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“O povo tem as respostas para todas as perguntas”

 

Com mais de 60 anos de reportagem, Audálio Dantas fala sobre sua predileção por personagens anônimos, comenta bastidores de suas principais matérias e relembra capítulos históricos do nosso jornalismo

 

Por Patrícia Paixão

Fotos de Michelli Oliveira

OBS: Entrevista publicada originalmente no volume II da série de livros “Mestres da Reportagem”, lançada em abril de 2018. Ela está sendo reproduzida neste blog em homenagem a Audálio, que nos deixou em 30 de maio de 2018. O jornalismo brasileiro perdeu um de seus mais brilhantes repórteres.

Aquele 3 de maio de 2017 era um dia muito esperado. Na verdade, era uma data aguardada desde novembro de 2012, quando eu e meus alunos da extinta Faculdade do Povo (FAPSP) lançamos o livro Mestres da reportagem (In House, 2012), trazendo entrevistas com 30 grandes nomes do jornalismo brasileiro. Naquele momento eu já tinha a intenção de produzir a sequência da obra, convidando-o para integrá-la. Às dez da manhã, depois de ter lecionado a segunda disciplina do dia no curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, liguei para confirmar nossa entrevista. Seria no prédio em que ele reside, na zona oeste de São Paulo. Meus mais de 20 anos de experiência na área não evitaram o nervosismo. Não era a primeira vez que eu iria entrevistá-lo, tampouco nosso primeiro contato. Já havíamos conversado pessoalmente em outras oportunidades e somos amigos de Facebook, trocando comentários na rede, de tempos em tempos. Mas daquela vez a entrevista seria para registrar a sua história. E ele é a própria história do nosso jornalismo. A responsabilidade era enorme. Apenas cinco horas me separavam de uma lenda da reportagem. Não, não é exagero. É o homem sobre o qual eu falo em quase todas as minhas aulas das disciplinas Grandes Reportagens e Jornalismo Literário. Foi ele quem inspirou Eliane Brum e Adriana Carranca, que aparecem entre as repórteres mais premiadas e respeitadas do país. Foi ele quem apresentou Carolina Maria de Jesus para o Brasil e o mundo, amplificando a voz de um talento que estava na favela e que, depois de revelado, muitos preconceituosos se recusaram a aceitar. Foi quem levou Odylo Costa Filho [membro da Academia Brasileira de Letras, jornalista responsável por uma das maiores reformas editoriais ocorridas no Jornal do Brasil, no final dos anos 50] às lágrimas, com a reportagem O Circo do Desespero, de 1963, sobre um famoso concurso de dança dos anos 60, que conquistava a audiência à base do sofrimento de pobres candidatos. Foi ele quem peitou a ditadura militar, quando esteve à frente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, em um dos momentos mais dramáticos do nosso país, na ocasião do assassinato de Vladimir Herzog, em 1975. Sim, meu encontro era com AUDÁLIO DANTAS!

Toda ansiedade e angústia foram dizimadas quando Audálio nos recebeu (eu e minha aluna, Michelli Oliveira, que fez fotografias para esta entrevista) com um largo sorriso no rosto e um abraço, na portaria do seu prédio, refletindo a simplicidade e humildade que só os verdadeiros repórteres possuem. Começou brincando sobre o fato de eu usar dois gravadores, e contou sobre uma entrevista que fez com Lula [quando Luiz Inácio Lula da Silva era presidente], e que tinha sido perdida, por conta de um gravador que ele comprou um dia antes, e não soube usar direito (quem foi meu aluno sabe que sou neurótica com isso; sempre cito casos de colegas que perderam a entrevista por aprenderem a usar o gravador em cima da hora. Veja, leitor, como isso pode ocorrer até mesmo com um mestre da nossa reportagem). Por sorte, todas as entrevistas realizadas com presidentes são gravadas pela equipe de comunicação da Presidência, e ele pôde recuperar a conversa.

Nosso bate-papo foi como uma aula de jornalismo, lecionada por um caloroso e acessível professor. Ao falar sobre suas matérias, ia citando pacientemente diversas referências, e perguntava se eu as conhecia, recomendando que eu pesquisasse a respeito. Eu, a aluna encantada, anotava tudo atentamente e pensava no privilégio que era estar ali, ao lado de alguém de quem eu ouvia falar desde o primeiro ano da faculdade de Jornalismo.

Eu achava que conhecia quase tudo sobre Audálio Dantas, por pesquisar muito sobre ele para as minhas aulas e por ter lido alguns de seus livros. Ledo engano… Descobri que conhecia muito pouco de sua rica trajetória.

Nascido em Tanque d´Arca, pequeno município de Alagoas, Audálio me contou que iniciou seu amor pelas palavras, expresso com maestria em muitas de suas grandes reportagens, com sua professora Dulce Gomes, do Ensino Fundamental. Foi com ela que conheceu grandes nomes da nossa Literatura, como Olavo Bilac e José de Alencar. Já arrebatado pelas Letras, na adolescência apaixonou-se por autores que retratavam, na ficção, uma realidade que era bastante comum à sua: a do sertão nordestino. Graciliano Ramos, que mais tarde descobriu ser seu parente distante, foi um deles. Até hoje é um grande norte em sua vida.

Iniciou no jornalismo como fotógrafo, no jornal Folha da Manhã, mas graças à qualidade e criatividade de uma matéria que produziu sobre uma viagem que fez para Blumenau (SC), acabou sendo convidado para atuar como repórter de texto. Logo começou a fazer diversas reportagens de repercussão. Em uma delas, ao receber uma negativa de Guimarães Rosa para uma entrevista, teve uma sacada genial. Fez o que Gay Talese, renomado jornalista norte-americano, um dos pais do chamado new journalism [movimento surgido na década de 60 nos EUA, marcado pelo uso de recursos da literatura no texto jornalístico], faria anos depois, no famoso perfil Frank Sinatra está resfriado, publicado na revista Esquire: escreveu um texto com base no que observou, ouviu e leu nos autógrafos que Guimarães ofereceu aos presentes. Talese igualmente não conseguiu entrevistar Sinatra, mas construiu um belíssimo texto apenas observando o cantor e colhendo depoimentos de pessoas que o conheciam.

Foi também na Folha da Manhã que publicou pela primeira vez sua reportagem mais emblemática, mas que até hoje lhe rende dor de cabeça: o texto destacando trechos dos diários de Carolina Maria de Jesus, figura incrível que ele descobriu numa visita a uma favela na zona norte de São Paulo. A matéria fez tanto sucesso que tornou Carolina famosa, levando-a a lançar o livro Quarto de despejo – Diário de uma favelada (Francisco Alves, 1960), traduzido para mais de 13 idiomas e vendido em mais de 40 países. Até hoje a reportagem e o livro rendem palestras, polêmicas e debates. “Não há uma semana que não apareça um estudante, um professor ou um crítico para falar sobre isso”, destaca Audálio.

Mais tarde, em O Cruzeiro e na Realidade, revistas mães do gênero grande reportagem no Brasil e berço de ilustres nomes do nosso jornalismo, continuou publicando matérias históricas como Nossos desamados irmãos loucos [sobre o Hospital Psiquiátrico do Juqueri, localizado em Franco da Rocha, São Paulo], de 1963; A nova guerra de Canudos, de 1964 [retratando a nova realidade do vilarejo de Canudos, na Bahia, que estava para ser inundado devido à construção de uma barragem]; e Povo Caranguejo, que virou case em diversas salas de aula de jornalismo do país, pela forma inovadora como foi escrita. Audálio redigiu a matéria de uma maneira muito criativa, sob duas óticas: a dos caçadores de caranguejo do povoado Nossa Senhora do Livramento, na Paraíba, e a da caça, os caranguejos fugindo dos caçadores, no mangue. A academia e os colegas jornalistas passaram a considerar a reportagem próxima de um “conto”, ou mesmo parecida com uma “peça de teatro”. “Alguns achavam que aquilo era uma subversão”, comenta o jornalista.

Testemunhou as reformas que ocorreram nos jornais brasileiros, mudando o estilo do texto jornalístico, de uma linguagem empolada para uma mais objetiva e simples. Foi desse movimento que surgiram repórteres-autores, como ele e José Hamilton Ribeiro, que sabem trabalhar a reportagem com personalidade e engenhosidade, sem a necessidade de firulas e rococós.

Como escritor, publicou diversos livros, dentre eles Repórteres (Senac, 1997), O menino Lula (Ediouro, 2009), A Infância de Graciliano Ramos (Callis, 2011), Tempo de reportagem – Histórias que marcaram época no jornalismo brasileiro (Leya, 2012) e As duas guerras de Vlado Herzog – Da perseguição nazista na Europa à morte sob tortura no Brasil (Civilização Brasileira, 2012), este último vencedor da 55ª edição do Prêmio Jabuti. A obra lhe rendeu um Jabuti na categoria Livro-reportagem e outro na categoria Livro do Ano de Não-Ficção. Ainda por conta do livro Audálio venceu, em 2013, o prêmio Intelectual do Ano (Troféu Juca Pato), da União Brasileira de Escritores, concedido a alguns dos mais importantes romancistas brasileiros como Jorge Amado, Érico Veríssimo e José Lins do Rego.

O jornalista coleciona vários outros prêmios, homenagens e menções honrosas.  Em 1981, recebeu um prêmio na ONU por sua atuação em defesa dos direitos humanos. Em 2014, quando estava à frente da revista Negócios & Comunicação, como diretor-executivo, ganhou o Prêmio Comunique-se na categoria Comunicação – Propaganda e Marketing. Recebeu, em 2017, o Prêmio Indignação – Coragem – Esperança, por uma iniciativa da OBORÉ, da Agência Sindical e do Centro de Mídia Independente Barão de Itararé. A premiação, que hoje recebe seu nome (Prêmio Audálio Dantas), homenageia profissionais que se destacam na imprensa sindical e na comunicação comunitária. Finalmente, em dezembro de 2017, recebeu o Prêmio Averroes – Pioneiro e Compartilhador, criado pela OBORÉ a pedido do Hospital Premier, com o objetivo de valorizar e reconhecer a trajetória de pioneirismo e espírito compartilhador de estudiosos e personalidades atuantes nas mais diversas áreas do conhecimento.

Chegou a ser eleito deputado federal em 1978 pelo MDB [Movimento Democrático Brasileiro, partido que abrigou os opositores do regime militar em oposição à Aliança Renovadora Nacional – ARENA]. Seu mandato foi voltado à luta pela democracia e pela liberdade de imprensa.

Nunca deixou de defender o jornalismo. Foi o primeiro presidente eleito da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), por voto direto, em 1983. Em junho de 2005 foi eleito vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Em junho de 2012, recebeu da Associação Nacional Editores Publicações Técnicas Dirigidas Especializada (Anatec) o título de Jornalista do Ano.

Não bastasse sua intensa atuação como jornalista, escritor e ativista, Audálio foi criador e curador de diversos projetos culturais, como as exposições 100 Anos de Cordel, realizada no Sesc Pompeia, em São Paulo; O Chão de Graciliano, realizada em diversas cidades como São Paulo, Maceió, Recife, Fortaleza, e Araraquara; Na Terra de Macunaíma, ocorrida no Sesc Araraquara, no Sesc Santos e no Sesc Santo André; Salão Nacional do Jornalista Escritor, realizado no Memorial da América Latina, em 2007 e 2013; e a exposição Zumbi – A Guerra do Povo Negro, sobre o líder do Quilombo dos Palmares, realizada em 2016 no Sesc Vila Mariana, em São Paulo.

Nesta entrevista, Audálio Dantas fala sobre sua carreira, revelando bastidores de seus principais trabalhos, e analisa a reportagem no seu momento atual. Ele lamenta o fato de os repórteres irem pouco para a rua, e diz que falta ousadia no jornalismo: “Ousadia não para inventar histórias aí pelo mundo, contando aventuras, mas para investigar, para dizer as coisas que precisam ser ditas”. Na sua opinião, a reportagem está viva, o que falta, na verdade, são espaços para publicá-la.  Ao ser questionado se continua a ser repórter, mesmo aos 87 anos, responde, com firmeza e brilho no olhar: “Sim. Isso sempre!”

 Você costuma citar, com muito carinho, Dulce Gomes, sua professora do primário [falecida no início de 2016, aos 105 anos]. Na ocasião dos 100 anos de vida de Dulce, quando a Prefeitura do município de Tanque d´Arca fez uma homenagem, dando o nome dela à creche da cidade, você escreveu o texto Tributo à Dona Dulce, falando sobre a importância dessa professora em sua vida e na de diversas crianças. De que forma isso te influenciou a ser um bom contador de histórias?

Audálio Dantas: Olha, vou te contar, viu… Essa professora era uma iluminada! Ela dava aula na minha cidadezinha. Só havia duas escolas públicas lá: a feminina e a masculina. A dela era a masculina. As aulas aconteciam na casa dela. Era uma casa grande, daquelas mais antigas, e ela transformou a sala de visitas em sala de aula. E a vida na casa não parou, inclusive um dos filhos dela, o Rogério, que era o menor – hoje é um imenso artista plástico – de vez em quando, visivelmente de provocação, saía dos fundos da casa e atravessava a sala nu [risos]. Ela, doce como seu nome sugere, não se irritava com aquilo. Apenas pedia que ele fosse pra dentro. Era de uma humanidade muito tocante. A característica mais forte da dona Dulce era fazer leitura para os alunos dela, alunos que eram misturados, das quatro séries antigas do Ensino Fundamental. A Dulce era essa coisa maravilhosa, de juntar todos pra ajudar. Ela caprichava na leitura, principalmente com os alunos da 2ª série pra frente. Distribuía livros, aqueles livros antigos, sabe? Marcava texto para os meninos lerem e repetirem na classe no dia seguinte, e parece que ela me descobriu como um cara mais interessado em leitura e caprichou muito comigo. Eu considero que ela foi uma das influências mais positivas na minha vida.

Além dessa aproximação com a Literatura, por intermédio de Dona Dulce, você consegue ver vestígios lá da sua infância e adolescência que já mostravam que você iria para o jornalismo?

AD: Eu não pensava em jornalismo, eu nem sabia o que era jornalismo naquele interiorzão. O que eu percebi é que a leitura, além de sua importância em si e do interesse que ela desperta, faz você começar a descobrir o mundo. Ao mesmo tempo que havia bobagens, como livros de caligrafia, que vinham com aquelas frases já feitas – uma delas era “Como a laranja é uma excelente fruta”-, tinha obras memoráveis. Dona Dulce nos apresentou a Olavo Bilac [poeta brasileiro do período literário parnasiano, membro fundador da Academia Brasileira de Letras], por exemplo. Era muito interessante. Eu acho que isso me levou a aprofundar a leitura já na adolescência, e eu comecei a descobrir mais coisas. É a tal da curiosidade despertada pelo livro. Até que eu esbarrei no Jorge Amado, e depois, com muito mais interesse, no Graciliano Ramos, e fui por aí afora. Acho que isso foi o principal para que depois eu me interessasse pelo jornalismo, porque eu era leitor principalmente do Graciliano. Eu não tinha condições de julgar a linguagem dele, mas ela tocava igual música nos meus ouvidos. Vidas Secas [romance de Graciliano publicado em 1938] é aquela coisa concisa, seca mesmo, é uma leitura que te leva para o mundo, né? E aquele mundo é seu. Eu vim a descobrir depois que Graciliano Ramos é do mesmo tronco familiar que o meu, e aí me apaixonei ainda mais.

Nossa, que coisa!

AD: É! O meu avô Napoleão Ferreira Ferro era da mesma irmandade da Maria Amélia Ferreira Ferro, que era a mãe do Graciliano. Eu não conto muito isso, mas é verdade. Ou seja, o Graciliano era daquele mesmo mundo que o meu, e isso me influenciou bastante.

Eram escritores que falavam da nossa realidade, né?

