“O povo tem as respostas para todas as perguntas”

 

Com mais de 60 anos de reportagem, Audálio Dantas fala sobre sua predileção por personagens anônimos, comenta bastidores de suas principais matérias e relembra capítulos históricos do nosso jornalismo

 

Por Patrícia Paixão

Fotos de Michelli Oliveira

OBS: Entrevista publicada originalmente no volume II da série de livros “Mestres da Reportagem”, lançada em abril de 2018. Ela está sendo reproduzida neste blog em homenagem a Audálio, que nos deixou em 30 de maio de 2018. O jornalismo brasileiro perdeu um de seus mais brilhantes repórteres.

Aquele 3 de maio de 2017 era um dia muito esperado. Na verdade, era uma data aguardada desde novembro de 2012, quando eu e meus alunos da extinta Faculdade do Povo (FAPSP) lançamos o livro Mestres da reportagem (In House, 2012), trazendo entrevistas com 30 grandes nomes do jornalismo brasileiro. Naquele momento eu já tinha a intenção de produzir a sequência da obra, convidando-o para integrá-la. Às dez da manhã, depois de ter lecionado a segunda disciplina do dia no curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, liguei para confirmar nossa entrevista. Seria no prédio em que ele reside, na zona oeste de São Paulo. Meus mais de 20 anos de experiência na área não evitaram o nervosismo. Não era a primeira vez que eu iria entrevistá-lo, tampouco nosso primeiro contato. Já havíamos conversado pessoalmente em outras oportunidades e somos amigos de Facebook, trocando comentários na rede, de tempos em tempos. Mas daquela vez a entrevista seria para registrar a sua história. E ele é a própria história do nosso jornalismo. A responsabilidade era enorme. Apenas cinco horas me separavam de uma lenda da reportagem. Não, não é exagero. É o homem sobre o qual eu falo em quase todas as minhas aulas das disciplinas Grandes Reportagens e Jornalismo Literário. Foi ele quem inspirou Eliane Brum e Adriana Carranca, que aparecem entre as repórteres mais premiadas e respeitadas do país. Foi ele quem apresentou Carolina Maria de Jesus para o Brasil e o mundo, amplificando a voz de um talento que estava na favela e que, depois de revelado, muitos preconceituosos se recusaram a aceitar. Foi quem levou Odylo Costa Filho [membro da Academia Brasileira de Letras, jornalista responsável por uma das maiores reformas editoriais ocorridas no Jornal do Brasil, no final dos anos 50] às lágrimas, com a reportagem O Circo do Desespero, de 1963, sobre um famoso concurso de dança dos anos 60, que conquistava a audiência à base do sofrimento de pobres candidatos. Foi ele quem peitou a ditadura militar, quando esteve à frente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, em um dos momentos mais dramáticos do nosso país, na ocasião do assassinato de Vladimir Herzog, em 1975. Sim, meu encontro era com AUDÁLIO DANTAS!

Toda ansiedade e angústia foram dizimadas quando Audálio nos recebeu (eu e minha aluna, Michelli Oliveira, que fez fotografias para esta entrevista) com um largo sorriso no rosto e um abraço, na portaria do seu prédio, refletindo a simplicidade e humildade que só os verdadeiros repórteres possuem. Começou brincando sobre o fato de eu usar dois gravadores, e contou sobre uma entrevista que fez com Lula [quando Luiz Inácio Lula da Silva era presidente], e que tinha sido perdida, por conta de um gravador que ele comprou um dia antes, e não soube usar direito (quem foi meu aluno sabe que sou neurótica com isso; sempre cito casos de colegas que perderam a entrevista por aprenderem a usar o gravador em cima da hora. Veja, leitor, como isso pode ocorrer até mesmo com um mestre da nossa reportagem). Por sorte, todas as entrevistas realizadas com presidentes são gravadas pela equipe de comunicação da Presidência, e ele pôde recuperar a conversa.

Nosso bate-papo foi como uma aula de jornalismo, lecionada por um caloroso e acessível professor. Ao falar sobre suas matérias, ia citando pacientemente diversas referências, e perguntava se eu as conhecia, recomendando que eu pesquisasse a respeito. Eu, a aluna encantada, anotava tudo atentamente e pensava no privilégio que era estar ali, ao lado de alguém de quem eu ouvia falar desde o primeiro ano da faculdade de Jornalismo.

