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Carta de um recém-formado em jornalismo para um estudante do ensino médio

*Rubens Rodrigues

Fala, Moleque!

Sabe aquele sonho que você projetou há dez anos? Venho te falar que ele se realizou. Você se formou! Você é jornalista e eu tenho um baita orgulho do caminho que percorreu até chegar aqui. Te escrevo não apenas para te parabenizar, mas para relembrar do quanto você foi forte nesse percurso.

Você nunca foi fã do Racionais, muito menos do gênero musical que o grupo canta, mas recentemente tá ouvindo bastante, né? Talvez porque algumas de suas letras fazem você refletir e lembrar do quanto foi difícil a caminhada.

“É necessário sempre acreditar que o sonho é possível. Que o Céu e o limite e você, truta, é imbatível. Que o tempo ruim vai passar, é só uma fase. E o sofrimento alimenta mais a sua coragem.”

Lembra daquele pivete de 14 anos que ia pra escola com camisa de time, que só falava de futebol na sala, e, nas aulas de Educação Física, brincava de narrar futebol e entrevistar os jogadores? Hoje não é mais brincadeira. Os entrevistados não são mais os amigos. Hoje você é um profissional do jornalismo.

Na escola você não via a hora da aula acabar pra assistir aos programas esportivos. Gostava de se informar sobre o mundo da bola. Durante as passagens de cada repórter, sonhava: “Um dia o GC será Rubens Rodrigues em vez de Fernando Fernandes, Nivaldo De Cillo, Felipe Kileing, Marcio Gontijo, João Paulo Vergueiro, Fábio Neves, Sandro Gama e outros repórteres que apareciam nos programas “Jogo Aberto” e “SPA Acontece”. Você já até conheceu e entrevistou alguns desses repórteres, né? Você é diferenciado moleque! É esforçado, dedicado e tem um amor pelo jornalismo gigante.

Antes de se matricular na faculdade, você inventou de trabalhar de auxiliar de caravana, só para conhecer e estar dentro de uma emissora de TV. Saía convidando todo mundo para ir aos programas, principalmente os da TV Bandeirantes, pela qual você tem uma paixão indescritível. Você sempre foi curioso, mas, ao mesmo tempo, ingênuo. Tirava dinheiro do seu bolso para pagar as pessoas para irem na plateia, tudo isso para não dar mancada com as produtoras dos programas. Já quando estava prestes a parar de fazer caravana, descobriu que foi enrolado por uma das caravanistas. Nunca viu a cor do dinheiro que deveria receber por levar as pessoas aos programas. Chateou-se demais com isso, mas relevou.

Lembra de quando você foi muito mal no ENEM e não conseguiu ingressar na faculdade? Se achou incapaz, ficou magoado, não queria mais cursar faculdade. Chegou a pensar que a faculdade só era para quem estudava em escola particular. Quase desistiu, porque não tinha condições de pagar uma faculdade tão cara. Depois de um ano e meio, conseguiu uma bolsa de 50% e ingressou seus estudos na FAPCOM. No fim daquele primeiro semestre foi o único da turma que pegou DP. O script se repetia: se achou incapaz, ficou magoado, chorou….

Mas tu era foda, moleque. Trabalhava à noite em uma empresa de ônibus em Santo Amaro, ia para faculdade (Vila Mariana) virado do trampo, chegava em casa em Embu Guaçu (Grande São Paulo) por volta das 14h para dormir até as 17h30, porque tinha que ir trabalhar. Era compreensível as DPs porque você tinha rotina muito intensa e era seu primeiro contato com a vida acadêmica. Não era igual o ensino médio.  Tinha que ralar para tirar a média que era 8.0. Era difícil, mas você precisava dar um trampo para pagar a faculdade.

Moleque, quando você criou o Blog Bola Rolando tu me encheu de orgulho. Lembro que era apenas para escrever sobre futebol. Viu que deveria ter algo de diferencial em relação aos demais blogs. Então resolveu criar um quadro de entrevistas com cronistas esportivos. Essa sua paixão pelo jornalismo sempre me deixou orgulhoso. Cara, você lembra quando foi para frente do espelho ensaiar para fazer sua primeira entrevista com um jornalista esportivo? Você era chato quando queria entrevistar. Mas estava fazendo apenas a função de jornalista: ser persistente. No Bola Rolando tu fazia tudo cara: produtor, pauteiro, repórter, cinegrafista, editor.

Você cresceu ouvindo rádio e, com o tempo, começou a acompanhar futebol somente pelo dial. Gosta da emoção que esse veículo proporciona. Viu que o rádio seria um bom lugar para trabalhar. Ligou por muitas vezes nas redações das rádios pedindo para visitar e acompanhar um programa esportivo para ver como funciona. Foi muito chato. Ligava a cada 10 minutos até que conseguiu. Batia cartão na extinta Bradesco Esportes FM.

Lembra de quando você falou pela primeira vez ao vivo numa rádio? Apresentou um programa musical com jornalismo na Rádio Paradise FM (Rádio Comunitária da sua cidade). Era da hora ver você se entregando tanto.

