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Repórteres apostam no jornalismo independente como modelo para superar crise

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Por André Luís, Damaris Almeida, Emily Santos, Guilherme Silva, Jemima Barbosa, Nicolly Soares  e Tatiane Cordeiro, alunos de jornalismo da FAPSP (Faculdade do Povo)

A série “Repórter”, realizada em 02/09, no Itaú Cultural, em São Paulo, com a curadoria da jornalista Eliane Brum, contou com um painel de entrevistas com diferentes repórteres que se dedicam a dar voz a setores da sociedade normalmente ignorados e/ou excluídos. São jornalistas que cumprem o verdadeiro papel da profissão de maneira independente, estando fora da grande mídia.

Nomeado de “Narrativas de Transição”, o painel foi comandado por Eliane Brum. Inqueridos pela jornalista, Bruno Paes Manso (Ponte), Laura Capriglione (Jornalistas Livres), Bruno Torturra (Fluxo), Katia Brasil (Amazônia Real) e Rene Silva (Voz da Comunidade) debateram alternativas para a atual fase do jornalismo, em que passaralhos e fechamento de jornais e revistas estão sendo comuns.

As entrevistas com cada repórter tiveram, em média, 15 minutos, com mais 10 para responderem a perguntas do público.

O ponto principal ressaltado pelos jornalistas, para a reinvenção da profissão diante do momento de crise, foi o de que é preciso seguir a vertente do jornalismo independente e convencer o público de que este é o caminho para uma informação sem amarras, voltada realmente às necessidades dos diversos setores da população.

“Nós podemos sim fazer outro jornalismo”, defendeu Laura Capriglione, do Jornalistas Livres. A repórter tem a expectativa de que a sociedade acabará tendo um novo olhar sobre o jornalismo. Para isso, destacou que é preciso ter credibilidade e conquistar o público, mostrando que os leitores podem confiar no que está escrito.

O repórter Bruno Paes Manso, do coletivo Ponte, que foca na cobertura de Direitos Humanos, Justiça e Segurança Pública, reforçou que “o momento do jornalismo é de se recriar”, e contou um pouco de sua trajetória e a do coletivo, que consegue dar voz a personagens das periferias, normalmente criminalizados de forma injusta, sem possibilidade de darem sua versão na grande mídia.

Kátia Brasil também contou sua trajetória e explicou por que acabou saindo das grandes redações (foi enviada especial de diversos veículos, dentre eles O Globo e Folha de S.Paulo) para fazer uma cobertura honesta da Amazônia, no seu site Amazônia Real. Ela explicou que chegou um momento em que as pautas que ela costumava trabalhar, dando voz aos setores prejudicados e explorados na região, como os índios, começaram a incomodar. Por isso, e somando ao momento de crise na grande imprensa, optou pelo jornalismo independente.

O repórter Bruno Torturra, um dos idealizadores da Mídia NINJA (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação) e que hoje está à frente do Fluxo – Estúdio de Jornalismo, falou a respeito do impacto dos avanços tecnológicos nas redações e afirmou que está acontecendo uma globalização de informações não oficiais. “Na medida em que as redações começaram a falir, foi ficando mais fácil reportar”, complementou. Ele lembrou da primeira transmissão feita por streaming das manifestações de junho de 2013, em que a mídia NINJA foi bastante atuante, colaborando para uma nova visão dos acontecimentos em tempo real.

Bruno também apontou como futuro para o jornalismo independente o convencimento do público. “A viabilidade do jornalismo está no público. Se ele perceber que o poder da comunicação está nas mãos dele, ele vai valorizar o conteúdo e vai querer pagar. Na hora em que for tão fácil dar um real quanto um ‘like’, o jornalismo está salvo”, disse.

Rene Silva, do jornal Voz da Comunidade, do Complexo do Alemão (no Rio), falou sobre sua trajetória no jornalismo, que começou aos 11 anos de idade (hoje ele tem 21),  no jornal da escola. “Eu percebia que no colégio as coisas que estavam erradas só eram corrigidas quando saíam no jornal e vi que isso também podia acontecer na minha comunidade. Foi aí que nasceu a ideia de criar o Voz da Comunidade”, relatou.

O jovem repórter ganhou notoriedade nacional e internacional após cobrir pelo Twitter, de dentro do Complexo do Alemão, a invasão da polícia, em 2013. Ele foi o único jornalista a presenciar os fatos cara a cara, desmentindo alguns erros cometidos pela cobertura feita pela grande imprensa. Rene falou da importância de ter tido acesso à rede social para mostrar uma visão interna do fato.

O painel foi encerrado em tom otimista, com expectativa de crescimento do jornalismo independente, sem censura e livre da influência de anunciantes.

Foto: Divulgação/Portal Comunique-se

OBS: O texto acima (produzido pelos meus alunos de jornalismo) também foi publicado (com algumas variações) no portal Comunique-se. Confira! Muito orgulho dos meus alunos 🙂

“A cobertura que se faz da Amazônia é exótica e não contribui com a população local ”, diz Lúcio Flávio Pinto

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Por Kaique Dalapola, Katia Barreto, Gigi Pavanello e Vinícius Vieira, alunos de Jornalismo da FAPSP (Faculdade do Povo)

Grandes nomes do jornalismo brasileiro participaram, na quarta-feira (02/09), da segunda edição da série “Repórter”, realizada no Itaú Cultural, na Av. Paulista. Organizada pela jornalista e escritora Eliane Brum, a série tem como objetivo homenagear e registrar a memória de grandes repórteres do nosso país, no formato de entrevistas abertas, que contam com a interação do público.

