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“O jornalismo é uma profissão de pessoas simples”, destaca José Hamilton Ribeiro, no lançamento do livro que resgata sua trajetória

*Rosângela Tomas de Carvalho e Tatiane Cordeiro, estudantes de jornalismo da FAPSP

Imagens: Sidney Barbalho de Souza

Ricardo Kotscho, Percival de Souza, Carlos Moraes, Fabbio Perez, Sérgio Dávila e outros grandes nomes da reportagem brasileira reuniram-se, em 03/10, na Livraria da Vila, da Alameda Lorena, para prestigiar o lançamento do livro “O jornalista mais premiado do Brasil”, que conta a trajetória de José Hamilton Ribeiro.

Escrita pelo jornalista araçatubense Arnon Gomes, a obra faz um regaste linear dos 60 anos de carreira daquele que é considerado o “repórter do século”- de 1955, quando José Hamilton trabalhava no jornal O Tempo (criado por jornalistas oriundos da Folha de S. Paulo), até o momento atual, em que o repórter está no Globo Rural, da Rede Globo.

“Fiquei tranquilo quando um amigo muito crítico e rigoroso me falou que o livro era digno e realçava pontos interessantes da minha trajetória”, relatou José Hamilton, no bate-papo com Arnon Gomes e o público, antes da sessão de autógrafos da obra. Com seu jeito tímido e brincalhão, o jornalista confessou que se sentia embaraçado por estar, naquele momento, na condição de objeto estudado.

O livro, que foi fruto de um Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo apresentado à Universidade Santa Cecília (Unisanta), de Santos (SP), levou 11 anos para ser aprimorado. Além da pesquisa a documentos e reportagens históricas de Zé Hamilton, Arnon Gomes ouviu mais de 30 entrevistados, entre familiares, colegas de profissão e amigos antigos de Zé.

O autor relata que ficou surpreendido com a humildade do jornalista e com toda sua carga de conhecimento. “A experiência do Zé é totalmente enriquecedora, nem na faculdade temos isso. Aprendi muito fazendo o livro”, disse Gomes.

A inspiração para escrever a obra veio da admiração que o autor tem pelas reportagens que Zé Hamilton fez para a revista Realidade, publicação que foi um marco no jornalismo brasileiro, pela inovação no projeto editorial e gráfico, com imagens impactantes, diagramação ousada e textos aprofundados e com linguagem literária, explorando temas muitas vezes polêmicos.

Segundo Gomes, a escolha do titulo foi marcada por dúvidas, desde o começo do processo de produção da obra, até que um ranking feito em 2013 acabou com o dilema, pois apontou Zé Hamilton como o primeiro colocado dos 200 jornalistas mais premiados do Brasil.

Conversa com o público

Durante o bate papo, Zé Hamilton não se limitou a falar sobre o livro. Respondeu a diversas perguntas da plateia referentes à sua carreira e contou detalhes sobre o acidente durante a cobertura que fez da Guerra do Vietnã em 1968 (para a revista Realidade), que lhe custou uma perna. “Quando a explosão ocorreu não pensei que tivesse me atingindo, pensei que tivesse sido algum soldado. Quando dei por conta que era comigo, três medos me passaram pela cabeça: primeiro o medo de morrer, devido ao sangramento; segundo, o medo de ficar incapacitado de trabalhar e, em terceiro, o medo de ser conhecido como o jornalista que foi atingido em uma guerra e depois não fez mais nada”, lembrou o repórter emocionado, complementando que, felizmente, superou todos esses temores.

Zé Hamilton, que é conhecido por sua simplicidade, ressaltou que “o jornalismo é uma profissão de pessoas simples”. Para ele, “a humildade é uma das características mais importantes de um repórter”.

Referindo-se a Zé Hamilton como “um dos grandes repórteres brasileiros”, Percival de Souza destacou que “a alma do jornalismo é a reportagem, e que a reportagem é a arte de reconstruir os fatos”. Ele revelou que Zé Hamilton foi seu padrinho na profissão. “É um detalhe que jamais esquecerei em minha vida”, disse Percival.