AD: Pois é, e isso é uma coisa muito importante. A cidade de Quebrangulo [em Alagoas, onde Graciliano Ramos nasceu] fica a uns 30 e poucos quilômetros da minha cidade, e tem ligação com Palmeira dos Índios [também município de Alagoas] que é onde está a maior concentração da minha família materna, os Ferreira Ferro. Os Dantas, que são do meu pai, já estão em outra cidade.

Falando sobre o início da sua carreira, é verdade que você conquistou seu primeiro emprego na Folha da Manhã [jornal fundado em 1925, que deu origem à Folha de S.Paulo], por intermédio da fotografia?

AD: Sim. Naquela fase o jornalismo era completamente diferente em vários sentidos. Não havia exigência de formação acadêmica, que eu não tinha e continuo não tendo. Eu lia com grande interesse Rachel de Queiroz [uma das principais romancistas de nosso país, primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras], identificado pelo Quinze [primeiro e mais popular romance de Rachel, lançado em 1930], que trata do Nordeste, da seca. Eu já estava aqui há algum tempo, mas não me desligava emocionalmente das minhas raízes, e a Rachel de Queiroz escrevia umas crônicas, trabalhava na revista O Cruzeiro [importante publicação semanal ilustrada brasileira, editada pelo grupo de comunicação Diários Associados, do magnata Assis Chateaubriand, de 1928 a 1975], ela fazia a última página da revista. Eu lia os textos dela e pensava: “Um dia eu vou fazer isso”. Aí comecei a me interessar por jornalismo, a ler jornal, etc. Meu primeiro emprego foi num laboratório fotográfico. Um sujeito italiano chamado Luigi Manprim, que tinha sido partisan [membro de tropa irregular formada para se opor à ocupação estrangeira de uma determinada área. Os partisans tiveram ampla atividade durante a II Guerra Mundial] e tinha uma história fabulosa, se ligou muito a mim. Ele era mais velho e meio que me adotou. Eu aprendi muito com ele. Aí um dia ele foi convidado para ir para a Folha [Folha da Manhã] para o laboratório fotográfico. Ele foi lá e uma semana depois disse: “Hey, vem cá! Acho que você deve começar aqui.” E eu pensei: “Putz, é aqui!” Do laboratório fotográfico, em pouco tempo eu estava na redação fazendo fotografia.

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E foi aí que você fez uma matéria sobre Blumenau [SC], e acabou migrando para a parte de texto, né?

AD: Isso. Antes eu fiz alguns textos-legenda, algumas coisinhas assim. Eu estava ligado aos padres Salesianos, eu morava lá em Santana [zona norte da cidade de São Paulo] e tinha o colégio lá desses padres. Um dia houve uma visita à Santa Catarina promovida por um colégio salesiano famoso. Os colégios salesianos tiveram muita importância. Aí eu fui e me encantei. Parecia que eu estava viajando pela Europa, as imagens que eu tinha da Europa eram muito próximas do que eu vi lá, principalmente em Blumenau. Aí, quando eu voltei, além de fotos, eu escrevi uma matéria, entreguei ao secretário da redação e ele disse: “Pô, que legal!” Ele me aprovou de cara e falou: “Você vem para a redação”. E foi isso. Fui para o texto e, por algum tempo, fiz fotografia e texto. Logo comecei a virar sindicalista, sem saber o que era ser sindicalista [risos]. É que eu não achava certo aquele negócio que eu via, deviam ser dois trabalhando e não um só, então falei: “Não vou mais fazer fotografia. Vou fazer só texto”.

“Eu fiquei meio frustrado [quando Guimarães Rosa não quis conceder entrevista], mas não me dei por vencido. Essa é uma questão fundamental para o repórter. Você tem que obter a resposta de qualquer forma, porque a função do repórter é obter resposta.”

Já com uma experiência considerável na Folha da Manhã, em 1956 você transformou, de forma bastante criativa e astuta, uma tentativa  de entrevista com o Guimarães Rosa em um texto interessante. Guimarães estava lançando o famoso Grande Sertão: Veredas (José Olympio, 1956) e você foi ao lançamento fazer a cobertura para entrevistá-lo. Ele te negou a entrevista. Conte um pouco sobre os bastidores deste texto.

AD: É verdade. Antes do Grande Sertão, eu já tinha lido Sagarana [Editora Universal,1946] e tinha ficado bastante impressionado. Então, eu fui lá como repórter e como tiete [risos]. E ele me deu um banho de água fria ao dizer: “Olha, eu não dou entrevistas.” Acho que ele olhou pra mim e pensou: “Pô, vou falar com esse moleque aí…”. Eu fiquei meio frustrado, mas não me dei por vencido. Essa é uma questão fundamental para o repórter. Você tem que obter a resposta de qualquer forma, porque a função do repórter é obter resposta, não fazer jornalismo de aspas, mas obter resposta para as coisas. Então, eu fiquei meio de lado, quase escondido, e ouvindo o que o Guimarães falava para as pessoas, o que diziam pra ele. Um amigo da Folha, o Acácio Ramos, tem uma frase, que eu uso como epígrafe no meu livro [Tempo de Reportagem – Histórias que marcaram época no jornalismo brasileiro], que diz “Repórteres são seres que perguntam”. No caso dessa matéria, eu perguntei, não tive resposta, mas procurei um jeito de ter a resposta. Escrevi com base no que eu vi e no que o Guimarães dizia nos autógrafos para as pessoas que foram ao evento. Isso aí serve como exemplo do que é a insistência do repórter.

“Me dava muita raiva ler textos rebuscados, cheios de palavreado enfeitado e tal. Eu nunca fui do rebuscamento. Acho que herdei isso do Graciliano Ramos.”

Que é uma coisa que o Gay Talese fez quando não conseguiu entrevistar o Frank Sinatra, para a revista Esquire. O Joel Silveira, antes de Talese, em 1945, fez isso também aqui no Brasil, quando não conseguiu convite para cobrir o casamento de Filly, filha do industrial Francisco Matarazzo. Ele conversou com pessoas que foram ao casamento e fez um grande texto [A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista, reportagem publicada em O Jornal, impresso pertencente aos Diários Associados, de Assis Chateaubriand], não é mesmo?

AD: Sim. Mas o curioso nessa história toda é que eu não tinha lido Joel Silveira, eu não o conhecia naquela época. Então, não tinha como me inspirar nele. Isso tem me servido muito para discutir a questão do jornalismo literário, que é uma expressão que eu tenho um pouco de dúvida se é válida ou não, porque jornalismo é jornalismo e literatura é literatura, mas os dois se encontram. Jornalismo é um gênero literário, não há essa separação que muita gente quer fazer. O que eu fiz nessa matéria foi um texto com as minhas impressões. É o que se costuma fazer nesse estilo de jornalismo. Mas eu não conhecia Joel, vim conhecer depois. Assim como o Gay Talese não tinha lido Joel, e o Joel tinha feito isso em 1945, antes dele. Os dois tinham estilos diferentes, mas os dois eram repórteres. Minha conclusão é essa. E aqui eu aproveito para dizer que naquele momento começou uma mudança muito importante no jornalismo brasileiro, que era a renovação da linguagem. Me dava muita raiva ler textos rebuscados, cheios de palavreado enfeitado e tal. Me incomodava muito ler textos com termos como “precioso líquido”, “necrópole”, esse tipo de coisa.

O jornalista Pompeu de Souza [falecido em 1991], que foi o grande responsável pela reforma da linguagem [para um texto mais objetivo] no Diário Carioca [periódico brasileiro, fundado no Rio de Janeiro em 17 de julho de 1928, por José Eduardo Macedo Soares, e publicado até dezembro de 1965], falava mesmo que o jornalismo antes da década de 50 era muito rebuscado.

AD: Exatamente. E aí começou chegar a turma da academia, que fez faculdade de Jornalismo. A primeira turma, que foi a da Faculdade Cásper Líbero, é de 1947, e nesse pessoal estava o José Hamilton Ribeiro, gente desse molde. E coincidiu que eles eram da mesma idade. Aquele jeito rebuscado de escrever foi sendo deixado de lado. Eu nunca fui do rebuscamento, acho que isso herdei do Graciliano Ramos. Comecei a fazer textos com a minha marca. Sem inventar, sem enfeitar, eu criava situações, como é o caso da reportagem Povo Caranguejo [publicada na histórica revista Realidade, da editora Abril, em 1970. Realidade é até hoje considerada uma das principais publicações de grande reportagem que o Brasil já teve]. Você deve conhecer a matéria.

“Quando me perguntam se a reportagem está morrendo, digo que não, o que faltam são as condições para se fazer reportagem.”

Sim, é um case trabalhado em muitas salas de aula de Jornalismo. Sempre destaco aos meus alunos. Em todas essas matérias você ia a campo, vivenciava o fato. Em Povo Caranguejo, você entrou na lama para sentir na pele o trabalho dos caçadores de caranguejo. É uma coisa que sempre digo aos meus pupilos.  Se eles não forem a campo, não vão ter elementos ricos, oriundos da observação, para colocar no texto. E lamentavelmente hoje a gente está vivendo um momento em que vemos que o repórter tem menos chance de ir pra rua. Muitas vezes tem que fazer matéria por telefone…

AD: Praticamente não sai da redação, essa é a grande diferença. Então, quando me perguntam se a reportagem está morrendo, eu digo que não, o que faltam são as condições para se fazer reportagem. Na revista Realidade, para fazer uma matéria sobre o Rio São Francisco – e geralmente eu propunha as minhas pautas-, eu fui da nascente do rio até chegar ao Oceano Atlântico. Isso levou 45 dias de trabalho. E custou muito dinheiro, porque foi barco alugado. O mundo de histórias que isso rendia…

Quando se tem uma vivência tão profunda como você tinha nas matérias que fazia para as revistas Realidade e O Cruzeiro, de ficar dias e dias em cima do mesmo tema, como é que se organiza todo esse volume de informação na hora de escrever?

AD: [Risos] Ah, isso aí é muito engraçado, porque como eu tenho uma obsessão pelo texto, eu nunca faço uma reportagem para depois reescrever, eu já deixo ela pronta. Mas isso me faz demorar mais, me leva a gastar mais tempo elaborando o texto. Uma vez me perguntaram: “Como é ser repórter? Ter essa vida maravilhosa de ir para diferentes lugares, descobrir as coisas, pessoas, etc. e tal”. E eu disse: “Olha, é muito interessante, o chato mesmo é na volta ter que escrever, sofrer em cima da máquina de escrever”. [risos] O bom é que eu tinha mais tempo para escrever, não era nenhum favor, é que eles me davam tempo. Em Povo Caranguejo, eu passei quase uma semana procurando um ângulo para abordar o assunto, porque a saída comum seria dizer: “Pobres destes pescadores de caranguejo, que sofrem tanto, blá, blá, blá…”. E aí não vale, porque já tinham feito isso. Então, eu resolvi escrever daquele jeito diferente. E essa ideia veio, quando eu fui para o mangue com os caçadores de caranguejo e vi como é que eles faziam. Concluí que era uma luta, era uma briga entre homem e bicho, e eu escolhi aquela forma inovadora de escrever, com a ótica dos dois lados da caçada. Alguns companheiros achavam que era uma “subversão”. Eu dizia pra mim mesmo: “Mas caranguejo pensa?”. E concluía: “Se caranguejo não pensa, caranguejo sente, não é isso?” Era evidente que ele fugia para o buraco com medo, era evidente que ele ficava lá escondido com medo, e era evidente também que ele estava perdendo o ar de respirar, e ele lutava para sobreviver. Foi isso. A conclusão foi essa.

A reportagem parece um conto, né?

AD: Parece uma peça de teatro também.

No livro Tempo de Reportagem – Histórias que marcaram época no jornalismo brasileiro, você conta que a matéria que te deu mais repercussão, e também mais trabalho, foi a que revelou ao Brasil e ao mundo Carolina Maria de Jesus, moradora de uma favela na zona norte de São Paulo [reportagem O Drama da Favela escrito por uma Favelada, publicada na Folha da Manhã, em 1958]. Você descobriu que Carolina escrevia seu dia a dia naquela comunidade em alguns diários e publicou trechos daqueles relatos, sensibilizando os leitores. A matéria teve tanta repercussão que acabou proporcionando à Carolina o lançamento do livro Quarto de Despejo, traduzido para 13 idiomas. Ela chegou a conceder entrevistas para renomados veículos da imprensa estrangeira. Mesmo sendo tão importante e elogiado, o texto recebeu críticas negativas. Algumas pessoas diziam que foi você que escreveu aqueles relatos, e não Carolina. Até hoje o assunto suscita polêmica. No dia 16 de abril de 2017 houve um debate na Academia de Letras carioca, para discutir se a obra de Carolina pode ser considerada Literatura. Considera que essas críticas que foram e são feitas até hoje aos escritos de Carolina Maria de Jesus são demonstrações de preconceito?

AD: Muito, mas muito mesmo! Preconceito de todo tipo, de raça, de classe e, principalmente, preconceito contra o pobre que não devia se meter a escrever como a Carolina de Jesus fez, né? Muita gente pensa assim… Mas o que mais me espantou foi um crítico da importância do Wilson Martins, considerado um dos maiores do país, morrer sem aceitar que aquele texto era da Carolina. Primeiro ele insinuou, mas depois ele afirmou com todas as letras: “Esse texto só pode ter sido escrito pelo Audálio Dantas”. Isso me ofendeu profundamente, porque a minha preocupação maior foi não acrescentar nada ao que ela tinha feito. Eu fiz uma compilação, apenas colhendo os trechos mais significativos, mas até hoje na academia tem gente que me acusa de ter alterado. Foi tudo criação espontânea da Carolina, a busca de uma expressão que muitas vezes era de grande lirismo, de grande capacidade, e que era um texto literário sim. Por que não?

Sim, há trechos muito bonitos.

AD: Então! Pode ser que o conjunto daquele diário não fosse literário, mas há trechos ali que são muito claramente literários. Desde então essa matéria é um dos maiores sofrimentos… Não há uma semana que não apareça um estudante, um professor ou um crítico para falar sobre isso… Aí eu comecei a descobrir que eu era um cara importante por ter revelado a Carolina Maria de Jesus, e isso, ao mesmo tempo, me trouxe enormes aborrecimentos.

O poeta Manuel Bandeira chegou a te defender, dizendo que seria impossível alguém inventar relatos como aqueles.

AD: Sim. Ele se manifestou a respeito e isso foi uma honra pra mim. Ele tinha uma coluna no jornal O Globo e defendeu a seguinte tese: que era impossível considerar que esse texto poderia ser meu. O Wilson Martins dizia que a Carolina não poderia usar aquele palavreado, mas Manuel Bandeira destacou que, assim como havia trechos líricos, havia outros trechos com expressões típicas de pessoas de meia instrução primária. Ele disse: “Se alguém for capaz de imitar aquela linguagem, é um gênio”. O que um repórter acomodado faria numa situação daquela, de visita a uma favela? Contaria uma historinha sobre a comunidade e diria: “Tem até uma favelada lá que escreve em uns cadernos…”. Não foi o que eu fiz! Eu transformei o texto dela na minha reportagem.

E essa que é a beleza, porque você deu espaço para a voz dela aparecer, só fez uma introdução e deu voz para ela.

AD: Sim.

E como era o seu relacionamento com ela?

AD: Foi o mais complicado que se possa imaginar, porque a Carolina era uma pessoa que buscava a glória de maneira obsessiva, ela tentava publicar as poesias e o mesmo diário desde os anos 40, foi a várias redações e ninguém quis ouvi-la, aí, quando eu fiz isso, ela achou que eu era um anjo que apareceu na vida dela, mas depois, na relação que se colocou – porque a Livraria Francisco Alves, que editou o livro, era de gente muito séria e pagava rigorosamente -, ela começou a voar… Eu e a própria editora Francisco Alves insistimos de maneira quase invasiva na vida dela para que ela comprasse uma casa com o dinheiro que estava ganhando. Ela comprou uma casa boa, num bairro de classe média e tal, e aí a vida dela se transformou em outro inferno. Ela me acusava, porque ela era bipolar. Ao mesmo tempo que eu era um anjo, eu era o diabo.

Mas ela falava que ficou pior com o dinheiro?