Eu achava que conhecia quase tudo sobre Audálio Dantas, por pesquisar muito sobre ele para as minhas aulas e por ter lido alguns de seus livros. Ledo engano… Descobri que conhecia muito pouco de sua rica trajetória.

Nascido em Tanque d´Arca, pequeno município de Alagoas, Audálio me contou que iniciou seu amor pelas palavras, expresso com maestria em muitas de suas grandes reportagens, com sua professora Dulce Gomes, do Ensino Fundamental. Foi com ela que conheceu grandes nomes da nossa Literatura, como Olavo Bilac e José de Alencar. Já arrebatado pelas Letras, na adolescência apaixonou-se por autores que retratavam, na ficção, uma realidade que era bastante comum à sua: a do sertão nordestino. Graciliano Ramos, que mais tarde descobriu ser seu parente distante, foi um deles. Até hoje é um grande norte em sua vida.

Iniciou no jornalismo como fotógrafo, no jornal Folha da Manhã, mas graças à qualidade e criatividade de uma matéria que produziu sobre uma viagem que fez para Blumenau (SC), acabou sendo convidado para atuar como repórter de texto. Logo começou a fazer diversas reportagens de repercussão. Em uma delas, ao receber uma negativa de Guimarães Rosa para uma entrevista, teve uma sacada genial. Fez o que Gay Talese, renomado jornalista norte-americano, um dos pais do chamado new journalism [movimento surgido na década de 60 nos EUA, marcado pelo uso de recursos da literatura no texto jornalístico], faria anos depois, no famoso perfil Frank Sinatra está resfriado, publicado na revista Esquire: escreveu um texto com base no que observou, ouviu e leu nos autógrafos que Guimarães ofereceu aos presentes. Talese igualmente não conseguiu entrevistar Sinatra, mas construiu um belíssimo texto apenas observando o cantor e colhendo depoimentos de pessoas que o conheciam.

Foi também na Folha da Manhã que publicou pela primeira vez sua reportagem mais emblemática, mas que até hoje lhe rende dor de cabeça: o texto destacando trechos dos diários de Carolina Maria de Jesus, figura incrível que ele descobriu numa visita a uma favela na zona norte de São Paulo. A matéria fez tanto sucesso que tornou Carolina famosa, levando-a a lançar o livro Quarto de despejo – Diário de uma favelada (Francisco Alves, 1960), traduzido para mais de 13 idiomas e vendido em mais de 40 países. Até hoje a reportagem e o livro rendem palestras, polêmicas e debates. “Não há uma semana que não apareça um estudante, um professor ou um crítico para falar sobre isso”, destaca Audálio.

Mais tarde, em O Cruzeiro e na Realidade, revistas mães do gênero grande reportagem no Brasil e berço de ilustres nomes do nosso jornalismo, continuou publicando matérias históricas como Nossos desamados irmãos loucos [sobre o Hospital Psiquiátrico do Juqueri, localizado em Franco da Rocha, São Paulo], de 1963; A nova guerra de Canudos, de 1964 [retratando a nova realidade do vilarejo de Canudos, na Bahia, que estava para ser inundado devido à construção de uma barragem]; e Povo Caranguejo, que virou case em diversas salas de aula de jornalismo do país, pela forma inovadora como foi escrita. Audálio redigiu a matéria de uma maneira muito criativa, sob duas óticas: a dos caçadores de caranguejo do povoado Nossa Senhora do Livramento, na Paraíba, e a da caça, os caranguejos fugindo dos caçadores, no mangue. A academia e os colegas jornalistas passaram a considerar a reportagem próxima de um “conto”, ou mesmo parecida com uma “peça de teatro”. “Alguns achavam que aquilo era uma subversão”, comenta o jornalista.

Testemunhou as reformas que ocorreram nos jornais brasileiros, mudando o estilo do texto jornalístico, de uma linguagem empolada para uma mais objetiva e simples. Foi desse movimento que surgiram repórteres-autores, como ele e José Hamilton Ribeiro, que sabem trabalhar a reportagem com personalidade e engenhosidade, sem a necessidade de firulas e rococós.