Fazendo jus ao seu instinto de repórter, Ricardo Kotscho fez a pergunta polêmica do evento, levando a plateia às gargalhadas. “Arnon, todo mundo fala bem do José Hamilton, mas eu quero que você me conte: qual é o defeito dele?”. Arnon respondeu que era complicado responder à pergunta, por conta da maneira extremamente humilde, simpática e simples com que Zé Hamilton lhe tratou desde o início do processo de criação do livro.

Kotscho relatou que nunca trabalhou com Zé, mas que eles sempre estão juntos em eventos sobre jornalismo. “Ele era meu ídolo, era um grande repórter brasileiro já nos anos 60”, contou.

Arnon Gomes foi questionado pelo jornalista Carlos Moraes (que também trabalhou na revista Realidade) sobre as diferenças que ele notou, ao escrever o livro de José Hamilton, entre o jornalismo do passado e o de hoje. O autor respondeu que gostaria que o jornalismo atual fosse mais parecido com o de décadas anteriores, quando as reportagens e um texto mais atrativo eram valorizados.

O autor também revelou algumas passagens interessantes de seu livro. A principal delas, em sua visão, é o trecho em que ele conta o episódio em que Zé Hamilton foi expulso da faculdade [Cásper Líbero], por seu engajamento no movimento estudantil. Zé retornou à instituição dez anos depois, porém como professor.

Após o bate-papo, o autor e o homenageado fizeram a sessão de autógrafos e fotos, atendendo ao público. Zé Hamilton demonstrou bastante alegria ao ver sua filha Ana Teresa, a Teté, com seu genro, o jornalista Sérgio Dávila, editor-executivo da Folha de S.Paulo, e suas netas Rita e Cissi, que também prestigiaram o evento.

*OBS: Esse texto produzido pelas minhas alunas também foi publicado no portal Comunique-se

“A cobertura que se faz da Amazônia é exótica e não contribui com a população local ”, diz Lúcio Flávio Pinto

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Por Kaique Dalapola, Katia Barreto, Gigi Pavanello e Vinícius Vieira, alunos de Jornalismo da FAPSP (Faculdade do Povo)

Grandes nomes do jornalismo brasileiro participaram, na quarta-feira (02/09), da segunda edição da série “Repórter”, realizada no Itaú Cultural, na Av. Paulista. Organizada pela jornalista e escritora Eliane Brum, a série tem como objetivo homenagear e registrar a memória de grandes repórteres do nosso país, no formato de entrevistas abertas, que contam com a interação do público.

O homenageado nessa edição foi José Hamilton Almeida, considerado o “Repórter do Século”, por ter vivido coberturas históricas, como a da Guerra do Vietnã (quando perdeu uma perna, depois que pisou acidentalmente em uma mina), e ter mais de 60 anos de reportagem. Mas o evento foi aberto com uma entrevista com outro grande mestre, o jornalista Lúcio Flávio Pinto.

Nascido em Santarém (Pará), há 65 anos, Lúcio Flávio Pinto passou pelos jornais Correio da Manhã (Rio de Janeiro), O Estado de São Paulo, O Liberal (Pará) e a Província do Pará. Formado em Sociologia, abriu o evento revelando que optou por estudar essa graduação, “pois já trabalhava há muito tempo com jornalismo”.

Hoje, o repórter segue com seu “Jornal Pessoal”, publicação criada e dirigida por ele há 28 anos, na qual faz análises profundas do contexto político e social da Amazônia. É um trabalho independente e de muita coragem e perseverança, já que o repórter não conta com anunciantes e se dedica a apontar as mazelas da região.

Além de Eliane Brum como mediadora, a roda de conversa contou com as presenças de Leonencio Nossa (correspondente do “Estado de São Paulo” em Brasília), Paulina Chamorro (Rádio Estadão e Eldorado) e Claudiney Ferreira (jornalista e gerente do Núcleo de Audiovisual e Literatura do Itaú Cultural).

Para se ter ideia do espírito combativo de Lúcio Flávio, os jornalistas participantes da entrevista lembraram que o repórter, no início de sua carreira, fazia oposição ao seu próprio pai (Elias Ribeiro Pinto, prefeito de Santarém/PA), no jornal “Província do Pará”. Lúcio respondeu que “apesar de ter sido um bom prefeito”, as críticas que ele fazia ao pai eram “merecidas”.