AD: Ela escreveu isso, está no segundo livro dela, chamado Casa de Alvenaria – Diário de uma ex-favelada [Editora Francisco Alves, 1961]. Quando o dinheiro começou a acabar – porque tinha uma fila de gente propondo negócios, namorados, essas coisas todas-, eu voltei a aconselhá-la, e ela começou a dizer: “Você não manda na minha vida!”. Dá para entender o que foi? Mas falando da Carolina, eu gosto de lembrar que tudo que se disse dela e se concebeu dela atingiu uma coisa chamada “classe média”, não se admite a intromissão de uma pessoa da categoria dela nessa classe. Primeiro falavam como se ela fosse um bicho estranho: “Ah, coitada, pobrezinha…”. Depois, quando ela começou a ter muita projeção, as pessoas diziam: “Porra… O que essa mulher quer?”. Então houve esse tipo de preconceito. Principalmente o consumo dos fenômenos. As pessoas vivem em busca de fenômenos, esse é um dos segredos da televisão. A Carolina foi isso, um fenômeno. A classe alta a convidava para banquetes. Teve um jantar que foi na casa da Filomena Suplicy, mãe do senador Suplicy, e ela foi. Ela veio falar comigo e eu disse que eu não aprovava aquilo.

Ela te consultava, então?

AD: Me consultava. Outra vez a Time [revista norte-americana, fundada em 1923, uma das mais famosas publicações semanais do mundo] enviou um repórter pra cá, pra falar com ela. Veio um repórter enviado especial, e prevaleceu aquela visão americana do sucesso individual. Era um cara muito simpático chamado David St Clair. Ela se apaixonou por ele. A Carolina tinha dessas coisas… Ele a levou para o Rio de Janeiro de avião, hospedou-a no Copacabana Palace, levou-a aos melhores restaurantes do Rio de Janeiro, quer dizer, ele fez a reportagem da cinderela negra moderna, uma porcaria, mas ela se deslumbrava com aquilo, ela achava ótimo, apesar das ironias que ela usava. O restaurante foi o mais famoso do Rio, um jantar fantástico. Tudo isso ela conta em Casa de Alvenaria. Na sobremesa, perguntaram o que ela queria e ela ficou em dúvida e escolheu a sugestão: crepe suzette. Aquele espetáculo, né? Ela olhou tudo aquilo e disse: “Comi aquela confusão toda e não gostei” [risos]. Ela tinha um espírito crítico fantástico, ao mesmo tempo que gostava de tudo aquilo.

Por essa frase dela, a gente vê por que tem aqueles trechos dos diários tão líricos…

AD: Sim. Ela era uma crítica, digamos, intuitiva.

E ela acabou falecendo. Não estava muito bem financeiramente, né?

AD: Então… Muita gente diz que ela morreu na miséria, mas não é verdade. Ela vendeu aquela casa por causa do assédio, os vizinhos começaram a ficar putos com a bagunça dela, dos meninos dela, aquela coisa. E ela queria voltar para o campo, comprou um sítio em Parelheiros [distrito localizado na zona sul de São Paulo]. Quem compra um sítio, mesmo em Parelheiros, mostra que está crescendo. Então não é verdade que morreu na miséria. Morreu sem muito dinheiro, porque montou um boteco lá, vendeu fiado, enfim, já não tinha muito para receber. Então morreu sem a glória que tinha obtido, e morreu também com menos dinheiro do que tinha ganho.

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Com essa história da Carolina Maria de Jesus, a gente percebe outra marca sua, que até a Eliane Brum destacou em uma entrevista que eu fiz com ela para o livro Mestres da Reportagem (In House, 2012). Ela disse que você é um dos repórteres que a inspiraram, por causa do foco no anônimo, por ampliar a voz de pessoas comuns. Por que essa escolha?

AD: Não foi uma coisa elaborada, e sim uma consequência da minha identificação com o povo, porque o nosso povo, principalmente, é a grande vítima, e sou um sujeito profundamente indignado com injustiça. Essa é uma característica minha, por isso a maioria do meu trabalho é ligada a questões sociais, como a reportagem que eu fiz sobre o Juqueri [Nossos desamados irmãos loucos sobre o Hospital Psiquiátrico do Juqueri, publicada na revista O Cruzeiro, em 1963], a matéria O Circo do Desespero [publicada também em 1963, em O Cruzeiro; o texto fala sobre um famoso concurso de dança carnavalesca, promovido por emissoras de rádio e TV de todo o país naquela época], essa coisa toda. É uma opção que veio muito da minha personalidade. Em O Circo do Desespero, as pessoas não têm nomes, elas são identificadas como números, porque o crime ali é coletivo.

Eu chorei quando li pela primeira vez essa reportagem… É impressionante como você conseguiu mostrar que aquele famoso concurso de dança carnavalesca era, na verdade, uma grande tragédia. Muitos candidatos dançavam durante dias, literalmente quase até morrerem, sob os olhos de rigorosos fiscais, para conseguirem com o dinheiro do concurso realizar necessidades, como pagar a cirurgia de um filho. E todo mundo assistia, vibrando com a tragédia alheia. É muito marcante…

AD: Quem também chorou ao ler essa matéria foi Odylo Costa Filho [jornalista e poeta], responsável por uma das maiores reformas editoriais ocorridas no Jornal do Brasil, no final dos anos 50. Ele me enviou um telex dizendo: “Acabo de ler o seu texto, chorando em cima dele”. Foi o maior elogio que recebi na vida. No livro [a reportagem depois foi transformada em livro] tem uma epígrafe que diz assim: “O povo é quem tem as respostas para todas as perguntas”. E essa é uma grande verdade. As respostas podem demorar, mas um dia o povo dá a resposta. A história mostra isso, como na Revolução Francesa [movimento revolucionário ocorrido em 1789 na França, que derrubou o poder da monarquia absolutista, impondo princípios como liberdade, igualdade e fraternidade a todos cidadãos; inspirou mobilizações em todo o mundo]. Um dia o povo responde e eu espero que deem logo uma resposta aqui, antes que acabem com o país. Então, isso sempre me levou muito para esse lado do povo. Pode parecer demagógico, mas eu realmente acho que o povo tem a resposta para todas as perguntas. Eu aprendi isso com um cara que foi jagunço em Canudos, ele era menino de 10, 11 anos e já pegava em armas. Eu o encontrei em Canudos quando aquele vilarejo estava para ser inundado devido à construção de uma barragem [reportagem A Nova Guerra de Canudos, publicada em 5 de dezembro de 1954, em O Cruzeiro]. Ele me disse uma frase que eu acho que devia ser uma lição para todo jornalista. Eu perguntei a ele sobre o conflito de Canudos: “Mas tudo isso você viu e se lembra de tudo?”. E ele me respondeu mais ou menos assim: “Lembro e não minto. Mentir eu não minto, porque senão eu escorrego e caio”. Já pensou na profundidade dessa frase? E isso é a resposta de um anônimo que eu encontrei lá na caatinga.

Envolve ética, um monte de coisas, né?

AD: Exatamente! A obrigação do jornalista é ver, ouvir e contar, ele não pode mentir.

A imprensa na época cobria aquele concurso de dança carnavalesca com um tom de exaltação, como se fosse uma coisa boa. Só você conseguiu ver esse outro lado…

AD: Sim, era atração do tipo Programa do Ratinho, mas, na verdade, era uma baita tragédia! E tem mais, aquela reportagem, por incrível que pareça, fez acabar aquele programa. Acho que é um dos feitos do meu trabalho. Acabou aquilo, acho que os próprios caras se envergonharam.

“Não aceitamos a tese do suicídio desde o início [sobre a morte de Vladimir Herzog].”

Agora vamos para a parte da sua atuação como sindicalista. Você foi presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo em um momento extremamente tenso, de ditadura militar no Brasil, quando o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado pelo regime em 1975 [Herzog era diretor do departamento de jornalismo da TV Cultura, quando foi morto nas instalações do DOI-CODI – Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna, órgão de repressão do Exército brasileiro]. Sua postura, pelo que a gente estuda, lê e ouve de colegas que conviveram contigo, foi muito corajosa, porque naquele momento você não aceitou a tese de “suicídio” divulgada pelos militares. E bater de frente contra o regime era quase como assinar uma sentença de morte.

AD: Não aceitamos mesmo, e quando falo “aceitamos”, falo do coletivo do sindicato, não só de mim. Não aceitamos a tese do suicídio desde o início

Como era sua atuação sindical?

AD: Lutei muito. Eu participava das lutas sindicais meio de fora, mas de vez em quando, com determinadas questões, eu me engajava, como quando veio a proposta da Lei de Imprensa ainda no governo do presidente Castelo Branco [a Lei de Imprensa foi sancionada em 9 de fevereiro de 1967, e ficou em vigor até 2009, quando foi derrubada pelo Supremo Tribunal Federal – STF, por ser considerada incompatível com a Constituição Federal de 1988]. Eu fui ao sindicato, com um grupo que eu participava, e pedimos uma manifestação. O sindicato disse que não se envolvia em política. Aí descobrimos uma brecha – toda legislação tem uma brecha. Descobrimos que o estatuto do sindicato permitia – acho que com 18 associados –  convocar uma assembleia, e fizemos isso. A convocação da assembleia foi no sentido de montar uma comissão de liberdade de imprensa, e eu estava no meio. Recebemos apoio até do velho Mesquita [Júlio de Mesquita Neto], do Estadão [jornal O Estado de S.Paulo]. Esse movimento cresceu muito e fizemos um ato público no Cine Paramount, o maior da cidade. Mais de duas mil pessoas participaram. Aí os jornais escreveram editorial dizendo que aquilo tinha virado um movimento estudantil. E a Lei de Imprensa terminou aprovada. Quer dizer, eu já participava lá do sindicato e da luta democrática. Aí quando começou o movimento que levou à eleição no sindicato, contra dez anos de adesão da entidade à ditadura, as pessoas se lembraram de mim. O movimento era nascido de baixo pra cima, dentro das redações, era chamado “Movimento Fortalecimento do Sindicato”. Alguém disse: “Olha, precisamos de um nome que, além de ter posições democráticas, seja irretocável, um nome com aprovação da maioria”. Eu já era repórter famoso, aquela coisa, e eu disse: “Não, não vou, porque eu quero fazer reportagem”. Eu tinha consciência de que, se eu fosse para o sindicato, eu ia acabar parando na política. E foi o que aconteceu [Audálio foi deputado federal pelo MDB em 1978]. A pressão era muito grande e acabei aceitando. Já no segundo mês de gestão recebi recado dos militares e nem preciso dizer as razões, porque eram muitas. O sindicato era considerado um centro de subversão. O General Comandante Ednardo D’Ávila Melo disse pra mim: “Vocês estão fazendo subversão, não estão fazendo sindicalismo”. Eu disse: “É sindicalismo sim. A minha categoria tem direito de pensar em ser anti-censura, por exemplo”. Três meses depois começou uma onda de perseguições políticas, e essa perseguição, no meu entender, foi a mais grave que apareceu. Diziam que os comunistas estavam tomando conta das redações. Ridículo! Diziam que a imprensa estava sendo objeto de combate à democracia. Pensar na Folha e no Estadão como sendo influenciados pelos comunistas é muito, né? Eu vi que a coisa era pesada, houve muitas prisões de advogados, engenheiros, arquitetos, e eu disse que ia chegar nos jornalistas. E chegou. Chegou no começo de setembro [de1975], quando o Vlado assumiu a diretoria de jornalismo da TV Cultura. Começaram a dizer: “Estão vendo? A TV do Estado de São Paulo botou um comunista lá”. Até que prenderam os primeiros jornalistas, no início de outubro. Quando se fala do Vlado, a maioria esquece de uma coisa importante: a cada prisão de jornalista o sindicato reagia denunciando. Não foi só com o Vlado. Porque, na verdade, não eram prisões, eram sequestros. Não havia ordem judicial, nada, eles prendiam simplesmente. Foi no começo de outubro que começaram a prender. No dia 5 de outubro o jornalista Sergio Gomes, o Serjão, foi preso. Ele foi barbaramente torturado e essas notícias de algum jeito chegaram até nós, porque realmente havia muitos comunistas presos e tinha uma rede de solidariedade. Até que chegou a vez do Vlado. Quando foi com ele, a gente já tinha meio que perdido o medo, porque o medo já estava presente. Eu comecei a perceber que ter medo é uma coisa muito perigosa. Medo é uma coisa que todo animal tem no sentido de preservação.

Como o caranguejo na matéria que você escreveu.

AD: Sim, o medo paralisa. Eu analisei meu próprio medo e disse: “Se eu não vencer isso, ele me vence”. Aí fomos em frente. Quando eu soube da morte do Vlado, não tive nenhuma dúvida. Saiu um comunicado do comando do 2º Exército falando do suicídio, e nós do sindicato fizemos outro dizendo que não aceitávamos aquela tese e fomos adiante. Convidamos as pessoas para o sepultamento dois dias depois no Cemitério Israelita, e foi a primeira vez que houve massa – eram 800 mil pessoas – assistindo ao sepultamento de uma vítima da ditadura. As outras mortes todas ocorriam de forma escondida, ninguém sabia, porque quem fazia menção era ameaçado. Quando saímos do cemitério, alguém gritou: “Vamos para o sindicato!”. E isso foi fundamental. Marcamos uma reunião, antes de sair do cemitério, para as 19 horas no sindicato. Não era assembleia, porque tinha um sentido, e não havia protocolo. Assembleia tinha que ser convocada com um certo tempo de antecedência, aprovada, aquela coisa toda. Aí quando foi mais ou menos 17 horas recebi um telefonema dizendo: “O senhor exacerbou. O senhor está fazendo subversão de verdade, porque o senhor está incitando o povo contra a autoridade. O comandante quer o senhor aqui tal horas”. Eu vi que não dava tempo para eu voltar para a reunião, precisei deixar alguns companheiros informados para irem avisando quem chegasse, porque quem ia para essa reunião não era mais só jornalistas, eram jornalistas e gente comum. Já tinha começado uma reação.

Foi um impacto bem além da área jornalística, não é mesmo?

AD: Isso. E muito em função do comunicado da véspera. Começou a chegar gente de toda parte em apoio ao sindicato. Foi muito bom. Aí fomos lá e nessa reunião foram exibidas as fotos da autópsia do Vlado. Aquela foto dele pendurado nos deu mais força pra dizer que não tinha sido suicídio. E já nessa reunião – chegamos quase 21 horas, por causa do trânsito – foi decidida a realização de uma missa. Nessa mesma noite, um sujeito que escrevia uma coluna religiosa no Estadão [Hélio Damante] lembrou: “Olha, não achamos que seja conveniente ser um culto católico, porque o Vlado era judeu”. E eu disse: “Porra, é verdade”. Então surgiu a ideia do culto ecumênico. Levamos a ideia ao dom Paulo Evaristo Arns e ele aceitou na hora. Esse [dom Paulo Evaristo Arns] foi um herói nacional! Ele tratou de organizar os convites para os outros representantes, o rabino Henry Sobel e o reverendo Jaime Wright. E a semana toda foi de alta tensão, de ameaças e telefonemas anônimos dizendo: “Nós vamos te pegar”. Mas, ao mesmo tempo, foi crescendo o movimento no país inteiro, a consciência nacional foi despertada. O culto ecumênico foi realizado na Praça da Sé, com cerca de 8 mil pessoas [em 31 de outubro de 1975], e foi concluído com a presença do dom Helder Câmara. Era proibido citar o nome dele, você sabe disso? [dom Helder foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, que teve importante papel de enfrentamento à ditadura militar. Com a implantação do Ato Institucional Nº 5, em 1968, passou a ser considerado pelos militares como um “morto-vivo”. A imprensa não podia falar sobre ele, nem publicar nada que mencionasse seu nome]. Ele compareceu, não disse uma palavra e, no final, quando o culto terminou, foi recomendação minha e do Dom Paulo de não haver nenhuma manifestação, porque isso significaria a possibilidade de um banho de sangue. Dom Helder viu que tinha terminado tudo em paz e perguntei a ele: “Por que o senhor não disse nenhuma palavra? Eu nunca vou esquecer do que ele me disse: “Meu filho, há momentos em que o silêncio fala mais alto do que qualquer discurso. A ditadura militar está acabando a partir de hoje”. E eu acreditei. Na verdade, ela acabou muito tempo depois, mas não demoraram para acontecer as primeiras greves operárias, a campanha da Diretas Já [de 1984, pedindo eleições presidenciais diretas], a campanha da anistia, enfim. Tudo isso foi consequência.