Como escritor, publicou diversos livros, dentre eles Repórteres (Senac, 1997), O menino Lula (Ediouro, 2009), A Infância de Graciliano Ramos (Callis, 2011), Tempo de reportagem – Histórias que marcaram época no jornalismo brasileiro (Leya, 2012) e As duas guerras de Vlado Herzog – Da perseguição nazista na Europa à morte sob tortura no Brasil (Civilização Brasileira, 2012), este último vencedor da 55ª edição do Prêmio Jabuti. A obra lhe rendeu um Jabuti na categoria Livro-reportagem e outro na categoria Livro do Ano de Não-Ficção. Ainda por conta do livro Audálio venceu, em 2013, o prêmio Intelectual do Ano (Troféu Juca Pato), da União Brasileira de Escritores, concedido a alguns dos mais importantes romancistas brasileiros como Jorge Amado, Érico Veríssimo e José Lins do Rego.

O jornalista coleciona vários outros prêmios, homenagens e menções honrosas.  Em 1981, recebeu um prêmio na ONU por sua atuação em defesa dos direitos humanos. Em 2014, quando estava à frente da revista Negócios & Comunicação, como diretor-executivo, ganhou o Prêmio Comunique-se na categoria Comunicação – Propaganda e Marketing. Recebeu, em 2017, o Prêmio Indignação – Coragem – Esperança, por uma iniciativa da OBORÉ, da Agência Sindical e do Centro de Mídia Independente Barão de Itararé. A premiação, que hoje recebe seu nome (Prêmio Audálio Dantas), homenageia profissionais que se destacam na imprensa sindical e na comunicação comunitária. Finalmente, em dezembro de 2017, recebeu o Prêmio Averroes – Pioneiro e Compartilhador, criado pela OBORÉ a pedido do Hospital Premier, com o objetivo de valorizar e reconhecer a trajetória de pioneirismo e espírito compartilhador de estudiosos e personalidades atuantes nas mais diversas áreas do conhecimento.

Chegou a ser eleito deputado federal em 1978 pelo MDB [Movimento Democrático Brasileiro, partido que abrigou os opositores do regime militar em oposição à Aliança Renovadora Nacional – ARENA]. Seu mandato foi voltado à luta pela democracia e pela liberdade de imprensa.

Nunca deixou de defender o jornalismo. Foi o primeiro presidente eleito da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), por voto direto, em 1983. Em junho de 2005 foi eleito vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Em junho de 2012, recebeu da Associação Nacional Editores Publicações Técnicas Dirigidas Especializada (Anatec) o título de Jornalista do Ano.

Não bastasse sua intensa atuação como jornalista, escritor e ativista, Audálio foi criador e curador de diversos projetos culturais, como as exposições 100 Anos de Cordel, realizada no Sesc Pompeia, em São Paulo; O Chão de Graciliano, realizada em diversas cidades como São Paulo, Maceió, Recife, Fortaleza, e Araraquara; Na Terra de Macunaíma, ocorrida no Sesc Araraquara, no Sesc Santos e no Sesc Santo André; Salão Nacional do Jornalista Escritor, realizado no Memorial da América Latina, em 2007 e 2013; e a exposição Zumbi – A Guerra do Povo Negro, sobre o líder do Quilombo dos Palmares, realizada em 2016 no Sesc Vila Mariana, em São Paulo.

Nesta entrevista, Audálio Dantas fala sobre sua carreira, revelando bastidores de seus principais trabalhos, e analisa a reportagem no seu momento atual. Ele lamenta o fato de os repórteres irem pouco para a rua, e diz que falta ousadia no jornalismo: “Ousadia não para inventar histórias aí pelo mundo, contando aventuras, mas para investigar, para dizer as coisas que precisam ser ditas”. Na sua opinião, a reportagem está viva, o que falta, na verdade, são espaços para publicá-la.  Ao ser questionado se continua a ser repórter, mesmo aos 87 anos, responde, com firmeza e brilho no olhar: “Sim. Isso sempre!”

