é bom, mais o meu é melhor” (emprego de “mais” em vez de “mas”) pode deixá-lo com um péssimo conceito. Diversas reportagens e profissionais da área têm destacado que hoje as empresas utilizam o perfil do candidato no Twitter e/ou no Facebook como um dos fatores influenciadores na contratação. Portanto, isso não é exagero como muitos costumam pensar.

Se há a crítica dos alunos com relação à dificuldade para estagiar, há na mesma proporção o lamento de colegas jornalistas, que afirmam ser complicado selecionar um estagiário que tenha um texto bom, sem erros de português. No livro Mestres da Reportagem (produzido pelos meus alunos da FAPSP – Faculdade do Povo) muitos repórteres apontam o respeito à língua como um dos pré-requisitos essenciais de quem pretende ser um bom jornalista.

Portanto, não tenha preguiça de consultar a grafia correta de uma palavra e revisar os seus textos. A começar daqueles que você entrega para os seus professores no curso de Jornalismo. Lembre-se de que seus mestres serão os primeiros “recrutadores”, te recomendando ou não para vagas das quais eles têm conhecimento. Eles certamente não vão recomendar um aluno que tenha problemas com o português, pois é o nome deles (um nome que eles construíram durante muitos anos) que estará em jogo.

Eu costumo brincar com meus alunos: “Sejam neuróticos com o português!”. O mesmo vale para você que em breve ingressará na profissão. Baixe um corretor ortográfico e uma minigramática no celular, ande com um dicionário (que já esteja em conformidade com o novo acordo ortográfico) na bolsa. Se necessário, faça aulas particulares com uma boa professora de Língua Portuguesa, para combater seus pontos fracos. Seja humilde em admitir que nossa língua é complexa e precisa ser tratada com seriedade. Uma boa dose de neurose lhe fará muito bem. Pode ter certeza!