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João do Rio: o pai brasileiro da arte de “sujar os sapatos”

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*Patrícia Paixão

Ele é considerado o pai da arte de “sujar os sapatos” no nosso país. Foi o primeiro repórter de campo, inaugurador da nossa reportagem moderna, aquela que pressupõe entrevistas e contato direto com o fato. Numa época em que o jornalismo era limitado à base opinativa, com escritores fazendo textos subjetivos e empolados para tratar a realidade, sem sair da redação para confrontá-la, ele subiu morros, frequentou terreiros de candomblé, conversou com moradores de rua, prostitutas, presidiários. Conheceu, a fundo, diversos personagens até então ignorados pelo jornalismo carioca. Ao mesmo tempo, frequentava rodas da alta sociedade e era conhecedor do que acontecia no circuito cultural europeu. Por isso, em seus textos, chegou algumas vezes a apontar a hipocrisia e as contradições de um Rio de Janeiro que buscava imitar a capital francesa, mas convivia com sérias feridas sociais.

João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto,  conhecido como “João do Rio”, nasceu em 1881. Ainda jovem ingressou na imprensa, atuando no jornal Cidade do Rio, ao lado de expoentes como José do Patrocínio.  Nos primeiros anos do século 20, já na Gazeta de Notícias, gerou burburinho com suas reportagens, dentre elas as que versaram sobre as religiões, oferecendo ao leitor uma análise aprofundada, quase que com caráter sociológico e antropológico. Seus textos também refletiram as transformações das ruas cariocas, como a onda modernizante na urbanização e a desigualdade social.

Negro e homossexual, enfrentou preconceitos por parte da elite. Ignorou as críticas e obstáculos que lhe foram impostos, como quando foi recusado para entrar na Academia Brasileira de Letras (era, além de jornalista, cronista e literato) e continuou insistindo. Acabou sendo eleito na terceira tentativa.

Progressista, defendeu os ideais abolicionistas e os direitos dos trabalhadores, numa época em que a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) nem existia.

Tinha um texto envolvente e cheio de personalidade. Se referia aos mendigos, por exemplo, como “mordedores”, pelo fato de estarem sempre buscando arrancar algo das pessoas que passavam pelas ruas.

Morreu cedo, vítima de um enfarte. Foi em 1921, ano em que escrevia para o jornal A Pátria, fundado por ele em 1920. Seu enterro praticamente parou a cidade do Rio, atraindo populares e grandes nomes da política e da literatura.

O autor de “A Alma Encantadora das Ruas” (uma verdadeira radiografia sobre o Rio de Janeiro do início do século 20) é totalmente ENCANTADOR! Um mestre do nosso jornalismo que, embora tenha inaugurado a essência da nossa profissão, infelizmente é muito pouco tratado nas salas de aula e pouco citado nas redações.

Eu aaaamo João do Rio e acho que todo jornalista que se preza precisa conhecê-lo.

Caso o querido foca queria saber mais sobre o nosso primeiro repórter investigativo, recomendo que assista a esse documentário DELICIOSO (a seguir), produzido para o programa “De lá pra cá”, da TV Brasil, com a apresentação de Ancelmo Góis e Vera Barroso. Sempre passo em aula para os meus alunos.

João do Rio é amor ❤

 

 

 

Conheça as relações, as “avós” dos jornais impressos

*Patrícia Paixão

Por volta de 1450 (alguns estudiosos apontam 1445, outros 1447), o alemão Joahnnes Gensfleish, conhecido como “Gutenberg”, inventou a prensa tipográfica, uma técnica de impressão que utilizava tipos móveis de metal (a técnica tipográfica já era utilizada antes na Coréia e na China, mas com tipos de madeira, que limitavam a reutilização).

Esses tipos (letras e sinais gráficos de pontuação) eram colocados um ao lado do outro para formar as palavras. Depois, eram reunidos em linhas que se transformavam em colunas, até formar uma página inteira.

A técnica revolucionou a humanidade, permitindo a reprodução de milhares de exemplares de livros, o que antes era impossível pelo método manuscrito (escrito à mão um livro levava dias para ser reproduzido).

Permitiu também o surgimento dos jornais impressos. Podemos dizer que as impressoras utilizadas hoje na nossa imprensa são bisnetas e tataranetas da prensa tipográfica.

Mas os jornais não surgiram prontamente após a invenção de Gutenberg.  Antes de 1600 (ano em que começaram a surgir os primeiros jornais impressos na Europa),  existiu uma forma embrionária de jornalismo impresso chamada de RELAÇÕES, que foi impulsionada pela invenção da prensa tipográfica.

Também nomeadas de “notícias avulsas” ou folhas avulsas, as relações eram panfletos, com títulos longos, que descreviam um fato excepcional, sensacional, causador de grande repercussão. Exemplos: um terremoto, a morte de um rei ou o estouro de uma guerra.

De acordo com o estudioso e jornalista Antônio Costella, autor do livro “Comunicação – do Grito ao Satélite”, as relações anteciparam dois critérios de noticiabilidade que hoje são fundamentais na imprensa na hora de avaliar quais fatos merecem ser transformados em matéria jornalística: a imprevisibilidade e o apelo.