E a sua primeira experiência com a reportagem, tá lembrado? Eu tô falando daquela reportagem da Virada Esportiva que você foi voluntariado. Com apenas  um mês de faculdade, você se inscreveu para cobrir a Virada Esportiva e foi lá e fez o trabalho bem feito, né? A reportagem foi parar no site da prefeitura de São Paulo. E lembra de quanto você recebeu? MUITO! A experiência que você adquiriu ali foi crucial para seu aprendizado, moleque! Você ainda estava aprendendo o que era lide, e conseguiu fazer uma boa cobertura.

Você lembra quando brincava de ser repórter da Band? Assistia ao jogo anotando tudo. Quando acabava, ia para frente do computador (que não tinha internet), escrevia a matéria daquele jogo, colocava em um pen drive e ia para a Lan House no outro dia, só para confirmar as informações na internet.  Completava a reportagem e imprimia. Lembro que às vezes a matéria saía ali mesmo na folha do caderno da escola. Todas eram assinadas como Rubens Rodrigues, repórter da Rádio e TV Bandeirantes. Essas matérias você tem guardadas e, às vezes, quando vê que tá difícil, vai lá na caixa e pega as reportagens pra matar saudade.

Você foi um moleque doido pelo jornalismo esportivo e sempre sonhou em trabalhar na TV Band. Era o canal que você mais assistia, porque não tinha TV a cabo e era a emissora que mais tinha programação esportiva. Sua história relembra os antigos narradores que iam para campo de várzea narrar. Você pediu pro seu irmão fazer um microfone de madeira para “brincar” de entrevistar os jogadores. Mandou confeccionar uma camisa de “reportagem” só para se sentir um repórter na beira dos gramados dos campos de várzea de Embu-Guaçu. O microfone era de Karaokê com o fio cortado, a canopla era de madeira com adesivo da Band, que mais tarde daria lugar ao logo do seu blog. Você sempre foi louco rsrs.  

Na Copa do Mundo, gostava de fazer coberturas ao vivo. Cada jogo do Brasil ia para a casa dos amigos e fingia entrar em link ao vivo para ver como estava o ambientes dos brasileiros, saber das expectativas dos torcedores. Para isso, você promovia uma credencial semelhante aos dos jornalistas que trabalhavam na Copa. Já disse que você era louco, né?

Tenho muito o que relatar aqui, mas preciso te alertar de uma coisa: o mercado jornalístico tá bem complicado. Preciso dizer que estou orgulhoso do Rubens que se formou. Ele amadureceu e vê o jornalismo hoje muito diferente de quando era moleque. Hoje ele entende que não existe jornalista que trabalha só com esporte, e sim jornalista que deve saber falar de tudo. Hoje o Rubens escreve para uma grande agência de jornalismo que fala de periferia.

Hoje as pessoas encontram o Rubens e perguntam o que ele vai fazer da vida, uma vez que terminou a faculdade e não está trabalhando na área. “E aí? Agora que terminou a faculdade, você vai trabalhar na TV quando? Ou vai ficar trabalhando em uma gráfica?” Eles não entendem que o Rubens trabalha na área. Na Agência Mural o trabalho lá é bem feito. Ele consegue ter o tesão pelo jornalismo, quando elabora a pauta, entrevista, vai atrás de fonte e senta para escrever.

O Rubens hoje pensa em investir no seu canal para falar de futebol, já que não tem um trampo fixo no jornalismo. O Rubens não quer abandonar o Bola Rolando, porque cada entrevista, texto, reportagem tem uma história que ele lutou muito para conseguir. O Rubens formado tem um recado para o Rubens estudante do ensino médio:

“Obrigado por nunca ter desistido do jornalismo. Obrigado por cada lágrima derramada, sejam elas de alegria por pisar pela primeira vez em um estádio de futebol para reportar um jogo, ou porque estava se formando e viu que não estava trabalhando diretamente com futebol. Rubens, tá difícil, tá foda, tá complicado, mas não desiste não, cara. Lute muito! Nunca foi fácil e nem será. Eu espero que daqui um tempo você possa estar escrevendo outra carta e, nela, você estará ainda melhor do que agora.”

*Rubens Rodrigues acabou de se formar em Jornalismo pelas Faculdades Integradas Rio Branco. Ele escreve para a Agência Mural de Jornalismo das Periferias.

Não tem ponto final, não tem ponto final, não tem ponto final…

*Patrícia Paixão

Inaugurando no blog, que também é novo, a categoria “Neura do Dia”. Porque todo jornalista que se preza precisa ser neurótico em fazer um bom jornalismo.

E pra começar nada melhor do que falar da incrível mania do aluno de jornalismo de colocar ponto final em título. Tá, parece bobeira, mas não é. Para ser um bom profissional na área também é preciso respeitar a linguagem jornalística.

Então, nada de ponto final em título, subtítulo e legenda. Chega dessa tara! Aff!