 Você costuma citar, com muito carinho, Dulce Gomes, sua professora do primário [falecida no início de 2016, aos 105 anos]. Na ocasião dos 100 anos de vida de Dulce, quando a Prefeitura do município de Tanque d´Arca fez uma homenagem, dando o nome dela à creche da cidade, você escreveu o texto Tributo à Dona Dulce, falando sobre a importância dessa professora em sua vida e na de diversas crianças. De que forma isso te influenciou a ser um bom contador de histórias?

Audálio Dantas: Olha, vou te contar, viu… Essa professora era uma iluminada! Ela dava aula na minha cidadezinha. Só havia duas escolas públicas lá: a feminina e a masculina. A dela era a masculina. As aulas aconteciam na casa dela. Era uma casa grande, daquelas mais antigas, e ela transformou a sala de visitas em sala de aula. E a vida na casa não parou, inclusive um dos filhos dela, o Rogério, que era o menor – hoje é um imenso artista plástico – de vez em quando, visivelmente de provocação, saía dos fundos da casa e atravessava a sala nu [risos]. Ela, doce como seu nome sugere, não se irritava com aquilo. Apenas pedia que ele fosse pra dentro. Era de uma humanidade muito tocante. A característica mais forte da dona Dulce era fazer leitura para os alunos dela, alunos que eram misturados, das quatro séries antigas do Ensino Fundamental. A Dulce era essa coisa maravilhosa, de juntar todos pra ajudar. Ela caprichava na leitura, principalmente com os alunos da 2ª série pra frente. Distribuía livros, aqueles livros antigos, sabe? Marcava texto para os meninos lerem e repetirem na classe no dia seguinte, e parece que ela me descobriu como um cara mais interessado em leitura e caprichou muito comigo. Eu considero que ela foi uma das influências mais positivas na minha vida.

Além dessa aproximação com a Literatura, por intermédio de Dona Dulce, você consegue ver vestígios lá da sua infância e adolescência que já mostravam que você iria para o jornalismo?

AD: Eu não pensava em jornalismo, eu nem sabia o que era jornalismo naquele interiorzão. O que eu percebi é que a leitura, além de sua importância em si e do interesse que ela desperta, faz você começar a descobrir o mundo. Ao mesmo tempo que havia bobagens, como livros de caligrafia, que vinham com aquelas frases já feitas – uma delas era “Como a laranja é uma excelente fruta”-, tinha obras memoráveis. Dona Dulce nos apresentou a Olavo Bilac [poeta brasileiro do período literário parnasiano, membro fundador da Academia Brasileira de Letras], por exemplo. Era muito interessante. Eu acho que isso me levou a aprofundar a leitura já na adolescência, e eu comecei a descobrir mais coisas. É a tal da curiosidade despertada pelo livro. Até que eu esbarrei no Jorge Amado, e depois, com muito mais interesse, no Graciliano Ramos, e fui por aí afora. Acho que isso foi o principal para que depois eu me interessasse pelo jornalismo, porque eu era leitor principalmente do Graciliano. Eu não tinha condições de julgar a linguagem dele, mas ela tocava igual música nos meus ouvidos. Vidas Secas [romance de Graciliano publicado em 1938] é aquela coisa concisa, seca mesmo, é uma leitura que te leva para o mundo, né? E aquele mundo é seu. Eu vim a descobrir depois que Graciliano Ramos é do mesmo tronco familiar que o meu, e aí me apaixonei ainda mais.

Nossa, que coisa!

AD: É! O meu avô Napoleão Ferreira Ferro era da mesma irmandade da Maria Amélia Ferreira Ferro, que era a mãe do Graciliano. Eu não conto muito isso, mas é verdade. Ou seja, o Graciliano era daquele mesmo mundo que o meu, e isso me influenciou bastante.

Eram escritores que falavam da nossa realidade, né?

AD: Pois é, e isso é uma coisa muito importante. A cidade de Quebrangulo [em Alagoas, onde Graciliano Ramos nasceu] fica a uns 30 e poucos quilômetros da minha cidade, e tem ligação com Palmeira dos Índios [também município de Alagoas] que é onde está a maior concentração da minha família materna, os Ferreira Ferro. Os Dantas, que são do meu pai, já estão em outra cidade.