E como era a sua relação com o Vladimir? Vocês eram amigos?

AD: Não. Tínhamos alguma relação, mas não era muito próxima. Era uma relação de colegas. Ele era um intelectual, não era só um diretor de jornalismo. Ele teve um programa de entrevistas na TV Cultura e me convidou algumas vezes. Tenho até fotos dele me entrevistando, mas não éramos amigos. Quem era bem próximo dele era o Fernando Pacheco Jordão [jornalista falecido em 14 de setembro de 2017; foi chefe de redação da TV Globo São Paulo]. O Fernando tinha trabalhado com ele na BBC de Londres, então havia uma amizade, os filhos nasceram lá, cresceram unidos. O Fernando foi uma das peças mais importantes naquele episódio.

E naquele momento já surgiu a ideia de fazer o livro As duas guerras de Vlado Herzog: da perseguição nazista na Europa à morte sob tortura no Brasil ou foi bem depois?

AD: No dia que terminou o culto, eu desci as escadarias da Catedral da Sé, olhei para a praça já quase vazia e pensei: “Eu tenho que escrever essa história”. Mas como essa história mexeu muito com a minha alma, mas mexeu muito mesmo, eu dizia que não ia ter condição e isenção para escrever. Não que precisasse da famosa neutralidade, mas a isenção para fazer bem, sabe? Pra contar bem aquela história. Aí guardei isso comigo. Até que foram escritos alguns livros sobre o assunto, inclusive o do Fernando Pacheco Jordão [Dossiê Herzog – Prisão, Tortura e Morte no Brasil, de 1979, editora Global], que é o mais importante. Mas, mesmo com esses livros, eu achava que o papel do sindicato não estava devidamente contado, e eu tinha a obrigação de fazer isso. Aí resolvi em 2005, 40 anos depois, escrever o livro. Comecei a consultar meu computador interno, lembrar das coisas. Isso foi o principal que determinou. Pesquisei muito e fiz 40 e tantas entrevistas, principalmente com pessoas que foram torturadas, inclusive com os jornalistas torturados. Fui descobrindo coisas que nem eu sabia. E não ficou aquela coisa chata, compacta. Ficou como a gente faz numa reportagem. É uma reportagem! Eu cheguei ao Arquivo Nacional no momento em que o SNI [Serviço Nacional de Informações, criado em 13 de junho de 1964 pelos militares, com o objetivo de supervisionar e coordenar as atividades de informações e contrainformações no Brasil e exterior.] tinha liberado os arquivos. Liberado entre aspas, porque muita coisa eles não liberavam. Fui lá logo no começo, em 2011. Eu já tinha concluído as pesquisas e pedi duas coisas: meu dossiê e o do Vlado. O maior espanto que eu tive foi ver que existia ali 400 e tantas páginas de citação de aspas desse dossiê sobre mim. Diziam que eu tinha participado de oito organizações subversivas. Tudo isso me deixou puto, mas eu fiquei mais puto quando vi que eles mentiam. Nunca pertenci a nenhuma sigla até hoje, e lá eles me apontavam como pertencente a várias organizações. Eu até fui para o MDB, mas foi depois do sindicato. Aí, quando chegou no dossiê do Vlado, eu vi que a ditadura continuava de pé em 2011. A coordenadora do SNI disse que eu precisava levar a autorização de Clarice Herzog [viúva de Vladimir], e eu disse que tinha essa autorização. Então ela respodeu que eu tinha que levar uma cópia autenticada do atestado de óbito e eu falei: “Não, isso a senhora não vai ter de mim, porque não existe um atestado de óbito verdadeiro. O atestado do Vlado foi falsificado”. Aí eu não aguentei e emendei: “Porra! Acabou a ditadura e vocês estão me exigindo um atestado de óbito falso?”. Eu conto isso no livro.

“Dois jovens repórteres mudaram o mundo no caso Watergate. Fizeram o presidente da maior potência guerreira do planeta renunciar. Eu acho que a nossa profissão exige ousadia.”

Que conselho você costuma dar para mostrar que o jornalismo pode sim promover mudanças, transformar coisas erradas, especialmente em uma sociedade como a nossa, com tanta injustiça?

AD: Eu resumo me referindo ao Caso Watergate [escândalo político ocorrido na década de 1970 nos Estados Unidos, que acabou culminando na renúncia do presidente Richard Nixon, do Partido Republicano, após uma série de reportagens feita por dois jornalistas do jornal The Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein]. Dois jovens repórteres mudaram o mundo, é ou não é?! Fizeram o presidente da maior potência guerreira do planeta renunciar. De alguma forma o mundo foi mudado dessa forma, não como a gente queria, mas foi [risos]. É isso, eu acho que a nossa profissão exige ousadia. Ousadia não para inventar histórias aí pelo mundo, contando aventuras, mas para investigar, para dizer as coisas que precisam ser ditas. E essa falta de ousadia é um dos maiores problemas hoje do jornalismo, não só brasileiro, acho que no mundo inteiro.

Como você avalia o momento atual do nosso jornalismo?

AD: Acho que nunca o nosso jornalismo passou por um momento tão negativo. O que acontece hoje é pior do que a censura política que se fez na ditadura militar. Aquela era uma censura que não atingiu propriamente os donos dos meios de comunicação, mas os jornalistas, muitos dos quais fizeram autocensura, que era uma espécie de escape, era o medo. E hoje o que há? Além da autocensura dos jornalistas, que é a pior que pode existir, há a censura das posições da grande mídia. Hoje não precisa de nenhuma censura política. Quem primeiro trata de censurar são aqueles veículos que apoiaram a ditadura militar. Os mesmos que apoiaram continuam fazendo a censura, que se expressa por alguns prismas. Um deles é pela omissão da informação – omissão, a meu ver, é a mesma coisa que censura. Você pode omitir ou, então, induzir o leitor a pensar que algo é verdade, mas não é a realidade, de fato. Na cobertura que fez das manifestações realizadas no Dia 1º de  Maio de 2017 [houve atos de trabalhadores em todo o país, inclusive manifestações de movimentos sociais contra as reformas promovidas pelo governo do presidente Michel Temer], a imprensa deu mais ênfase à manifestação da Força Sindical [central sindical que comumente se identifica com as forças do patronato], que é dirigida pelo Paulinho da Força [deputado federal Paulo Pereira da Silva, do Solidariedade – SD], do que à manifestação dos movimentos de esquerda. O Paulinho faz o papel da mídia, por isso eles não destacam as coisas erradas relacionadas a ele. Isso é omissão!

É um jornalismo que só aponta contradições no que interessa…

AD: Exatamente. É isso.

Você está com 87 anos [em 2017, na época da realização da entrevista]. Para finalizar, eu queria que você respondesse: ainda há planos de reportagem na sua vida?

AD: Ah, se eu pudesse, eu faria. Como eu disse, o que está acabando não é a reportagem, e sim os veículos para publicá-la. É isso simplesmente. Talvez eu pudesse propor uma reportagem para a revista Piauí, ou outro veículo que dá espaço para a grande reportagem, algo assim… Mas aí tem a questão da minha própria sobrevivência. Eu não posso mais me dar ao luxo de sair e passar 40 e tantos dias, como eu fazia na época da Realidade, fazendo uma reportagem. Não dá mais.

Mas você ainda é repórter?

AD: Sou. Isso sempre! [risos]

 

 

 

 

 

 

“Não se faz nada e nem se vai muito longe sem informação”

A jornalista Nathalia Carvalho. Crédito: Arquivo pessoal

A jornalista Nathalia Carvalho. Crédito: Arquivo pessoal

*Por Isabela Alves

Ela é um dos pilares da reportagem de um dos principais portais de comunicação do Brasil: o Comunique-se.

Formada pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação (Fapcom), com pós-graduação em Cinema e Criação para Multimeios pela Universidade Anhembi Morumbi, sempre teve o Jornalismo “como primeira opção de curso” e viu na profissão “uma oportunidade de jogar luz em assuntos pouco discutidos, além de dar voz para as pessoas, ouvir e contar suas histórias”.

Nathália Carvalho, 26 anos, repórter do Portal Comunique-se, fala nesta entrevista sobre sua carreira, a importância do Jornalismo e sobre o projeto “Caravana do Jornalismo”, que vem marcando os 15 anos do grupo Comunique-se no país. Confira!

Qual é a sua formação?
Nathália Carvalho: Tenho 26 anos e trabalho como repórter desde 2009. Me formei em jornalismo pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação (Fapcom) e fiz pós-graduação em  cinema e criação para multimeios na Anhembi Morumbi,  além de outros cursos livres na área.

Por que decidiu cursar jornalismo?
NC: O Jornalismo sempre foi a minha primeira opção de curso. Não fui uma adolescente cheia de dúvidas quanto ao rumo profissional que ia seguir. Entrei na faculdade de jornalismo com 17 anos e não me arrependi. Sempre acreditei muito na comunicação como algo transformador e vi no jornalismo a oportunidade de jogar luz em assuntos pouco discutidos, além de dar voz para as pessoas, ouvir e contar suas histórias.

O que é jornalismo para você?
NC: O jornalismo é o que eu sou, é a minha vida. O jornalismo me dá a oportunidade de estar com grandes executivos da comunicação em um dia e no outro com jovens de comunidades carentes; me dá a chance de aprender diariamente com as histórias dos outros; O jornalismo é tudo que sou e tudo que ainda posso me tornar. Sou uma apaixonada pela profissão.

Qual é a importância do jornalismo para a sociedade?
NC: O jornalismo e a informação são essenciais para a sociedade. Não se faz nada e nem se vai muito longe sem informação, não é mesmo? O jornalismo registra a história em tempo real e é preciso muita responsabilidade para estar na área.

Por que essa profissão muitas vezes é desvalorizada?
NC: O modo de se fazer jornalismo passa há alguns anos por mudanças consideráveis e isso tem impactado em todas as redações, assim como os profissionais que lá trabalham. O jornalismo não é – e nunca foi – uma área fácil, só se entra no jornalismo por amor. Se você não é um apaixonado, em pouco tempo você vai desistir. As dificuldades são imensas e o Brasil é um dos países mais perigosos para se trabalhar na área. Diariamente, pessoas são ameaçadas ou morrem pelo trabalho como jornalista. Esse cenário se agrava ainda mais quando os coleguinhas atuam em pequenas cidades, onde a lei parece ser cega.

Qual é o futuro do jornalismo?
NC: Não sei dizer qual o futuro do jornalismo, mas sei dizer o que desejo para o futuro: Que a gente (redações e profissionais) consiga se adaptar às mudanças. Que possamos aprender cada vez mais e que novas portas possam ser abertas. O conteúdo continuará sendo rei e nós jornalistas não podemos nos esquecer que é neste ponto que devemos investir. O nosso compromisso deve continuar sendo somente e apenas com os nossos leitores, telespectadores e ouvintes, pois é para eles e por eles que acordamos e trabalhamos todos os dias.

O que é necessário para ser um bom jornalista?

NC: Amor, empatia, paciência e sensibilidade para perceber nas pequenas coisas a sua grande história. O bom jornalismo é aquele que gasta os sapatos em busca de boas pautas, é aquele que ouve com atenção e que vive eternamente para o aprendizado.

Quais livros jornalísticos você indica?
NC: São tantos! Além dos clássicos já exigidos pela faculdade de jornalismo, indico: “O Espetáculo Mais Triste da Terra”, livro reportagem de Mauro Ventura; e “Lava Jato”, de Vladimir Neto.

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Nathália na cerimônia do prêmio Comunique-se. Crédito: Arquivo pessoal

O que é a “Caravana do Jornalismo” (promovida pelo portal Comunique-se) e qual é o seu objetivo?
NC: A Caravana do Jornalismo é uma exposição itinerante que surgiu como braço do Prêmio Comunique-se, evento considerado o Oscar do Jornalismo brasileiro. O objetivo da exposição é levar informações sobre a profissão para jovens de comunidades carentes de maneira gratuita. Por ora, estamos em SP. Em outubro vamos para o Rio de Janeiro e no ano que vem pretendemos ampliar nossa viagem.

Como se iniciou esse projeto?
NC: O projeto foi iniciado como braço do Prêmio Comunique-se. Existe ainda outra data marcante: em 2016, o Grupo Comunique-se completa 15 anos de vida.

Por quais locais a Caravana irá passar?
NC: Por ora, SP e RJ. Mas queremos ampliar a viagem no próximo ano.

Como podemos contribuir para o projeto?
NC: Divulgando! É preciso que todos saibam que a Caravana do Jornalismo está nas ruas. A exposição foi feita para as pessoas e sem elas nós não existimos. Vamos convidar os amigos, familiares, colegas de faculdade, a comunidade, enfim, todos serão recebidos com muito carinho.

*Isabela Alves, responsável pelo blog Culturistando, é minha aluna do quarto semestre do curso de Jornalismo da Anhembi Morumbi (campus Vila Olímpia). Ela escreve para o Formando Focas em caráter colaborativo. ❤

Fruto de um TCC, livro resgata a trajetória do repórter Gérson de Souza

livro

*Patrícia Paixão

Ele fez matérias invejáveis pelos cinco continentes do mundo. Esteve em lugares fascinantes, desconhecidos da mídia nacional e internacional, como Papua do Oeste, na parte ocidental da Ilha de Nova Guiné, onde comandou uma grande reportagem com os “korowai batu” – um povo que, comprovadamente, praticou o canibalismo durante décadas e que vive em grandes árvores.

Sem a maquiagem e figurino típicos de um repórter de TV, e com um jeito simples, simpático e caloroso, Gérson parece causar uma espécie de “encantamento” nas fontes. Em poucos minutos de conversa, seus entrevistados já estão abrindo as portas de casa, contando “causos” de seu cotidiano e convidando o jornalista para provar pratos e bebidas típicas e exóticas.

Repórter especial da Rede Record, o jornalista teve seus quase 40 anos de profissão retratados em um “livro-reportagem biografia” escrito pelo jornalista André Guimarães. A obra, fruto do Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo de André, aborda toda a trajetória do jornalista,  dos seus primeiros passos, em uma emissora pequena de Pederneiras (interior de São Paulo), às viagens pelos cinco continentes do mundo, pela Rede Record.

O livro foi lançado em 2014, com grande repercussão na mídia. A obra,  permeada por documentos e registros fotográficos da carreira do repórter, conta com o prefácio de Neusa Rocha, uma das principais diretoras da TV brasileira.

Trata-se de uma excelente dica de leitura e um belíssimo exemplo de TCC, do qual tenho imenso orgulho de ter sido orientadora.

Saiba mais sobre os bastidores de produção da obra, nesta entrevista com André Guimarães.

André

André Guimarães

Como surgiu a ideia de biografar Gérson de Souza? Por que ele e não outro repórter?

André Guimarães: A ideia surgiu após o lançamento do livro “Mestres da Reportagem” [em 2012], do qual sou coautor.  Gérson de Souza foi um dos repórteres que compareceram na noite de autógrafos, na Livraria da Vila do Shopping Higienópolis [São Paulo]. Conversamos por alguns minutos e trocamos o contato. Percebi que ele era bastante simpático e acessível. Comecei a pesquisar sobre ele e vi que não existia quase nada publicado sobre sua carreira. Constatei que Gérson tinha um extenso currículo, passando por diferentes mídias (rádio, jornal, assessoria de imprensa e TV), porém com muito pouco material divulgado, apenas um blog e sua página pessoal no Facebook.  Após conversar com a minha orientadora [Patrícia Paixão, responsável por este blog, o Formando Focas], propus ao Gérson a ideia de fazer um livro resgatando sua carreira. Ele concordou e disse: “é um grande desafio que envolverá muito trabalho, você tem certeza?” Eu disse que sim e o acordo para fazer o livro foi selado.