O homenageado nessa edição foi José Hamilton Almeida, considerado o “Repórter do Século”, por ter vivido coberturas históricas, como a da Guerra do Vietnã (quando perdeu uma perna, depois que pisou acidentalmente em uma mina), e ter mais de 60 anos de reportagem. Mas o evento foi aberto com uma entrevista com outro grande mestre, o jornalista Lúcio Flávio Pinto.

Nascido em Santarém (Pará), há 65 anos, Lúcio Flávio Pinto passou pelos jornais Correio da Manhã (Rio de Janeiro), O Estado de São Paulo, O Liberal (Pará) e a Província do Pará. Formado em Sociologia, abriu o evento revelando que optou por estudar essa graduação, “pois já trabalhava há muito tempo com jornalismo”.

Hoje, o repórter segue com seu “Jornal Pessoal”, publicação criada e dirigida por ele há 28 anos, na qual faz análises profundas do contexto político e social da Amazônia. É um trabalho independente e de muita coragem e perseverança, já que o repórter não conta com anunciantes e se dedica a apontar as mazelas da região.

Além de Eliane Brum como mediadora, a roda de conversa contou com as presenças de Leonencio Nossa (correspondente do “Estado de São Paulo” em Brasília), Paulina Chamorro (Rádio Estadão e Eldorado) e Claudiney Ferreira (jornalista e gerente do Núcleo de Audiovisual e Literatura do Itaú Cultural).

Para se ter ideia do espírito combativo de Lúcio Flávio, os jornalistas participantes da entrevista lembraram que o repórter, no início de sua carreira, fazia oposição ao seu próprio pai (Elias Ribeiro Pinto, prefeito de Santarém/PA), no jornal “Província do Pará”. Lúcio respondeu que “apesar de ter sido um bom prefeito”, as críticas que ele fazia ao pai eram “merecidas”.

Por conta de suas matérias ácidas e engajadas, denunciando nomes fortes da elite amazônica, Lúcio coleciona uma porção de desafetos. Ele já respondeu a 33 processos na justiça, o mais conhecido foi o caso envolvendo Ronaldo Maiorana, diretor da Comissão de Defesa à Liberdade de Imprensa pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Após ser citado no texto de Lúcio (intitulado “O rei da Quitanda”), publicado no “Jornal Pessoal”, Maiorana agrediu o jornalista. “Acredita que ainda fui processado por ter dito que fui espancado?”, indagou Lúcio, em tom irônico.

O repórter guarda mágoa pela forma como o fato foi noticiado na mídia: “A agressão foi horrível, mas o pior foi o dia seguinte. O jornal no qual trabalhei há mais de 18 anos [Estadão], sabendo do ocorrido, escreveu um notinha dizendo que eu havia me envolvido em uma briga. Eu não tinha brigado com ninguém, eu fui agredido”, desabafou. “Não sou herói, mas também não sou covarde”, completou.

Ainda sobre os desafetos, Eliane Brum fez questão de lembrá-lo de uma suposta “vaquinha” feita por ele para arrecadar dinheiro para um processo que ele recebeu. “Uma empreiteira me processou no valor de R$ 28.000,00. Não me restou escolha. Tive que fazer uma vaquinha pela internet e arrecadar essa quantia para colaborar ainda mais com o enriquecimento da família da empreiteira”, salientou.

Mesmo tendo convivido com os horrores da ditadura militar, Lúcio questiona o período democrático atual e vê a mesma dificuldade de atuar como jornalista: “de todos os processos que tive, apenas um foi na época da ditadura militar. Os demais foram todos na época da democracia”.

Eliane também recordou o choro compulsivo de Lúcio ao se deparar com uma barragem construída no Rio Tocantins, no estado do Pará, que se tornou a Usina Hidroelétrica de Tucuruí, e comparou a situação às agressões ambientais que estão sendo feitas para a implementação da Usina de Belo Monte. Emocionado, o jornalista disse: “chorei e ainda choro, pois estou vendo o homem interrompendo a natureza”.

Sobre o “Jornal Pessoal”, Lúcio Flávio afirmou que já pensou em “matar o jornal” diversas vezes, mas “sempre que vinha com essa ideia, acontecia algo para noticiar, e a edição vendia muito bem, então, por ora, desistia”.

Ele ressaltou que a cobertura que a imprensa paulista faz da Amazônia é muito deficiente. “A imprensa paulista ainda faz uma cobertura exótica da região, que em nada colabora com a população local. Isso porque para cobrir a Amazônia não dá para ser a distância e nem ir lá uma ou duas vezes. É preciso realmente conhecer a região”. Ele complementou dizendo que o problema do jornalismo hoje está no fato de existirem poucos repórteres que vão a campo, para ver pessoalmente como é a realidade: “Esta faltando vivência no jornalismo, estar próximo de onde os acontecimentos emergem. O repórter de retarguarda, de computador, não faz tanta falta como o que fica na linha de frente”.

Lúcio Flávio Pinto apontou outros grandes pecados cometidos pelos novos jornalistas, dentre eles, a falta de objetividade. “Sem objetividade não tem jornalismo. Tenho obsessão em jamais contrariar os fatos”. Ele também lamentou a covardia de boa parte dos repórteres: “Nada me deixa mais triste do que jornalista que não publica uma matéria para não se comprometer”.

No final da entrevista, foi categórico ao responder à pergunta do jornalista Leonecio Nossa sobre o porquê dele continuar trabalhando como repórter, ao contrário de muitos colegas da mesma época, que hoje atuam em áreas administrativas e políticas: “Sou da linha de frente, porque o jornalista é o único que pode dizer que viu, então quero continuar sendo testemunha ocular dos acontecimentos”.

Foto: Divulgação/Portal Comunique-se

OBS: O texto acima (produzido pelos meus alunos de jornalismo) também foi publicado (com algumas variações) no portal Comunique-se. Confira! Muito orgulho dos meus alunos 🙂