Falando sobre o início da sua carreira, é verdade que você conquistou seu primeiro emprego na Folha da Manhã [jornal fundado em 1925, que deu origem à Folha de S.Paulo], por intermédio da fotografia?

AD: Sim. Naquela fase o jornalismo era completamente diferente em vários sentidos. Não havia exigência de formação acadêmica, que eu não tinha e continuo não tendo. Eu lia com grande interesse Rachel de Queiroz [uma das principais romancistas de nosso país, primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras], identificado pelo Quinze [primeiro e mais popular romance de Rachel, lançado em 1930], que trata do Nordeste, da seca. Eu já estava aqui há algum tempo, mas não me desligava emocionalmente das minhas raízes, e a Rachel de Queiroz escrevia umas crônicas, trabalhava na revista O Cruzeiro [importante publicação semanal ilustrada brasileira, editada pelo grupo de comunicação Diários Associados, do magnata Assis Chateaubriand, de 1928 a 1975], ela fazia a última página da revista. Eu lia os textos dela e pensava: “Um dia eu vou fazer isso”. Aí comecei a me interessar por jornalismo, a ler jornal, etc. Meu primeiro emprego foi num laboratório fotográfico. Um sujeito italiano chamado Luigi Manprim, que tinha sido partisan [membro de tropa irregular formada para se opor à ocupação estrangeira de uma determinada área. Os partisans tiveram ampla atividade durante a II Guerra Mundial] e tinha uma história fabulosa, se ligou muito a mim. Ele era mais velho e meio que me adotou. Eu aprendi muito com ele. Aí um dia ele foi convidado para ir para a Folha [Folha da Manhã] para o laboratório fotográfico. Ele foi lá e uma semana depois disse: “Hey, vem cá! Acho que você deve começar aqui.” E eu pensei: “Putz, é aqui!” Do laboratório fotográfico, em pouco tempo eu estava na redação fazendo fotografia.

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E foi aí que você fez uma matéria sobre Blumenau [SC], e acabou migrando para a parte de texto, né?

AD: Isso. Antes eu fiz alguns textos-legenda, algumas coisinhas assim. Eu estava ligado aos padres Salesianos, eu morava lá em Santana [zona norte da cidade de São Paulo] e tinha o colégio lá desses padres. Um dia houve uma visita à Santa Catarina promovida por um colégio salesiano famoso. Os colégios salesianos tiveram muita importância. Aí eu fui e me encantei. Parecia que eu estava viajando pela Europa, as imagens que eu tinha da Europa eram muito próximas do que eu vi lá, principalmente em Blumenau. Aí, quando eu voltei, além de fotos, eu escrevi uma matéria, entreguei ao secretário da redação e ele disse: “Pô, que legal!” Ele me aprovou de cara e falou: “Você vem para a redação”. E foi isso. Fui para o texto e, por algum tempo, fiz fotografia e texto. Logo comecei a virar sindicalista, sem saber o que era ser sindicalista [risos]. É que eu não achava certo aquele negócio que eu via, deviam ser dois trabalhando e não um só, então falei: “Não vou mais fazer fotografia. Vou fazer só texto”.

“Eu fiquei meio frustrado [quando Guimarães Rosa não quis conceder entrevista], mas não me dei por vencido. Essa é uma questão fundamental para o repórter. Você tem que obter a resposta de qualquer forma, porque a função do repórter é obter resposta.”

Já com uma experiência considerável na Folha da Manhã, em 1956 você transformou, de forma bastante criativa e astuta, uma tentativa  de entrevista com o Guimarães Rosa em um texto interessante. Guimarães estava lançando o famoso Grande Sertão: Veredas (José Olympio, 1956) e você foi ao lançamento fazer a cobertura para entrevistá-lo. Ele te negou a entrevista. Conte um pouco sobre os bastidores deste texto.