O livro é fruto de um TCC de Jornalismo. Quais são os desafios de escolher o “livro-reportagem” como mídia para um TCC? 

AG: Os desafios são o tempo, o planejamento e encontrar as pessoas que participaram da trajetória do biografado.  É uma corrida contra o tempo, mas o essencial é planejar cada detalhe, contando com contratempos. Não podemos esquecer ainda de que algumas pessoas podem não aceitar falar e teremos que entender e saber lidar com o ocorrido.

Que conselhos você dá para o estudante de jornalismo que pretende fazer como TCC um livro-reportagem?

AG: Primeiro fazer uma vasta pesquisa sobre o assunto ou pessoa a ser retratada e, segundo, um bom planejamento. Terceiro, se dedicar ao máximo, o tempo todo  Em alguns momentos precisará escolher entre ir a alguma festa ou ficar pesquisando, transcrevendo entrevistas, ou seja, fazer o que os outros não estarão fazendo nas horas vagas.

Ao todo, quantas entrevistas e quantos lugares você conheceu para escrever o livro?

AG: Foram 65 entrevistados, entre São Paulo, Rio de Janeiro, Bauru, Jaú, Pederneiras, São Bernardo do Campo e Caieiras.

Qual foi o lado mais complicado de fazer essa obra?

AG: Conseguir a entrevista de alguns jornalistas que se julgam melhores que outros, a compilação de dados e a transcrição das entrevistas, já que foram vários entrevistados.

E o mais gratificante?

AG: A emoção, a experiência que obtive durante as entrevistas de ser recebido por grandes nomes do jornalismo brasileiro em suas casas, seus departamentos de trabalho, e os comentários de alguns entrevistados de que Gérson de Souza é um repórter em extinção. E foi exatamente por isso que dei esse nome ao livro.

NÓS

André Guimarães, Patricia Paixão e Gérson de Souza, no lançamento do livro

Como o Gérson recebeu a proposta de ser biografado?

AG: A princípio eu não consegui falar com ele, falei com a esposa, Elaine dos Santos. Ela disse que uma das filhas dele, que era jornalista, tinha um projeto de fazer um livro do pai, mas que falaria com o Gérson e qualquer coisa ele entraria em contato. Passados 15 dias [era sexta-feira – 15 de fevereiro de 2013], recebi uma ligação em meu celular.

Eu: Alô, quem fala?

Gérson de Souza: André Guimarães, aqui é o Gersinho do livro Mestres da Reportagem, tudo bem?

Eu: Gersinho?

Gérson de Souza: Sim, o Gérson de Souza!

Eu (ansioso, surpreso, coração acelerado): Ah! Oi, Gérson, o senhor está bem?

Gérson de Souza: Senhor não, por favor!

Eu: Tudo bem, desculpa. Em que posso ajudar?

Gérson de Souza: Minha esposa disse que você quer escrever um livro, uma biografia sobre mim.

Eu: Sim, verdade!

Gérson de Souza: Então é o seguinte, anote meu endereço, venha almoçar comigo domingo [17/02/2013], às 13h. Traga quem você quiser que conversaremos sobre o livro. Eu aceito.

Eu (lágrimas escorriam em minha face): Obrigado, muito obrigado. Vou falar com a professora Patrícia Paixão, e estarei em sua casa no horário combinado.

Eu fiquei muito emocionado e muito feliz com o aceite dele. Fomos eu, Patrícia Paixão e outro professor, o Carlos Monteiro, na casa dele no domingo. Gérson nos recebeu e disse: “Eu vou cozinhar pra vocês hoje, amo receber pessoas em minha casa e cozinhar pra elas”. Gérson falou 6 horas ininterruptamente. Começou dizendo que não tinha o contato de ninguém e que eu teria muito trabalho. Eu gravei a conversa e comecei as entrevistas. Foram sete meses de produção, todos os dias meu foco era o livro. Eu estudava pela manhã, fazia as entrevistas nos finais de semana, algumas durante a semana no período da tarde ou à noite, já que eu fazia estágio das 16h às 22h45.  Escrevia durante as madrugadas, aos sábados e domingos. Nos sábados, nas bibliotecas, aos domingos no Starbucks do centro de São Paulo, pois na faculdade ou onde eu morava não tinha como.

Ele interferiu no conteúdo do livro?

AG: Em momento algum, deu total liberdade para a produção. No início, decidimos que seria uma biografia profissional, focado na vida profissional dele. Este foi o combinado e assim foi feito.

Por que o leitor deve comprar o livro “Gérson de Souza: Um repórter em extinção”? O que ele vai descobrir sobre o Gérson que ele não sabe?

AG: Porque se trata de um repórter com vasta experiência em diversos veículos de comunicação, que possui uma linguagem simples e conquista as pessoas durante as reportagens. É um belo exemplo a ser seguido no jornalismo.

O leitor descobrirá que Gérson é a mesma pessoa, seja em casa, no trabalho ou com amigos, simples, o homem do calcanhar rachado, como ele mesmo se define.

SERVIÇO

O livro pode ser adquirido pelo site da Livraria Cultura (entregas em todo o Brasil), ao valor de R$ 44,90.

Jornalismo de beleza é com Andréia Meneguete!

*Patrícia Paixão

Há mais de dez anos ela era minha estagiária na seção paulista do Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal, onde eu gerenciava o departamento de Jornalismo.

Curiosa, inteligente, crítica, super disposta a aprender.

Hoje?

Uma das principais jornalistas brasileiras dos segmentos da beleza e da moda, e, exatamente por isso, minha entrevistada aqui no Formando Focas (quem acompanha o blog sabe que só entrevisto os melhores 🙂 )

Que orgulho de ter sido chefe – e hoje amiga – de Andréia Meneguete. Desculpa, sociedade, mas Andréia é ex-editora de beleza da Revista Glamour e, atualmente, repórter freelancer da Vogue, Lifestyle Magazine e Máxima Portugal.

Quer mais?

Também é responsável pelos cursos de Jornalismo de Moda e Comunicação Estratégica de Moda na FAAP.

Então eu ostento mesmo minha amizade com essa diva ❤

Nesta entrevista, Andréia fala sobre a cobertura no segmento de beleza, responde sobre o preconceito que algumas pessoas possuem contra jornalistas que atuam nessa área e revela alguns diferenciais do curso que ela ministrará no próximo dia 30/01, no Ateliê Moda Imagem, em Moema, São Paulo.

Confira!

Mesmo com a crise, o segmento de beleza tem estado aquecido e nós, brasileiros, somos apontados como um dos principais mercados de cosméticos e produtos de bem-estar do mundo. Diante desse cenário, qual é a importância de saber cobrir adequadamente o segmento de beleza?

Andréia Meneguete: No jornalismo, quando a gente entende o segmento em que estamos trabalhando, o assunto fica cada vez mais pertinente para o leitor, público-alvo. Quando o assunto é beleza, não é diferente de política, economia ou cidades. Você tem que ter noção do todo para poder dar um gancho pertinente para a sua matéria. A área de beleza pode ter um viés econômico, se formos falar de dados do mercado. Podemos ter um viés de comportamento, se olharmos para as tendências de consumo. Ou podemos falar de questão de saúde, se olharmos para um produto e sua composição. O mercado de beleza cresce, pois somos ávidos pelo assunto, não tem jeito. E isso não é algo novo, pelo contrário. Se olharmos para trás vamos ver na nossa história as mulheres se embelezando por vários motivos. Cleopátra introduziu o belo olhar delineado na ‘cartilha da beleza’ não por motivos estéticos, mas, sim, por questões de proteção: a sua maquiagem era uma forma de afastar pestes e infecções da pele. Em algumas tribos e aldeias, mulheres usam a maquiagem/pintura no corpo para se diferenciarem. A beleza acaba sendo um meio e não o fim, mas há a admiração do belo. E não adianta falar que não há interesse no assunto, pois há. Seja num grau de intimidade menor ou maior, mas há.

Que qualidades e atitudes são importantes para quem deseja cobrir esse mercado?

AM: Tem que ter curiosidade, responsabilidade, faro para descobrir o que realmente é novo, o que é importante destacar e noticiar para o leitor. De verdade, não vejo diferença entre a postura entre um jornalista setorista em política e um que escreve para editoria de beleza. O que acontece é que esse mundo é muito mais glamourizado e é muito mais fácil se perder entre tantas ofertas. Mas, quando se tem postura profissional, o bom trabalho acontece.

O que é fundamental na hora de criar um editorial de beleza?

AM: O editorial de beleza tem que respeitar o público-alvo do veículo, como esse leitor está preparado para receber a imagem que será produzida. Não adianta construir uma história (imagens) conceitual se o seu leitor é muito mais focado em algo pronto para usar. Você só vai perder o espaço daquela página e não vai atingir o seu leitor. Então, você tem que entender quem é o seu leitor, antes de tudo, de qualquer passo (parece fácil, mas quando as pessoas entram nesse segmento tendem a  confundir gostos pessoais com o do target do veículo). Depois disso, você vai pegar uma tendência e transformá-la em uma bela história para contar. Tem que ter um gancho, um foco para a história a ser construída. Não adianta querer falar tudo em um único editorial. Veja o que é notícia, entenda qual o tom deseja dar para as imagens, como será o cenário desse ambiente e monte a história em cliques – é o famoso moodboard.

Esse segmento costuma ser visto com um certo preconceito por alguns jornalistas, que o consideram “fútil”. Como você recebe essas críticas?

AM: Já escutei muito na minha carreira –  quando eu trabalhava em jornal diário, principalmente – que a área de jornalismo feminino era “perfumaria”. Nunca me abalei, nunca me senti melhor ou pior pela área que escolhi. Sabe por quê? Porque subestimar um tema/assunto pode levar você a cometer erros absurdos na sua apuração. E um texto mal apurado pode fazer com que o leitor manche a pele, desenvolva alergias, perca cabelo, prejudique a saúde do corpo, etc. Adoro quando vejo alguém que leu um texto meu e acabou entendendo melhor como funciona o organismo, conseguiu adquirir hábitos melhores em relação à saúde e até mesmo testou um serviço de beleza que melhorou a relação que ela tinha com determinada região do corpo. Eu quero ser a pessoa que ela confia na hora que está lendo um texto sobre beleza, não estou falando só de maquiagem, estou falando de nutrição, bem-estar e fitness. Diferente da onda de blogueiras que recebem para divulgar algo, o jornalista ele apura, pega opiniões diferentes e expõe o assunto – pelo menos é como dever ser.

Futilidade é aquilo que não tem utilidade pra nada, que pode ser descartado. Quando falamos da nossa relação com a nossa imagem, de como nos sentimos melhores quando por meio de uma matéria entendemos melhor a nós mesmos e nossas escolhas, eu acho isso demais e zero fútil. Olha que engraçado: quando uma menina deseja imitar a mãe, ela passa um batom. Quando um menino quer imitar o pai, ele faz a barba. O produto de beleza conta história, tem vínculo emocional, não tem como achar isso fútil.

Quais tópicos exclusivos o curso de beleza que você leciona proporciona aos alunos?

O atrativo do curso é poder entender um pouco como funciona a área e os bastidores de uma redação do segmento feminino. Como já escrevi sobre o tema para diferentes veículos, de jornal diário à revista feminina mais conceituada do mundo, passando pela mais vendida do país, acredito que há possibilidades de explorar o assunto por diferentes olhares. Sem contar que a aula é uma delícia.

Deixe um conselho para quem deseja atuar no jornalismo de beleza.

Não adianta gostar de consumir beleza, tem que gostar de jornalismo, é fato! O faro jornalístico, o desconfiomêtro, a boa apuração, o texto coerente e a responsabilidade com o leitor têm que vir acima de tudo. É isso que faz você desenvolver um bom trabalho.

MAIS INFORMAÇÕES SOBRE O WORKSHOP “JORNALISMO DE BELEZA”, OFERECIDO POR ANDRÉIA MENEGUETE:

wORKSHOP

Quando: 30/01/2016, das 9h às 18h.

Onde: Ateliê Moda Imagem – Rua Demóstenes, 606, em Moema.

Quanto: R$ 380 (em 2 parcelas | 1a Depósito Bancário + 2a no dia do curso)

Matrículas e informações: andreia.meneguete@gmail.com​

OBS: O curso é personalizado e tem vagas limitadas. Corra!!!!

 

Fruto de um TCC de Jornalismo, livro resgata trajetória do repórter Marcelo Canellas

 

 

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*Patrícia Paixão

Um dos repórteres mais respeitados do telejornalismo brasileiro, com mais de 40 prêmios nacionais e internacionais por suas matérias focadas nos Direitos Humanos, teve sua carreira registrada em um livro-reportagem, que será lançado no próximo dia 19/11, pela editora In House, na Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo.

Trata-se de Marcelo Canellas, repórter especial do programa “Fantástico”, da Rede Globo, autor da famosa série “Fome no Brasil”, exibida no Jornal Nacional de 18 a 22 de junho de 2001, considerada uma das reportagens mais premiadas do jornalismo latino-americano. Na série (vejo o vídeo abaixo), Canellas mostra os rostos e as histórias das pessoas que engrossavam, naquele período, as estatísticas sobre a fome no Brasil, fazendo um verdadeiro mapeamento dos municípios do país que mais sofriam com o problema.

O autor da obra?

MEU EX-ORIENTANDO DE TCC (desculpa, sociedade, mas eu tenho que me orgulhar e muito dos meus alunos rs), Sidney Barbalho de Souza.

Intitulado “Marcelo Canellas, por um jornalismo humanista”, o livro, que tem o prefácio da também repórter especial da Globo, Sônia Bridi, foi resultado do Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo que Sidney apresentou à FAPSP (Faculdade do Povo) em 2014, com a minha orientação.

Nesta entrevista, meu ex-pupilo e atual colega de profissão revela os bastidores de produção da obra e fala sobre o seu lançamento, que contará com a presença de Marcelo Canellas, para um bate-papo com o público e com o autor.

Confira!

O livro foi fruto do seu Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo. Por que escolheu fazer uma biografia como TCC e por que a escolha de Marcelo Canellas como biografado?

Sidney Barbalho de Souza: Apesar de ser um dos principais representantes da cobertura de Direitos Humanos no Brasil e possuir dezenas de prêmios, Canellas ainda não tinha sido alvo de nenhuma pesquisa mais aprofundada. Percebi que havia pouquíssimo material sobre a carreira do jornalista e que nem todos estudantes de Jornalismo conhecem o trabalho dele. Desde que uma colega minha da FAPSP, a Jennifer Souza [hoje também já formada], entrevistou o Canellas para o livro “Mestres da Reportagem” [2012], botei na cabeça que queria fazer o meu TCC sobre ele.  O Brasil é um país que traz números alarmantes de desrespeito aos Direitos Humanos e a profissão de jornalista é uma atividade de natureza social, que deve se pautar em denunciar esse desrespeito. O Canellas faz isso muito bem em suas reportagens. Gosto muito da mídia “livro”, então, fazer a biografia do Canellas foi uma maneira de contemplar tudo isso.

Qual foi o maior desafio para fazer a obra?

Sidney: Foram vários medos. Medo de não conseguir fazer uma boa pesquisa de campo, quando visitei as cidades nas quais o Canellas trabalhou; medo de achar que eu já estava dominando profundamente o assunto e, assim, deixar de pesquisar o suficiente; receio de fazer um livro parcial, já que sou fã do trabalho do Canellas e precisava manter a imparcialidade;  e, principalmente, escrever um livro que estivesse à altura da grandiosidade deste repórter, que correspondesse às suas expectativas.

Como Marcelo Canellas recebeu a ideia de biografá-lo?