No início elas eram manuscritas, mas, quando surgiu a prensa tipográfica, logo começaram a ser impressas.

  • Na França chamavam-se “feuilles volantes”.
  • Na Inglaterra: “newes”
  • Na Alemanha: “zeitungen”
  • Na Espanha: “relaciones”
  • Em Portugal: “relações”

Quando surgiram, as relações traziam a descrição de um único fato e não tinham periodicidade. Só era impressa outra Relação quando outro fato sensacional ocorresse, daí diferenciarem-se das gazetas manuscritas (jornais escritos à mão – outra forma embrionária de jornalismo), que tinham periodicidade e tratavam de fatos variados.

Com o passar do tempo, por volta do final do século 16, as diferentes Relações que circulavam na Europa começaram a variar os assuntos e a ter periodicidade (imitando as gazetas manuscritas, só que na forma impressa), tornando-se, portanto, JORNAIS (a periodicidade e a variedade temática são dois critérios que os estudiosos usam para apontar os primeiros jornais surgidos no mundo). Foi quando surgiu a imprensa.

O primeiro impresso brasileiro, produzido por Antonio Isidoro da Fonseca, foi uma Relação

O primeiro impresso brasileiro foi uma Relação

O primeiro impresso brasileiro, na fase que se tentava implantar a imprensa no Brasil (antes de 1808 – data da vinda da Coroa portuguesa para cá – Portugal minou todas as tentativas de  surgimento do jornalismo aqui), foi justamente uma relação. Em 1746, Antonio Isidoro da Fonseca, um impressor bastante conceituado em Lisboa, transferiu-se para o Rio em busca de melhores oportunidades financeiras, trazendo na bagagem um material tipográfico. Apoiado pelo então governador Gomes Freire, o impressor chegou a colocar sua tipografia em funcionamento (antes dela ser queimada por Portugal), imprimindo a “Relação da entrada que fez o excelentíssimo senhor Dr. Fr. Antonio do Desterro Malheyro, Bispo do Rio de Janeiro em o primeiro dia deste presente ano de 1749…”, esse era o título da relação.

Gostou dessa informação?

Continue acompanhando o Formando Focas para conhecer um pouquinho mais a história do jornalismo. ❤

Você sabe como nasceu a expressão “imprensa marrom”?

*Patrícia Paixão

Existem várias versões sobre a origem da expressão “imprensa marrom”. A explicação mais aceita é a que era contada por Alberto Dines, jornalista que nos deixou em 2018. Ele atuou como repórter e ajudou a criar diferentes veículos e foi editor do site Observatório da Imprensa.

Segundo Dines, ela teria sido criada com base na expressão yellow press (imprensa amarela), que surgiu nos bastidores do jornalismo americano para ilustrar a briga entre dois grandes barões da mídia daquele país entre o final do século XIX e o início do século XX: William Randolph Hearst (conhecido como “Cidadão Kane”; sim, ele foi fonte de inspiração para o filme de Orson Welles) e Joseph Pulitzer (que idealizou a criação do prêmio jornalístico que leva seu sobrenome).

Então, primeiramente, vamos entender como surgiu a expressão “imprensa amarela”.

Imprensa amarela

Pulitzer e Hearst consolidaram a chamada penny press (imprensa de um penny) nos EUA: jornais com enormes tiragens, vendidos a um preço baixo, com linha sensacionalista, extremamente popular; faziam de tudo para conseguir público.

Em 1895, Hearst, que no início de sua carreira chegou a trabalhar para Pulitzer, comprou o New York Morning Journal (que havia pertencido a um irmão de seu antigo patrão), impondo um concorrente direto ao New York World, jornal de Pulitzer.  A compra foi um claro desafio. Hearst contratou quase toda a equipe de domingo do World e ainda roubou de Pulitzer o autor da então famosa história em quadrinhos Yellow Kid (uma HQ de um garoto orelhudo – Mickey Dugan – que vestia uma camisola amarela).

Inconformado, Pulitzer contratou outro profissional (George Luks) para desenhar Yellow Kid no World. A disputa nos bastidores entre os dois foi tão pesada que, para os críticos daquela imprensa, o amarelo do cobiçado personagem acabou virando sinônimo de publicações sem escrúpulos.

Da imprensa amarela à “imprensa marrom” no Brasil

Em 1959, a redação do jornal carioca Diário da Noite, onde Alberto Dines trabalhava, recebeu a informação de que uma revista chamada Escândalo extorquia dinheiro de pessoas fotografadas em situações comprometedoras. Uma das pessoas clicadas pela publicação sensacionalista foi um cineasta, que se suicidou. Dines preparava, para a manchete do dia seguinte, algo como “Imprensa amarela leva cineasta ao suicídio”, inspirando-se na expressão norte-americana. O chefe de reportagem do Diário, Calazans Fernandes, achou o amarelo uma cor muito suave para o caráter trágico da notícia e sugeriu trocá-la por marromE assim surgiu a expressão “imprensa marrom”, para definir um tipo de jornalismo que é feito sem escrúpulos, apenas para arrebatar o público.  Além de criar a expressão, a matéria do Diário da Noite acabou levando ao fim da revista Escândalo.