AD: É verdade. Antes do Grande Sertão, eu já tinha lido Sagarana [Editora Universal,1946] e tinha ficado bastante impressionado. Então, eu fui lá como repórter e como tiete [risos]. E ele me deu um banho de água fria ao dizer: “Olha, eu não dou entrevistas.” Acho que ele olhou pra mim e pensou: “Pô, vou falar com esse moleque aí…”. Eu fiquei meio frustrado, mas não me dei por vencido. Essa é uma questão fundamental para o repórter. Você tem que obter a resposta de qualquer forma, porque a função do repórter é obter resposta, não fazer jornalismo de aspas, mas obter resposta para as coisas. Então, eu fiquei meio de lado, quase escondido, e ouvindo o que o Guimarães falava para as pessoas, o que diziam pra ele. Um amigo da Folha, o Acácio Ramos, tem uma frase, que eu uso como epígrafe no meu livro [Tempo de Reportagem – Histórias que marcaram época no jornalismo brasileiro], que diz “Repórteres são seres que perguntam”. No caso dessa matéria, eu perguntei, não tive resposta, mas procurei um jeito de ter a resposta. Escrevi com base no que eu vi e no que o Guimarães dizia nos autógrafos para as pessoas que foram ao evento. Isso aí serve como exemplo do que é a insistência do repórter.

“Me dava muita raiva ler textos rebuscados, cheios de palavreado enfeitado e tal. Eu nunca fui do rebuscamento. Acho que herdei isso do Graciliano Ramos.”

Que é uma coisa que o Gay Talese fez quando não conseguiu entrevistar o Frank Sinatra, para a revista Esquire. O Joel Silveira, antes de Talese, em 1945, fez isso também aqui no Brasil, quando não conseguiu convite para cobrir o casamento de Filly, filha do industrial Francisco Matarazzo. Ele conversou com pessoas que foram ao casamento e fez um grande texto [A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista, reportagem publicada em O Jornal, impresso pertencente aos Diários Associados, de Assis Chateaubriand], não é mesmo?

AD: Sim. Mas o curioso nessa história toda é que eu não tinha lido Joel Silveira, eu não o conhecia naquela época. Então, não tinha como me inspirar nele. Isso tem me servido muito para discutir a questão do jornalismo literário, que é uma expressão que eu tenho um pouco de dúvida se é válida ou não, porque jornalismo é jornalismo e literatura é literatura, mas os dois se encontram. Jornalismo é um gênero literário, não há essa separação que muita gente quer fazer. O que eu fiz nessa matéria foi um texto com as minhas impressões. É o que se costuma fazer nesse estilo de jornalismo. Mas eu não conhecia Joel, vim conhecer depois. Assim como o Gay Talese não tinha lido Joel, e o Joel tinha feito isso em 1945, antes dele. Os dois tinham estilos diferentes, mas os dois eram repórteres. Minha conclusão é essa. E aqui eu aproveito para dizer que naquele momento começou uma mudança muito importante no jornalismo brasileiro, que era a renovação da linguagem. Me dava muita raiva ler textos rebuscados, cheios de palavreado enfeitado e tal. Me incomodava muito ler textos com termos como “precioso líquido”, “necrópole”, esse tipo de coisa.

O jornalista Pompeu de Souza [falecido em 1991], que foi o grande responsável pela reforma da linguagem [para um texto mais objetivo] no Diário Carioca [periódico brasileiro, fundado no Rio de Janeiro em 17 de julho de 1928, por José Eduardo Macedo Soares, e publicado até dezembro de 1965], falava mesmo que o jornalismo antes da década de 50 era muito rebuscado.

AD: Exatamente. E aí começou chegar a turma da academia, que fez faculdade de Jornalismo. A primeira turma, que foi a da Faculdade Cásper Líbero, é de 1947, e nesse pessoal estava o José Hamilton Ribeiro, gente desse molde. E coincidiu que eles eram da mesma idade. Aquele jeito rebuscado de escrever foi sendo deixado de lado. Eu nunca fui do rebuscamento, acho que isso herdei do Graciliano Ramos. Comecei a fazer textos com a minha marca. Sem inventar, sem enfeitar, eu criava situações, como é o caso da reportagem Povo Caranguejo [publicada na histórica revista Realidade, da editora Abril, em 1970. Realidade é até hoje considerada uma das principais publicações de grande reportagem que o Brasil já teve]. Você deve conhecer a matéria.

“Quando me perguntam se a reportagem está morrendo, digo que não, o que faltam são as condições para se fazer reportagem.”