Sidney: Ele ficou lisonjeado e, ao mesmo tempo, um pouco receoso. Me questionou se ele realmente mereceria uma biografia. Ele é muito humilde e modesto. Dizia que havia jornalistas com mais histórias que ele, para serem biografados. Mas aos poucos ele foi pegando confiança e foi vendo que o trabalho poderia ser interessante para ajudar a formar novos jornalistas.  Tudo transcorreu de forma tranquila e respeitosa. Ele sempre me apoiou.

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Canellas com Sidney, no primeiro encontro para planejar a criação do livro-reportagem

O projeto passou pela aprovação da Globo?

Sidney: Sim, o trabalho foi aprovado pela Direção de Jornalismo da Rede Globo de Televisão em abril de 2014, por intermédio do Globo Universidade, o que possibilitou sua viabilidade e realização. Fiquei impressionado com os cuidados que a Rede Globo tem com as informações que dizem respeito a seus funcionários. Tudo é muito organizado. Fui muito bem assistido pela equipe do Globo Universidade em tudo que eu precisei.

Que curiosidades/histórias mais te chamaram a atenção no processo de apuração das informações sobre a vida profissional do Canellas?

Sidney: Saber da luta dele para a colocar no ar uma de suas matérias mais famosas, a série “Fome no Brasil”, exibida no Jornal Nacional em junho de 2001. Ele levou quase quatro anos para conseguir a aprovação da pauta para essa reportagem. Descobrir que, além de repórter, Canellas é um excelente cronista, e talvez por isso os textos de suas reportagens para TV sejam tão bem construídos, com toques poéticos. Outra curiosidade é o extremo cuidado que ele tem no processo de produção de suas matérias. Ele tem um método único de construção da reportagem. Quem ler o livro vai conhecer. [risos]

Ao todo, quantas entrevistas você teve que fazer para produzir a obra?

Sidney: Foram mais de 50 entrevistas com familiares, amigos e ex e atuais colegas de trabalho do Canellas. Estive em Santa Maria, Porto Alegre (RS), Rio de Janeiro (RJ), Ribeiro Preto (SP), Brasília (DF) e Recife (PE). Fui em busca de documentos da infância e da juventude do Marcelo e de sua vida profissional. Depois parti para a fase de cruzamento das informações passadas pelas fontes e, finalmente, para a redação do texto, respeitando a linguagem de um livro-reportagem.

O livro oferece uma discussão sobre o Jornalismo de Direitos Humanos ou se limita à vida de Canellas?

Sidney: Sim, essa discussão existe no Capítulo V. Há um debate sobre o que seria o  “Jornalismo de direitos humanos” e como o “fazer jornalístico” do Canellas se encaixa nesse tipo de cobertura. O Canellas, por exemplo, não gosta da expressão “Jornalismo de direitos humanos”. Veet Vivarta, da Andi [ONG que luta pelos direitos da infância e da juventude] também é contra essa expressão e explica o porquê no livro. Para eles, o jornalismo, quando bem feito, já cobra naturalmente o respeito aos direitos humanos. Essa discussão, aliás, é uma das partes mais interessantes da obra.

Depois de fazer esse livro, como você avalia o jornalismo que cobre Direitos Humanos no Brasil?

Sidney: Embora tenhamos avançado em relação ao passado – e muito em parte graças à internet, que oferece oportunidade maior para os profissionais de Jornalismo denunciarem mazelas sociais, ainda há muito a ser feito. Na pesquisa que fiz percebi que muita gente na área jornalística desconhece que a garantia de educação, por exemplo, faz parte da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Normalmente se associa a direitos humanos só pautas envolvendo tortura, trabalho escravo, exploração sexual. Poucos profissionais da área conhecem toda dimensão dos Direitos Humanos. E esse é um tipo de jornalismo essencial, ainda mais em um país como o nosso, onde as instituições são tão falhas.  O jornalismo que se pauta em denunciar o desrespeito aos direitos humanos acaba pressionando os governos, faz eles tomarem atitudes que deveriam ser tomadas naturalmente, mas que não são. A meu ver, a função do jornalismo é lutar pelos mais fracos e pude aprender com a construção do livro que isso é possível.

Da esq. para a dir.: Sidney e Canellas comigo (Patrícia Paixão), no primeiro encontro com o jornalista, para planejar a criação da obra

Sidney e Canellas comigo (Patrícia Paixão), no primeiro encontro com o jornalista

Marcelo gostou da obra?

Sidney: Sim, ele me confidenciou que ficou muito surpreso e feliz com o resultado. Não esperava que eu fosse conseguir tantas informações sobre sua carreira, incluindo documentos antigos do seu início no Jornalismo.

Que conselhos você oferece ao estudante de Jornalismo que deseja fazer um livro-reportagem como TCC?

Sidney: Precisa estudar muito o personagem que você pretende biografar. Planejar muito, ler muito e negociar com o biografado quais serão os métodos e caminhos a serem traçados: se um livro-reportagem que aborde mais aspectos da vida pessoal, da vida profissional ou de ambas. É importante ir a campo, passar pelos locais onde o biografado viveu seus principais momentos e fazer muitas entrevistas, cruzando o que uma fonte disse com a informação de outras fontes, para se chegar o mais próximo possível dos fatos sobre o personagem. Também é preciso evitar achar que se tornou um “amigo” do entrevistado, pois é preciso manter o distanciamento e a objetividade. Se você deixar o subjetivo interferir, ainda mais quando você é fã do biografado, corre o risco de não fazer jornalismo.

Convite

Convite do lançamento do livro, que acontecerá em 19/11, na Biblioteca Mário de Andrade

Há algo especial programado para o lançamento do livro em 19/11? O que o público pode esperar?

Sidney: Sim, haverá um bate-papo com o biografado e comigo sobre a cobertura na área de Direitos Humanos e sobre o processo de construção do livro.

Por que o leitor deve comprar o seu livro?

Sidney:  Porque além de trazer a vida e os bastidores das reportagens de um dos principais nomes do nosso telejornalismo, o que acaba sendo um grande exemplo a ser seguido, a obra discute a cobertura de Direitos Humanos que, como já dissemos no início da entrevista, representa a essência da nossa profissão. O Jornalismo existe para atender a sociedade, para denunciar quando essa sociedade não tem seus direitos garantidos. Sou suspeito pra falar, mas considero o livro essencial para todos que desejam conhecer as qualidades essenciais de um repórter. Espero todos no lançamento da obra.

SERVIÇO

Marcelo Canellas, por um jornalismo humanista

Data do lançamento: 19/11/2015

Onde: Biblioteca Mário de Andrade (Rua da Consolação 94)

Horário: das 19h às 21h30 (das 19h às 20h: bate-papo com Marcelo Canellas e Sidney Barbalho de Souza/das 20h às 21h30: sessão de autógrafos. OBS: É necessário retirar senha no local, a partir das 18h, para participar do bate-papo com o autor e Canellas)

Página do livro no Facebook.

 

ENTREVISTA COM ELMO FRANCFORT: Especialista na história da nossa TV, Elmo revela informações exclusivas do livro que lançará no próximo sábado (19/09), com a presença de diversas personalidades

*Patrícia Paixão

Conhecer a trajetória e as histórias daqueles que deram os primeiros passos na nossa mídia – seja ela impressa, radiofônica, televisiva ou digital – é um pré-requisito importante para todos que atuam no universo da comunicação, inclusive para jornalistas e estudantes de jornalismo, que têm muitas vezes a tarefa de resgatar o passado ao registrar o presente.

É conhecendo os acertos e erros dos nossos primeiros comunicadores que podemos aperfeiçoar e inovar o conteúdo que oferecemos ao público.

Por isso, o Formando Focas traz essa entrevista exclusiva sobre um evento IMPERDÍVEL que acontecerá na tarde do próximo sábado (19/09), na Biblioteca Latino-Americana Victor Civita, do Memorial da América Latina: a festividade dos 65 anos da TV no Brasil, que será marcada pelo lançamento do livro “Gabus Mendes: Grandes Mestres do Rádio e Televisão”, de Elmo Francfort, jornalista, coordenador do Centro de Memória da Associação Pró-TV e do Museu da TV e professor da FAPSP (Faculdade do Povo – especializada em cursos de Comunicação).

A cerimônia também celebrará os 20 anos de existência da Pró-TV, que é responsável pelo resgate, registro e valorização da história do rádio e da TV brasileira.

Nesta entrevista, Elmo, que é um dos maiores especialistas na história da nossa telinha (é autor de outros três livros: “Rede Manchete: Aconteceu, Virou História”, “Av. Paulista, 900: A História da  TV Gazeta” e “Televisão  em 3  Tempos), fala sobre o processo de produção da biografia de Cassiano (primeiro diretor artístico de TV na América Latina), destaca algumas das informações exclusivas oferecidas na obra, faz uma análise da TV e do nosso telejornalismo, além de revelar alguns atrativos do evento do próximo sábado, que contará com a presença de diversas celebridades, dentre elas Cássio Gabus Mendes e Tato Gabus Mendes (filhos de Cassiano), Lima Duarte e o ex-diretor da TV Globo, Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho).

Confira a entrevista e entenda por que não perderemos este evento!

São vários os pioneiros da TV no Brasil, alguns deles, felizmente, ainda vivos, como Lima Duarte e Lolita Rodrigues. Por que a escolha de biografar justamente Cassiano Gabus Mendes?

Elmo Francfort: Eu já tinha uma admiração muito grande pelo Cassiano, porque falar dele é falar de todos os pioneiros. Ele sempre teve um espírito de equipe muito forte e foi o primeiro grande comandante da TV brasileira, além de ser o primeiro funcionário registrado da nossa TV. Foi o único que esteve nos Estados Unidos para estudar a estética televisiva, no final dos anos 1940. Tudo isso eu conto no livro. Além disso, há  uma razão muito especial e que me impressiona até hoje. Sonhei diversas vezes com o próprio Cassiano dizendo que eu devia escrever sua biografia. Se foi ele ou não, de outro plano, não posso afirmar, mas isso até hoje me impressiona. Lembro que no ano passado, no meio de uma noite, tive uma insônia forte e resolvi que era a hora de começar a botar no papel esse sonho que tanto me perturbava. As portas se abriram de tal forma que acredito numa intervenção mística. Veio na hora certa e virou uma obra, cujas revelações, entrevistas, fugiram do que eu imagina, tornando-se ainda mais rica. É como essa viagem dele aos Estados Unidos, que até então era algo inédito. Todos achavam que só técnicos tinham ido para lá estudar televisão. Não posso deixar de mencionar que a proposta do livro era sobre Cassiano apenas, mas aí aconteceu que comecei a pesquisar sua infância e mocidade, vi a riqueza e a influência da vida do pai Octávio Gabus Mendes, na dele, e aí virou uma biografia familiar. A obra vai de 1906, nascimento de Octávio, até 2015, com a novela que já deu adeus à tela da Globo [Babilônia], com Cassio Gabus Mendes [filho de Cassiano] em um dos principais papéis, o personagem Evandro.

Além de ter sido ator, roteirista, sonoplasta, contrarregra e autor de telenovelas, Cassiano foi o primeiro diretor artístico de TV na América Latina, pela TV Tupi. Que contribuições ele deu para a criação dos nossos gêneros televisivos?

EF: Foi uma contribuição total. Ele “fez” televisão até antes mesmo de o veículo existir. Explico: o pai dele, Octávio Gabus Mendes, escreveu roteiros televisivos no início dos anos 1940 e faleceu próximo ao término da II Guerra Mundial. Ele fez uma revolução no rádio e, infelizmente, não viu seu maior sonho – a televisão – acontecer. Cassiano fez isso e com o apoio de um grande colega de Octávio, Dermival Costa Lima, que o convidou para ser seu assistente direto na televisão. Dermival era o chefe, mas apenas supervisionava, uma vez que quem realmente fazia acontecer, criava os formatos e ainda operava equipamentos [Cassiano foi o primeiro “diretor de TV” ou “diretor de imagem”], escrevia, atuava, era o Cassiano. Há uma parte no livro chamada “O filho de peixe”, porque era assim que Costa Lima o considerava, levando em conta aquela famosa expressão “filho de peixe, peixinho é”. Cassiano tinha o mesmo brilhantismo, a mesma intuição e talento do pai. São figuras que não podem ser esquecidas. Foi ele que dirigiu o show inaugural da TV e criou os formatos desse veículo, lançou os principais nomes da televisão. Precisa dizer algo mais? É uma figura fascinante. Ainda assim pensava sempre na criatividade, na equipe e era muito humilde. Me disse a Susana Vieira, uma das entrevistadas do livro: “Ele foi nosso primeiro Boni”. Há um capítulo até sobre a amizade e a influência de Cassiano na carreira de Boni [José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, ex-diretor da TV Globo, um dos grandes responsáveis pela fórmula de sucesso da emissora, por meio da implantação do chamado “padrão Globo de qualidade”], uma parceria de décadas, da Tupi até a Globo.

É verdade que Cassiano teria sido o “pai” de nossos primeiros modelos de telejornais?

EF: Sim. Foi ele que criou o formato do “Imagens do Dia”, o primeiro telejornal da América Latina e do hemisfério Sul. Foi também criador do primeiro vespertino: “Edição Extra”, também na TV Tupi, com Maurício Loureiro Gama e o repórter Tico-Tico. Conto felizmente com o apoio dos depoimentos de muitos pioneiros, como os dois que acabei de citar, que disseram suas histórias à Pró-TV. São mais de 140 depoimentos [exclusivos e os do acervo da associação], cujos trechos fazem parte das mais de 500 páginas da obra.

Que outras informações exclusivas o leitor encontrará no livro “Gabus Mendes: Grandes Mestres do Rádio e Televisão”?

EF: São tantas que é difícil enumerar. O livro conta coisas que pouca gente conhece, como o início do rádio em São Paulo, o cinema mudo no Brasil e várias passagens da Era do Rádio, tudo sob o olhar de Octávio Gabus Mendes. Depois vão ver a carreira de Cassiano, começando com praticamente 10 anos de idade em rádio, tornando-se um grande novelista, até seu falecimento e o que ficou dele em nossa área. A obra mostra ainda o nascimento da televisão, os bastidores, como se deu a criação de todos os gêneros, a concorrência do rádio com a TV, como também a concorrência entre as emissoras. É um livro sobre a história da comunicação, não apenas TV. Fala de cinema, de rádio, de jornalismo. Há os bastidores das novelas, coisas até então não conhecidas, que apenas a família e os amigos sabiam, mas que nunca chegaram a conhecimento público. Dá pra entender um pouco como Cassiano criava suas novelas e séries. De “A Vida Por Um Fio”, “TV de Vanguarda”, “Alô Doçura”, passando por “Beto Rockfeller”, “Anjo Mau”, “Locomotivas”, “Ti Ti Ti”, “Que Rei Sou Eu?” e muitas outras, até chegar em “O Mapa do Mina”, sua última novela. Dá para conhecer um pouco a pessoa que existia por trás do profissional Cassiano Gabus Mendes e conhecer também sua família, como o início da carreira de seus filhos, os atores Tato e Cassio Gabus Mendes. Silvio de Abreu, Maria Adelaide Amaral, Lima Duarte, Laura Cardoso, Eva Wilma, Luis Gustavo [também cunhado de Cassiano] e muitos outros deram depoimentos interessantes para o livro.

A telenovela Beto Rockfeller, criada por Gabus Mendes e exibida pela TV Tupi, foi um marco na TV brasileira por trazer o primeiro anti-herói da história das nossas telenovelas. Dizem que Gabus Mendes não admirava os personagens que criava, pois eles costumavam ser fúteis e defectíveis, espelhando os problemas da nossa sociedade. Rockefeller teria sido um desses personagens criados para fazer críticas aos costumes da sociedade?