E pra ter certeza de que você resistirá a essa tentação do capeta, repita comigo, como um mantra, por pelo menos dez vezes:

NÃO TEM PONTO FINAL! NÃO TEM PONTO FINAL! NÃO TEM PONTO FINAL! NÃO TEM PONTO FINAL! NÃO TEM PONTO FINAL! NÃO TEM PONTO FINAL! NÃO TEM PONTO FINAL! NÃO TEM PONTO FINAL! NÃO TEM PONTO FINAL! NÃO TEM PONTO FINAL! NÃO TEM PONTO FINAL!

Adicione essa neura aos seus textos jornalísticos e faça seus professores felizes 🙂

Esperiência em asseçoria de impressa

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 *Patrícia Paixão

A dificuldade para conseguir um estágio em jornalismo é uma reclamação recorrente que ouço dos alunos em sala de aula. Muitos estudantes colocam a culpa na exigência que o mercado faz de experiência na área (sendo que eles ainda estão na faculdade), no famoso QI (quem indica), entre outros fatores.

Não questiono a pertinência desses argumentos. É claro que eles contribuem para tornar mais difícil a disputa por uma vaga para praticar a profissão. Só que, na verdade, o que percebo é que esses não têm sido fatores decisivos para excluir um candidato de uma vaga. O desrespeito à nossa língua mãe, o português, é, muitas vezes, o verdadeiro vilão.

Falo não só como professora e jornalista, mas no papel de recrutadora, que já exerci em diversas ocasiões. O motivo para eu “deletar” logo de cara um candidato, antes mesmo de conhecê-lo, é encontrar no campo assunto do e-mail o título “Curriculo para o estagio”, sem acento nas palavras currículo e estágio; ou no corpo da mensagem ou do currículo encontrar algo como: “tenho esperiência em asseçoria de impressa”, em vez de tenho experiência em assessoria de imprensa. Esses não são exemplos inventados. São casos que tive o desprazer de presenciar…

Não sou especialista em Língua Portuguesa e confesso que ainda hoje tenho dificuldades com algumas questões da nossa gramática, mas uma coisa felizmente aprendi a ter: zelo, muuuuuito zelo com o português. Afinal, é a minha imagem que está por trás do que eu escrevo.

Isso quer dizer que, após fazer um texto, você deve revisar, revisar, revisar, revisar e revisar… quantas vezes puder! Consulte o dicionário, um professor, aquele seu amigo que escreve bem e domina a língua. E tem que ser aquele amigo crítico e sincero e não um que vai fingir que seu texto está maravilhoso para te agradar, sendo que ele traz um “derrepente” ou um “não tem nada haver”.

Jornalistas, mais do que qualquer outro profissional (à exceção dos professores de português, é claro), devem ter uma boa gramática e ortografia. Uma reportagem bem apurada, com diversas fontes e profunda pesquisa, pode perder toda sua credibilidade por conta de um erro ortográfico.

Você pode falar inglês, espanhol, francês, ter feito dezenas de cursos na área e assistido a várias palestras interessantes sobre jornalismo. Pode ser uma pessoa criativa, proativa, inteligente, com ótimo relacionamento interpessoal. Mesmo assim, se deslizar no português em um e-mail ao empregador, certamente não será chamado para uma entrevista.

Essa dica é válida, inclusive, para as redes sociais, territórios nos quais os queridos focas acham que “tudo é permitido”. Cuidado, muito cuidado. Aquele simples post sobre o Timão ou o São Paulo que traz a pérola “Seu time é bom, mais o meu é melhor” (emprego de “mais” em vez de “mas”) pode deixá-lo com um péssimo conceito. Diversas reportagens e profissionais da área têm destacado que hoje as empresas utilizam o perfil do candidato no Twitter e/ou no Facebook como um dos fatores influenciadores na contratação. Portanto, isso não é exagero como muitos costumam pensar.

Se há a crítica dos alunos com relação à dificuldade para estagiar, há na mesma proporção o lamento de colegas jornalistas, que afirmam ser complicado selecionar um estagiário que tenha um texto bom, sem erros de português. No livro Mestres da Reportagem (produzido pelos meus alunos da FAPSP – Faculdade do Povo) muitos repórteres apontam o respeito à língua como um dos pré-requisitos essenciais de quem pretende ser um bom jornalista.

Portanto, não tenha preguiça de consultar a grafia correta de uma palavra e revisar os seus textos. A começar daqueles que você entrega para os seus professores no curso de Jornalismo. Lembre-se de que seus mestres serão os primeiros “recrutadores”, te recomendando ou não para vagas das quais eles têm conhecimento. Eles certamente não vão recomendar um aluno que tenha problemas com o português, pois é o nome deles (um nome que eles construíram durante muitos anos) que estará em jogo.

Eu costumo brincar com meus alunos: “Sejam neuróticos com o português!”. O mesmo vale para você que em breve ingressará na profissão. Baixe um corretor ortográfico e uma minigramática no celular, ande com um dicionário (que já esteja em conformidade com o novo acordo ortográfico) na bolsa. Se necessário, faça aulas particulares com uma boa professora de Língua Portuguesa, para combater seus pontos fracos. Seja humilde em admitir que nossa língua é complexa e precisa ser tratada com seriedade. Uma boa dose de neurose lhe fará muito bem. Pode ter certeza!