Sim, é um case trabalhado em muitas salas de aula de Jornalismo. Sempre destaco aos meus alunos. Em todas essas matérias você ia a campo, vivenciava o fato. Em Povo Caranguejo, você entrou na lama para sentir na pele o trabalho dos caçadores de caranguejo. É uma coisa que sempre digo aos meus pupilos.  Se eles não forem a campo, não vão ter elementos ricos, oriundos da observação, para colocar no texto. E lamentavelmente hoje a gente está vivendo um momento em que vemos que o repórter tem menos chance de ir pra rua. Muitas vezes tem que fazer matéria por telefone…

AD: Praticamente não sai da redação, essa é a grande diferença. Então, quando me perguntam se a reportagem está morrendo, eu digo que não, o que faltam são as condições para se fazer reportagem. Na revista Realidade, para fazer uma matéria sobre o Rio São Francisco – e geralmente eu propunha as minhas pautas-, eu fui da nascente do rio até chegar ao Oceano Atlântico. Isso levou 45 dias de trabalho. E custou muito dinheiro, porque foi barco alugado. O mundo de histórias que isso rendia…

Quando se tem uma vivência tão profunda como você tinha nas matérias que fazia para as revistas Realidade e O Cruzeiro, de ficar dias e dias em cima do mesmo tema, como é que se organiza todo esse volume de informação na hora de escrever?

AD: [Risos] Ah, isso aí é muito engraçado, porque como eu tenho uma obsessão pelo texto, eu nunca faço uma reportagem para depois reescrever, eu já deixo ela pronta. Mas isso me faz demorar mais, me leva a gastar mais tempo elaborando o texto. Uma vez me perguntaram: “Como é ser repórter? Ter essa vida maravilhosa de ir para diferentes lugares, descobrir as coisas, pessoas, etc. e tal”. E eu disse: “Olha, é muito interessante, o chato mesmo é na volta ter que escrever, sofrer em cima da máquina de escrever”. [risos] O bom é que eu tinha mais tempo para escrever, não era nenhum favor, é que eles me davam tempo. Em Povo Caranguejo, eu passei quase uma semana procurando um ângulo para abordar o assunto, porque a saída comum seria dizer: “Pobres destes pescadores de caranguejo, que sofrem tanto, blá, blá, blá…”. E aí não vale, porque já tinham feito isso. Então, eu resolvi escrever daquele jeito diferente. E essa ideia veio, quando eu fui para o mangue com os caçadores de caranguejo e vi como é que eles faziam. Concluí que era uma luta, era uma briga entre homem e bicho, e eu escolhi aquela forma inovadora de escrever, com a ótica dos dois lados da caçada. Alguns companheiros achavam que era uma “subversão”. Eu dizia pra mim mesmo: “Mas caranguejo pensa?”. E concluía: “Se caranguejo não pensa, caranguejo sente, não é isso?” Era evidente que ele fugia para o buraco com medo, era evidente que ele ficava lá escondido com medo, e era evidente também que ele estava perdendo o ar de respirar, e ele lutava para sobreviver. Foi isso. A conclusão foi essa.

A reportagem parece um conto, né?

AD: Parece uma peça de teatro também.

No livro Tempo de Reportagem – Histórias que marcaram época no jornalismo brasileiro, você conta que a matéria que te deu mais repercussão, e também mais trabalho, foi a que revelou ao Brasil e ao mundo Carolina Maria de Jesus, moradora de uma favela na zona norte de São Paulo [reportagem O Drama da Favela escrito por uma Favelada, publicada na Folha da Manhã, em 1958]. Você descobriu que Carolina escrevia seu dia a dia naquela comunidade em alguns diários e publicou trechos daqueles relatos, sensibilizando os leitores. A matéria teve tanta repercussão que acabou proporcionando à Carolina o lançamento do livro Quarto de Despejo, traduzido para 13 idiomas. Ela chegou a conceder entrevistas para renomados veículos da imprensa estrangeira. Mesmo sendo tão importante e elogiado, o texto recebeu críticas negativas. Algumas pessoas diziam que foi você que escreveu aqueles relatos, e não Carolina. Até hoje o assunto suscita polêmica. No dia 16 de abril de 2017 houve um debate na Academia de Letras carioca, para discutir se a obra de Carolina pode ser considerada Literatura. Considera que essas críticas que foram e são feitas até hoje aos escritos de Carolina Maria de Jesus são demonstrações de preconceito?