EF: É um equívoco dizer que ele menosprezava seus personagens, e eu elucido no livro as razões. Cassiano dizia apenas que fazia personagens comuns, porque buscava uma grande identificação com a sociedade – inclusive o Cassiano adorava assistir às suas novelas e torcer por elas [o Cassio conta bem no livro como o pai se sentia]. Era um sujeito humilde, mas inteligente. Outro equívoco é sobre ele ter dito que o rádio ia morrer dez anos após o início da TV no Brasil. Eu faço a explicação e a defesa disso na obra. Ele era muito inteligente. Mexia muito com clichês, porque, além de novelista, era um bom executivo de televisão, sabia os recursos certos para fazer sucesso na televisão. Ainda assim modestamente dizia que não sabia a fórmula. Claro, a fórmula absoluta não existe, mas ele sabia exatamente o que “não fazer” e onde tinha que “fazer mais”. Era um grande estrategista. Pela primeira vez, o próprio “Beto Rockfeller” [o ator Luis Gustavo] conta a história real nesse livro de como foi criado o personagem. Lima Duarte também, que foi o diretor de “Beto Rockfeller”. Os amantes de novela vão adorar saber.

Gabus Mendes é autor de sucessos como Anjo Mau (1976), Ti Ti Ti (1985-86), Brega & Chique (1987) e Que Rei Sou Eu? (1989). De todas as tramas criadas pelo autor, qual, na sua opinião, mais se destacou pela repercussão junto ao público e criatividade?

EF: Todas tiveram sua importância. Não foi por acaso que ele foi chamado de “Mago das 7”. Ele sabia acertar no ponto. Poucas foram as novelas que não tiveram o sucesso esperado, mas não foram um fracasso. “Anjo Mau” consolidou o horário das sete horas, “Locomotivas” foi a primeira em cores no horário, mas a mais ousada, e que ficou por definitivo na história, sem dúvida foi “Que Rei Sou Eu?”. É uma verdadeira obra prima. Ele conseguiu com humor criticar a política da época, em tempos de eleições presidenciais, e a crise no Planalto. Só que tudo isso com uma trama “capa e espada”, em 1989. Ele satirizava, fazia referências claras aos personagens da política. Digo sempre que se passasse no “Vale a Pena Ver De Novo” seria sucesso garantido e atual. Infelizmente o país, politicamente, continua com problemas. Gosto de citar o caso do Bidet Lambert [interpretado pelo ator John Herbert], o Ministro da Marinha do fictício reino de Avilan, que “curiosamente” não tinha mar!!! Uma comédia pura. Os personagens reais mudaram, mas os ficcionais de Gabus Mendes continuam atuais.

O que os autores de novela hoje têm a aprender com Gabus Mendes?

EF: O texto, a história, os ganchos e tantas outras coisas. Claro que no livro não dou receita de bolo. Tentei pensar como Cassiano. Ele também não daria. Daria princípios iniciais, mas cada um tem que pegar o “novelo da novela” – como dizia a autora Janete Clair, cujo nome artístico foi dado por Octávio Gabus Mendes – e, a partir daí, tecer seu crochê, seu tricô… Só que não dá pra fazer nada sem um bom conteúdo, que te prenda, que tenha conflitos e tantas outras coisas. Os grandes autores estão envelhecendo, isso me preocupa. Felizmente há novos e bons autores surgindo, mas são poucos que fazem a diferença. Muitos autores, de todos os tempos, estão perdendo a mão. É triste. Hoje a novela termina, passa um tempo, e você confunde a trama, não lembra qual era qual. Se você pegar as do Cassiano elas eram bem distintas, você reconhecia os personagens, eram fortes, tinham personalidade própria. E não dá pra dizer que a “sociedade está cada vez mais igual”, porque esses personagens persistem, são bem definidos. Precisamos repensar a telenovela.

Qual foi o maior desafio no processo de registro da biografia de Gabus Mendes?

EF: Foram dois. Hiatos na história da comunicação, principalmente em relação à fase do rádio, descrita de 1950 para trás. Ligar uma fase da carreira à outra, mudança de estação, épocas de crise são mais difíceis. Nas crises, por exemplo, são os momentos em que se tem a menor informação, uma vez que as emissoras – por exemplo, a TV Tupi -, evitava que a crise vazasse para a imprensa. Outra dificuldade foi a síntese. E que dificuldade! Contar uma história tão rica de pessoas que dariam uma enciclopédia, divididas em fascículos! Ainda assim sintetizei a narrativa em mais de 500 páginas incluindo fotos históricas, muitas mostrando a vida pessoal dos Gabus Mendes. Usei como fonte também entrevistas e declarações dadas por Cassiano e Octávio Gabus Mendes no passado, pra manter a visão deles no livro. Isso me ajudou muito e aprendi demais.

Teve dificuldade em falar com artistas que trabalharam com Cassiano ou em conseguir arquivos históricos?

EF: Isso foi uma das coisas interessantes. Tudo surgiu gradativamente, tanto arquivos históricos, como colaborações e entrevistados. Claro, fui atrás das fontes de pesquisa, busquei o melhor que pude. A história merecia esse cuidado. Mas tive casos de renomados pioneiros da televisão –  não citarei nomes – que me procuraram querendo participar do livro e contar suas histórias com Cassiano e os Gabus Mendes. Fiquei muito feliz. É uma família muito querida. Cassiano, por exemplo, é considerado por muitos como padrinho.

Como se sente agora que a obra está finalizada?

EF: Muito feliz. Foi um grande desafio, mas ao mesmo tempo um grande prazer escrever esse livro e ouvir as histórias. Espero realmente ter conseguido repassar adiante o que ouvi. O Tato me disse que no livro sou um “grande contador de histórias”. Respondi a ele que agradecia o elogio, mas que a história é que era de um grande “contador”. Ainda mais porque Cassiano foi o inventor de um programa de teleteatro da Tupi chamado “O Contador de Histórias”, com tramas de suspense e mistério. Agradeço o elogio, mas não mereço. Me identifiquei muito com o que conto no livro, porque acredito, assim como eles [a família Gabus Mendes], que tudo é fruto do nosso trabalho, de arregaçar as mangas, que ainda é possível fazer a “arte pela arte”. O comercial, a audiência, é resultado. Temos que pensar sempre no conteúdo em primeiro lugar. Isso é o futuro da nossa televisão e também do nosso rádio. A convergência, a interatividade, seguirão juntas no mesmo processo, mas é preciso alinhar a técnica ao artístico, como Cassiano e Octávio fizeram a vida toda.

Quando começou essa sua paixão pela televisão?

EF: Acho que eu nasci com ela! [risos] Sou de uma família de pioneiros da TV. Um deles, Luiz Francfort, meu tio, foi câmera do Cassiano na TV Tupi. Conto no livro, por exemplo, que lá ele foi câmera de “Os Dez Mandamentos” [décadas antes da Record fazer], sob supervisão de Gabus Mendes. Quando nasci peguei o “vírus”. Como sempre digo: quando você conhece o “cheiro” de estúdio, nunca mais esquece. Conheci os bastidores da TV e comecei cedo. Além disso, trabalho na Associação Pró-TV, sou telespectador também e professor, dando aulas na FAPSP [Faculdade do Povo, especializada em cursos de comunicação]. É preciso ter uma visão geral, do todo, pra entender e buscar a evolução de nossa comunicação.

E esse seu trabalho de registro e preservação da memória da nossa TV?

EF: Começou também cedo. Eu percebi muita coisa que minha família me contava nos bastidores, mas que eram vistas como folclore, que foram esquecidas com o tempo. Só que nada havia sido registrado. Desde cedo gostava de história. Quando alguém me perguntava: “Você tem algum hobby?” Eu respondia: “História”. Ninguém entendia. Sempre achei importante preservar a história. Cheguei até a fazer vestibular para História e passei em duas faculdades, mas na hora final pensei bem e algo lá dentro disse que eu tinha que ir para comunicação, por vontade própria, sem imposição nenhuma. A arte tem dessas coisas. Ela inspira. Ainda farei “História” e não abandonarei a comunicação. Sou apaixonado pelo que faço.

De que forma conheceu Vida Alves, que é idealizadora da Pró-TV e do Museu da TV no Brasil, além de ser uma das principais pioneiras ainda vivas da nossa telinha (deu o primeiro beijo das nossas telenovelas)?

EF: Um dos meus irmãos, o Arthur, havia criado um site sobre televisão chamado Telecentro. Virei colunista. Aí na época da faculdade virei colunista do site Sampa On Line e passei a escrever uma coluna também sobre televisão e sua memória. Fui trabalhar com ele na Rede Meridional, uma rede de representação comercial de emissoras fora do Eixo Rio-São Paulo. Um dia entrei no site da Pró-TV e vi ele fora do ar. Aquilo me deixou perplexo, porque não entendia como a entidade com uma causa tão importante estava com seu site fora do ar na Era da Internet. Mas preciso contar algo um pouco antes: anteriormente, próximo dos 50 anos da televisão [em 2000], eu tinha feito um site que era “irmão-caçula” do “Telecentro”: o “Canal 1: Memorial da Televisão Brasileira”. Coloquei nele muito conteúdo inédito, baseado no que havia recuperado da história da TV. Um dia entrei em outro site e tinham copiado tudo, sem nenhum crédito, sem nenhum respeito. Fiquei tão chateado. Prometi pra mim que não voltaria mais a fazer nada, porque aquilo foi de uma falta de consideração total. Prometi que só voltaria a fazer algo assim na internet – na época era ainda mais, legalmente, “terra de ninguém” em termos de direitos autorais e falta de créditos, fontes – se fosse por uma causa nobre. Então, voltando ao site da Pró-TV, percebi que o Museu da TV precisava voltar. Feeling? Não sei. Só sei que dei um jeito de criar e hospedar dentro do site da Rede Meridional. No final saí de lá e entrei na Pró-TV. Fui cuidar de um pequeno site que hoje, orgulhosamente, digo que é um portal (www.museudatv.com.br), milhares de páginas, tem redes sociais e tudo que tem direito. Eu adoro desafios. Quando percebi, reconheceram meu gosto pela história, e fui mudando de funções. Fui fazer a curadoria do acervo, depois organização de eventos e de exposições, que percorreram todo país e a Europa. Tudo por causa de um site fora do ar!

Você participou com ela da ideia de criar um Museu da TV?

EF: Mudando o tempo do verbo, digo que eu “participo”. O Museu da Televisão precisa se desenvolver. Já tem um grande acervo, mas está na casa da Vida Alves e precisa de uma sede própria, maior. Está cada vez mais cheio de doações importantes, mas precisa se desenvolver urgentemente. Acompanho há mais de uma década essa luta e vou seguir em frente.

No livro “Televisão em três tempos” você oferece um passeio pela evolução da TV no Brasil, dos primeiros televisores em preto em branco à TV digital.  De 1950 pra cá avançamos bastante em tecnologia. A qualidade da nossa TV acompanhou esse avanço?

EF: A qualidade tecnológica sim, mas a de conteúdo precisa evoluir. Há muita coisa boa no ar. Não dá pra jogar a culpa na sociedade, se a televisão não oferece opções de bom conteúdo. Há iniciativas boas, mas todos pensam no retorno comercial imediato. Só que há muitas coisas que é preciso “apostar” no retorno a longo prazo, porque aí passa a ser duradouro o sucesso. São testes. A Globo já fez e ainda faz muito disso. Às vezes, um insucesso inicial, para uma emissora [comercialmente e em audiência], torna-se, com o hábito, um sucesso futuro e duradouro, quando o conteúdo vale a pena. É preciso sempre pensar no hábito do telespectador.

O que a TV de hoje precisa aprender com a TV do passado?

EF: Muita coisa. Inclusive como lidar com o “ao vivo”. Em épocas que estamos disputando a atenção da televisão com a interatividade, com a TV digital, o Netflix, e Internet, é hora de repensarmos muita coisa e naquilo que é exclusivo do formato televisão. O que é ao vivo é exclusivo, por exemplo. Estamos agora passando pelas mudanças que o rádio passou nos anos 1950 e 1960. É uma nova postura. Uma nova televisão que está surgindo. Tento mostrar isso nas entrelinhas do livro “Gabus Mendes: Grandes Mestres do Rádio e Televisão”. Quem beber da fonte de Octávio e de Cassiano, com certeza entenderá o que estou falando e de como é preciso repensar os formatos. O passado sempre é muito importante para avaliarmos, não errarmos e aprimorarmos o futuro da nossa comunicação.

De acordo com a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (divulgada em 29/04/15, pelo IBGE), até 2013 somente 31,2% dos lares tinha TV digital. Apesar da baixa adesão à TV digital, o governo pretende começar a desligar as redes de TV analógica no ano que vem. Como você avalia essa situação?

EF: Um processo gradativo e inevitável. De 2007 pra cá muito se fez, até criaram leis de financiamento de crédito para baixar os preços das TVs digitais, mas a mudança foi pouca. É fogo isso, mas as grandes mudanças muitas vezes vêm de forma forçada e com uma ruptura, no estilo “agora ou nunca”. Foi assim com a TV em cores. Foi gradativo, mas uma hora falaram: “Ó, vai acabar”. E só assim é que terminou de vez. Ainda há muito chão pela frente, mas as emissoras estão reagindo gradativamente. O que é preciso agora é o mercado de televisores reagir também e estimular a compra, porque se a mudança não surtir efeito, será um grande problema. Não se aquece mercado, não sem 100% de TV digital. Ninguém vai querer ficar no “apagão”.

Qual é a sua opinião sobre o telejornalismo brasileiro?

EF: Em tempos da chamada “Geração Y”, eu acho que o telejornalismo tem que apostar em duas vertentes: um telejornal de manchetes rápidas, sintéticas. E outro estilo mais analítico, pra entender melhor os assuntos. Isso vai garantir a informação mínima, mas necessária, pra quem não tem tempo hábil. Já no outro estilo, dá para se analisar mais, ser mais opinativo. Sinto que a ética é algo que precisa ser também repensada nos nossos telejornais. Os interesses não podem estar acima da informação.

Por que é importante para um estudante de jornalismo conhecer a história da nossa TV?

EF: Um estudante precisa saber a importância da história da TV, do rádio e do jornalismo impresso, senão não conseguirá ir para área e sobreviver. É um contexto geral. Você precisa conhecer o seu universo, de onde veio tudo que existe hoje e como chegamos aqui. Imagina para um fazendeiro não conhecer seu solo direito? Talvez não consiga nunca cultivar o que plantou. Precisamos saber um pouco de tudo. É a base, sempre, principalmente pra quem pretende seguir no telejornalismo.

Que conselhos você oferece aos estudantes de jornalismo que pretendem trabalhar na mídia TV?

EF: Se dediquem ao máximo e estudem. Isso vocês sempre precisarão. Da sala de aula às pautas do dia a dia. Observem também sempre o seu entorno. As coisas mudam, os fatos mudam e as pessoas mudam. Às vezes até de opinião! O futuro é de quem acredita nele. Crises são passageiras, mesmo que demorem a acontecer, mas sempre há uma saída. Oportunidades estão sempre aí. Basta olhar bem e percebê-las. Ah… Correr atrás! Sempre!

Pra finalizar, por que o público não pode perder o lançamento do livro sobre Cassiano no próximo dia 19/09?

EF: Será uma grande festa e com muitas surpresas. Além do lançamento do livro, com a tarde de autógrafos, haverá uma homenagem ao Cassiano Gabus Mendes, no Memorial da América Latina, e a comemoração dos 65 anos da TV no Brasil e dos 20 anos da Associação Pró-TV. Vai mexer com muita gente, tanto com quem trabalhou como com quem assistiu à televisão esse tempo todo. Será emocionante. Ninguém pode perder. Os Gabus Mendes, Vida Alves, Eva Wilma, Laura Cardoso, Boni, Lima Duarte e muitos colegas de Cassiano Gabus Mendes estarão na homenagem. Estou ansioso para o dia, mas não posso contar tudo! Vou ter que deixá-los na curiosidade porque, como disse, vai mexer com muita gente. Ah… um dos segredos de Cassiano Gabus Mendes era manter um certo suspense na conclusão de suas tramas! Garanto que não irão se arrepender dos capítulos finais. [risos]

 SERVIÇO:

*EVENTO DOS 65 ANOS DA TV NO BRASIL E LANÇAMENTO DO LIVRO “GABUS MENDES: GRANDES MESTRES DO RÁDIO E TELEVISÃO”

Quando: Sábado (19/09)

Horário: às 15h

Local: Biblioteca Latino-Americana Victor Civita, no Memorial da América Latina            (Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664 – Barra Funda)

ENTREVISTA COM ANDERSON SCARDOELLI:  “Os valores éticos precisam imperar no dia a dia da profissão”

Para o editor do Portal Comunique-se, caráter e ética são as principais qualidades de um jornalista

 *Patrícia Paixão

Ele é responsável pelo jornalismo do maior portal de comunicação do Brasil. Tem o desafio diário de oferecer a estudantes e profissionais notícias relevantes de um setor que envolve diferentes carreiras (Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Rádio e TV, Relações Públicas, Marketing, entre outras) e que exerce forte influência sobre a opinião pública.