Por conta de suas matérias ácidas e engajadas, denunciando nomes fortes da elite amazônica, Lúcio coleciona uma porção de desafetos. Ele já respondeu a 33 processos na justiça, o mais conhecido foi o caso envolvendo Ronaldo Maiorana, diretor da Comissão de Defesa à Liberdade de Imprensa pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Após ser citado no texto de Lúcio (intitulado “O rei da Quitanda”), publicado no “Jornal Pessoal”, Maiorana agrediu o jornalista. “Acredita que ainda fui processado por ter dito que fui espancado?”, indagou Lúcio, em tom irônico.

O repórter guarda mágoa pela forma como o fato foi noticiado na mídia: “A agressão foi horrível, mas o pior foi o dia seguinte. O jornal no qual trabalhei há mais de 18 anos [Estadão], sabendo do ocorrido, escreveu um notinha dizendo que eu havia me envolvido em uma briga. Eu não tinha brigado com ninguém, eu fui agredido”, desabafou. “Não sou herói, mas também não sou covarde”, completou.

Ainda sobre os desafetos, Eliane Brum fez questão de lembrá-lo de uma suposta “vaquinha” feita por ele para arrecadar dinheiro para um processo que ele recebeu. “Uma empreiteira me processou no valor de R$ 28.000,00. Não me restou escolha. Tive que fazer uma vaquinha pela internet e arrecadar essa quantia para colaborar ainda mais com o enriquecimento da família da empreiteira”, salientou.

Mesmo tendo convivido com os horrores da ditadura militar, Lúcio questiona o período democrático atual e vê a mesma dificuldade de atuar como jornalista: “de todos os processos que tive, apenas um foi na época da ditadura militar. Os demais foram todos na época da democracia”.

Eliane também recordou o choro compulsivo de Lúcio ao se deparar com uma barragem construída no Rio Tocantins, no estado do Pará, que se tornou a Usina Hidroelétrica de Tucuruí, e comparou a situação às agressões ambientais que estão sendo feitas para a implementação da Usina de Belo Monte. Emocionado, o jornalista disse: “chorei e ainda choro, pois estou vendo o homem interrompendo a natureza”.

Sobre o “Jornal Pessoal”, Lúcio Flávio afirmou que já pensou em “matar o jornal” diversas vezes, mas “sempre que vinha com essa ideia, acontecia algo para noticiar, e a edição vendia muito bem, então, por ora, desistia”.

Ele ressaltou que a cobertura que a imprensa paulista faz da Amazônia é muito deficiente. “A imprensa paulista ainda faz uma cobertura exótica da região, que em nada colabora com a população local. Isso porque para cobrir a Amazônia não dá para ser a distância e nem ir lá uma ou duas vezes. É preciso realmente conhecer a região”. Ele complementou dizendo que o problema do jornalismo hoje está no fato de existirem poucos repórteres que vão a campo, para ver pessoalmente como é a realidade: “Esta faltando vivência no jornalismo, estar próximo de onde os acontecimentos emergem. O repórter de retarguarda, de computador, não faz tanta falta como o que fica na linha de frente”.

Lúcio Flávio Pinto apontou outros grandes pecados cometidos pelos novos jornalistas, dentre eles, a falta de objetividade. “Sem objetividade não tem jornalismo. Tenho obsessão em jamais contrariar os fatos”. Ele também lamentou a covardia de boa parte dos repórteres: “Nada me deixa mais triste do que jornalista que não publica uma matéria para não se comprometer”.

No final da entrevista, foi categórico ao responder à pergunta do jornalista Leonecio Nossa sobre o porquê dele continuar trabalhando como repórter, ao contrário de muitos colegas da mesma época, que hoje atuam em áreas administrativas e políticas: “Sou da linha de frente, porque o jornalista é o único que pode dizer que viu, então quero continuar sendo testemunha ocular dos acontecimentos”.

Foto: Divulgação/Portal Comunique-se

OBS: O texto acima (produzido pelos meus alunos de jornalismo) também foi publicado (com algumas variações) no portal Comunique-se. Confira! Muito orgulho dos meus alunos 🙂