Entrevistamos Anderson Scardoelli, editor do Comunique-se, e colocamos essa entrevista no ar justamente hoje (10/09), data em que o portal comemora 14 anos.

Formado pela Uninove em 2011, o jornalista que escolheu a profissão por “amor à primeira vista”, após uma visita à Rádio Globo, entrou no Comunique-se em 2009, ainda como estudante, fazendo alguns freelas para o portal. “O que a princípio era para ser temporário virou definitivo e com grande evolução. Acho que gostaram de mim!”, brinca.

Ele destaca que um dos segredos da grande audiência do Comunique-se é evitar a publicação de boatos ou fatos banais, que não agregam informação aos profissionais da área. “Temos uma linha editorial bem definida. Vetamos ‘notícias’ do tipo ‘fulano deve fazer isso…’ ou ´beltrano pode fazer aquilo…’, além de matérias bobocas como “o jornalista X se assustou durante o telejornal”.

Nesta conversa, Scardoelli conta um pouco do seu dia a dia como editor. Fala sobre o Prêmio Comunique-se, que homenageia todos os anos os principais profissionais da área de comunicação; sobre o projeto “Correspondente Universitário”, voltado a estudantes de Jornalismo, e oferece dicas e conselhos preciosos para os focas, dentre os quais, a importância do caráter e da ética no cotidiano da profissão. Confira!

Qual é o desafio de ser editor de um dos principais portais de comunicação do Brasil?

Anderson Scardoelli: Na verdade, são desafios e mais desafios. Alguns esporádicos, outros contínuos. O maior desafio na função, modéstia à parte, já consegui realizar com êxito, que foi montar uma equipe de reportagem excelente, com qualidade acima da média. Dificilmente, você encontrará no webjornalismo alguém que escreva no mesmo patamar da Nathália Carvalho, meu braço direito na unidade, um coleguinha com a agilidade da Jacqueline Patrocinio ou até um jovem profissional que tenha nível tão “sênior” quanto a Tácila Rubbo.

Com relação ao conteúdo, o maior desafio é produzir diariamente assuntos que sejam atrativos para os internautas e, ao mesmo tempo, mantenham a credibilidade que construímos ao longo de quase 14 anos. Temos uma linha editorial bem definida, não damos espaços para especulações. Vetamos “notícias” do tipo “fulano deve fazer isso”, “beltrano pode fazer aquilo”… Ou temos base para cravar a informação ou não rende pra a gente. É simples. Por outro lado, também não trabalhamos com pautas bobocas, como repercutir que “o jornalista X se assustou durante o telejornal” ou que o “repórter Y caiu no meio de uma participação ao vivo”.

Outro desafio diário é a questão da agilidade X qualidade. Gostaria muito de saber quem foi o “gênio” que falou que o principal da internet é a velocidade em que determinada matéria ou nota é publicada. Infelizmente, vejo diversos textos em que claramente o veículo se preocupou apenas em publicar a pauta antes dos demais – aí o conteúdo é servido ao internauta com informações equivocadas e erros ortográficos e gramaticais. É triste. Logicamente que ser ágil é importante, mas o nosso leitor sabe que até podemos noticiar algo depois de outros sites, só que aqui ele encontrará informações precisas, contextualização das histórias e textos bons. Ao menos batalhamos para isso.

Deixamos a harmonia entre gama de informações e qualidade textual em primeiro plano, você pode perceber que não publicamos matérias com menos de três parágrafos. Se vendemos a ideia de que o Portal Comunique-se é um veículo especializado em comunicação, não faz sentido darmos espaço para temas que o máximo que conseguiremos extrair será 600, 700 caracteres.

Esse modelo de trabalho tem dado certo?

AS: Sim, pois não somos simplesmente um dos principais portais de comunicação do país. Somos o maior! E isso não é prepotência de minha parte, são os dados de dois rankings online que mensuram a audiência dos veículos da web. No Alexa [plataforma da Amazon que diariamente atualiza seu ranking de domínios mais populares] estamos na frente [posição 503] do Meio e Mensagem [506], Adnews [953] e Portal Imprensa [1.995]. Pelo Similar Web, que apresenta o panorama mês a mês, seguimos na liderança: temos 220 mil visitadas contra 160 mil do Meio e Mensagem, 140 mil do Adnews e 60 mil do Portal Imprensa.

Antes de trabalhar no Comunique-se, atuou em outro lugar?

AS: Em termos jornalísticos, o Comunique-se é a minha primeira casa. Apesar de ter feito Uninove – e destaco que, no geral, a faculdade foi muito boa , costumo dizer que sou jornalista formado pelo Comunique-se. E espero que este seja o meu lar profissional por muito tempo. Entrei aqui em 2009 para fazer freelas de inserção de conteúdo na área do grupo voltada a Relações com Investidores. A oportunidade surgiu graças à indicação da Alice Carvalho, colega de turma lá na Uninove e que já atuava na empresa. Depois de ficar como freela por dois ou três meses, fui integrado à equipe de estagiários da Unidade de Monitoramento de Mídias, setor responsável por cuidar do produto de mailing, que a empresa oferece ao mercado. Onze meses depois, segui como estagiário, mas migrei para a equipe de redação do Portal Comunique-se. Em maio de 2011, quando os dois anos de estágio chegaram ao fim, fui contratado como trainee de redação. Em agosto do ano seguinte, já liderando o time responsável pelo conteúdo, veio a promoção para subeditor. Mudanças aconteceram e ganhei responsabilidades de gestão. Aí, passei a responder como editor desde fevereiro de 2014, cargo que ocupo atualmente, sendo responsável pelo Portal Comunique-se como um todo e pelo conteúdo do Prêmio Comunique-se. Então, o que a princípio era para ser temporário virou definitivo e com grande evolução. Acho que gostaram de mim! [risos]

Como é o dia a dia na redação do Portal Comunique-se? Como vocês criam as pautas?

AS: O slogan da GloboNews, “nunca desliga”, cai muito bem para a equipe do Portal Comunique-se. Passamos praticamente todos os dias e horários trocando informações e ideias que podem render pautas, além de freneticamente avaliarmos as sugestões que chegam por meio de assessorias de imprensa. Trabalhamos muito com essas pautas vindas de colegas assessores e também com assuntos que vimos em outro veículo ou em alguma rede social – aí tentamos sempre dar o nosso olhar diferenciado.

Em termos de pautas criadas por nós, reforço o olhar diferenciado, a expertise de enxergar e produzir além do óbvio e a qualidade para associar personagens interessantes a temas do momento. Exemplos recentes: a observação de perceber que a transmissão da Copa América pela TV Globo afetou a produção local das afiliadas; a ida da Tácila para a Argentina em um projeto para estudantes de comunicação, sendo que ela voltou com quatro pautas; as dicas estruturadas pela Jacqueline para quem deseja ter sucesso no YouTube;  e os 40 anos da versão brasileira da Playboy – além de falar da publicação, a Nathália foi entrevistar o maior colecionador da revista.

Como é a interação com os profissionais da área, já que muitos internautas costumam comentar as matérias que vocês publicam?

AS: É positiva. Por meio dos comentários publicados no portal, conseguimos melhorar matérias, corrigir informações e pensar em pautas diferenciadas. Pela audiência que temos, tenho consciência de que a parte da interação com o leitor pode ser amplificada. Devemos melhorar isso, mas as ações que iremos planejar passam pelo dilema abordado anteriormente: produzir conteúdo interessante, sem dar vez a pautas bobocas, de forma que o público possa participar cada vez mais do nosso conteúdo, até porque temos em mente que quem acompanha o nosso site é, antes de mais nada, colega da comunicação.

Que experiência mais legal você teve nesse tempo de editor do Comunique-se?

AS: A experiência mais legal e gratificante é a de fazer parte do time que forma o Grupo Comunique-se, fazer parte desse ambiente onde os resultados são cobrados sim, mas há um clima muito bom, de descontração e parceria entre as áreas, além da meritocracia, tendo como um dos diferenciais o histórico de formar líderes dentro de casa. Arrisco a afirmar que o Comunique-se é o reflexo de um Brasil que dá certo, onde um ajuda o outro, onde equipes batalham pelos melhores resultados, onde trabalho e alegria caminham juntos.

Como surgiu o Prêmio Comunique-se?

AS: O Prêmio Comunique-se nasceu em 2003, idealizado pelo Rodrigo Azevedo [fundador e presidente do Grupo Comunique-se. Azevedo lançou o portal em 2001 para reunir notícias sobre a mídia]. Ele pensou na premiação como forma de valorizar os grandes profissionais da área e, além disso, servir como ambiente de reencontro para a galera que enfrenta rotinas frenéticas pelas mais diversas redações do país.

De que forma vocês do jornalismo se envolvem na organização e cobertura do prêmio?

AS: Para o Prêmio Comunique-se, atuamos em várias frentes. Reportagens audiovisuais no tradicional almoço de lançamento e na noite de gala da premiação; transmissão ao estilo rádio ao decorrer das entregas dos troféus; matérias destacando os indicados e finalistas de cada uma das 12 categorias; textos para campanhas de e-mail marketing e para a revista produzida especialmente para os convidados do evento. No pós-Prêmio, preparamos reportagens com os destaques da edição.

Vocês possuem um projeto, o “Correspondente Universitário”, que dá oportunidade para o estudante de Jornalismo cobrir eventos da área e publicá-los no portal de vocês, o que é muito bom para os alunos, em termos de portfólio. Como surgiu essa ideia?

AS: Justiça seja feita, a ideia não foi minha, apenas batizei o formato de publicar matérias feitas por estudantes de jornalismo de “Correspondente Universitário”. Os responsáveis pela idealização do projeto foram os próprios alunos que começaram a nos enviar conteúdo, isso lá pelo começo de 2013. E dois dos primeiros a serem “correspondentes universitários” do Portal Comunique-se foram o Eduardo Rodrigues, ex-aluno de certa “professora-repórter-blogueira”e que hoje é repórter da afiliada da TV Globo no Rio Grande do Norte [Eduardo Rodrigues foi meu aluno da FAPSP – Faculdade do Povo], e a Kelly Mantovani, que atualmente integra a equipe do blog Mural, da Folha de S. Paulo.

Como é a relação do Comunique-se com os estudantes de Jornalismo?

AS: O projeto ‘Correspondente Universitário’ tem auxiliado de modo intenso a relação do Portal Comunique-se com futuros jornalistas. Temos, inclusive, recebido textos e imagens bem interessantes do Kaique Dalapola e da Beatriz Sanz [também meus alunos na FAPSP]. Vejo, ainda, que o nosso conteúdo é disseminado em sala de aula por professores de faculdades de comunicação. Graças à relevância junto aos mestres, só em 2015 já participei da semana de comunicação da Unifieo, recebi turma de alunos do campus da Unasp em Engenheiro Coelho [cidade do interior paulista] e estou concedendo esta entrevista a uma prestigiada acadêmica! [bondade do Anderson rs]

Vocês têm uma seção que oferta vagas de emprego e estágio. Já souberam de pessoas que conseguiram se empregar por esta seção?

AS: Ao longo do tempo, a nossa área de ‘Empregos’ se fortificou em ser o verdadeiro elo entre estudantes e profissionais da comunicação com o mercado de trabalho. Muitas pessoas tomam conhecimento de oportunidades de trabalho por meio do portal. O caso mais emblemático foi o do Guilherme Prado, ex-gerente de comunicação do Corinthians. Ao participar de um seminário realizado pela divisão de cursos do Grupo Comunique-se, ele revelou que conseguiu sua primeira oportunidade graças a uma vaga divulgada no nosso site.

Há oportunidades para quem quer estagiar em jornalismo no Comunique-se? Se sim, o que o aluno deve fazer?

AS: No momento, infelizmente, não há vagas em aberto para estudantes de jornalismo no Comunique-se, seja no Portal ou em outros setores da empresa. Independentemente disso, o conselho que é fica é: apresente-se para a equipe, entre em contato com a gente, envie textos… Assim, o vínculo vai sendo criado. E contato é sempre bem-vindo na profissão.

Por que escolheu o Jornalismo como profissão?

AS: Quando estava no ensino médio, tinha interesse em cursar Geografia, pois sempre me interessei por questões relacionadas à geopolítica. Tudo se encaminhava para isso, até o momento em que liguei para a produção da Rádio Globo e pedi para ir ao estúdio da emissora. Era ouvinte do programa ‘Globo Cidade’, apresentado por Osvaldo Pascoal. Quando cheguei à redação, foi amor à primeira vista. Vi como funcionava um veículo de comunicação e decidi que queria trabalhar em um. Aí, de um futuro geógrafo, parti para o curso de comunicação social.

Como você avalia nosso Jornalismo hoje? Quais são nossos principais erros e acertos?

O jornalismo brasileiro segue em alta, apesar da crise econômica que atinge diretamente o mercado da comunicação. Reportagens interessantes e bons profissionais surgem dia após dia, com projetos que geralmente acabam sendo noticia no próprio Comunique-se. O que me incomoda é acompanhar a proliferação de sites e fan pages que não fazem outra coisa a não ser criticar quem justamente faz reportagem. E, novamente, a política geralmente está envolvida. O repórter, baseado em documentos e declarações, publica tal denúncia. É o que basta para canalhas abusarem de análises mequetrefes, geralmente colocando em xeque as competências e intenções do jornalista em questão. O pior? Esses canalhas têm fãs, até com profissionais da mídia endossando suas críticas. É lamentável. É inadmissível. Apesar de tudo, sou grande entusiasta do jornalismo nacional, creio que a qualidade sempre irá se sobrepor.

Quem são os jornalistas que você admira?

AS: Até pelo trabalho que desenvolvo no Comunique-se, tenho o olhar de admirar diferentes jornalistas de áreas e funções distintas. Em qualidade de texto analítico, não há ninguém do mesmo nível que o Augusto Nunes. Na função de executivo e comunicador, sou fã do mestre Marcus Aurélio de Carvalho. Nas reportagens, gosto demais dos trabalhos de Rodrigo Rangel, Vinícius Dônola, Leonencio Nossa e Roberto Cabrini. E, claro, não posso deixar de externar a minha admiração pelo grande mestre Moacir Japiassu, colunista e romancista impecável.

 Que qualidades um estudante de Jornalismo precisa ter para conseguir um estágio?

AS: Caráter e ética acima de tudo. A qualidade do texto e de outras atividades jornalísticas podem ser treinadas e aprimoradas com o tempo, mas o jornalista – mesmo na fase em que se é estudante – deve ter o pensamento de que os valores éticos precisam sempre imperar no dia a dia da profissão.

Deixe um conselho para quem quer vencer na área de jornalismo.

AS: O principal conselho é o próprio profissional avaliar se mantém o brilho nos olhos quando recebe uma pauta especial, na ocasião em que entrevista um personagem interessante e o momento em que publica um furo. Se esse ânimo se perder, não adianta a pessoa insistir. Jornalismo é lugar para quem, apesar das dificuldades enfrentadas pelo mercado de comunicação no país e no mundo, é apaixonado pelo que faz. Além do conselho, tenho uma reclamação. Vejo muito foca querendo opinar sobre tudo e sobre todos, principalmente a respeito de políticos e partidos, antes mesmo de ter domínio sobre o idioma. Há gente que elogia, critica e paga de sociólogo antes mesmo de aprender a escrever corretamente. Isso pega muito mal.

Crédito das fotos: Nathália Carvalho e Divulgação/Prêmio Comunique-se