AD: Muito, mas muito mesmo! Preconceito de todo tipo, de raça, de classe e, principalmente, preconceito contra o pobre que não devia se meter a escrever como a Carolina de Jesus fez, né? Muita gente pensa assim… Mas o que mais me espantou foi um crítico da importância do Wilson Martins, considerado um dos maiores do país, morrer sem aceitar que aquele texto era da Carolina. Primeiro ele insinuou, mas depois ele afirmou com todas as letras: “Esse texto só pode ter sido escrito pelo Audálio Dantas”. Isso me ofendeu profundamente, porque a minha preocupação maior foi não acrescentar nada ao que ela tinha feito. Eu fiz uma compilação, apenas colhendo os trechos mais significativos, mas até hoje na academia tem gente que me acusa de ter alterado. Foi tudo criação espontânea da Carolina, a busca de uma expressão que muitas vezes era de grande lirismo, de grande capacidade, e que era um texto literário sim. Por que não?

Sim, há trechos muito bonitos.

AD: Então! Pode ser que o conjunto daquele diário não fosse literário, mas há trechos ali que são muito claramente literários. Desde então essa matéria é um dos maiores sofrimentos… Não há uma semana que não apareça um estudante, um professor ou um crítico para falar sobre isso… Aí eu comecei a descobrir que eu era um cara importante por ter revelado a Carolina Maria de Jesus, e isso, ao mesmo tempo, me trouxe enormes aborrecimentos.

O poeta Manuel Bandeira chegou a te defender, dizendo que seria impossível alguém inventar relatos como aqueles.

AD: Sim. Ele se manifestou a respeito e isso foi uma honra pra mim. Ele tinha uma coluna no jornal O Globo e defendeu a seguinte tese: que era impossível considerar que esse texto poderia ser meu. O Wilson Martins dizia que a Carolina não poderia usar aquele palavreado, mas Manuel Bandeira destacou que, assim como havia trechos líricos, havia outros trechos com expressões típicas de pessoas de meia instrução primária. Ele disse: “Se alguém for capaz de imitar aquela linguagem, é um gênio”. O que um repórter acomodado faria numa situação daquela, de visita a uma favela? Contaria uma historinha sobre a comunidade e diria: “Tem até uma favelada lá que escreve em uns cadernos…”. Não foi o que eu fiz! Eu transformei o texto dela na minha reportagem.

E essa que é a beleza, porque você deu espaço para a voz dela aparecer, só fez uma introdução e deu voz para ela.

AD: Sim.

E como era o seu relacionamento com ela?

AD: Foi o mais complicado que se possa imaginar, porque a Carolina era uma pessoa que buscava a glória de maneira obsessiva, ela tentava publicar as poesias e o mesmo diário desde os anos 40, foi a várias redações e ninguém quis ouvi-la, aí, quando eu fiz isso, ela achou que eu era um anjo que apareceu na vida dela, mas depois, na relação que se colocou – porque a Livraria Francisco Alves, que editou o livro, era de gente muito séria e pagava rigorosamente -, ela começou a voar… Eu e a própria editora Francisco Alves insistimos de maneira quase invasiva na vida dela para que ela comprasse uma casa com o dinheiro que estava ganhando. Ela comprou uma casa boa, num bairro de classe média e tal, e aí a vida dela se transformou em outro inferno. Ela me acusava, porque ela era bipolar. Ao mesmo tempo que eu era um anjo, eu era o diabo.

Mas ela falava que ficou pior com o dinheiro?

AD: Ela escreveu isso, está no segundo livro dela, chamado Casa de Alvenaria – Diário de uma ex-favelada [Editora Francisco Alves, 1961]. Quando o dinheiro começou a acabar – porque tinha uma fila de gente propondo negócios, namorados, essas coisas todas-, eu voltei a aconselhá-la, e ela começou a dizer: “Você não manda na minha vida!”. Dá para entender o que foi? Mas falando da Carolina, eu gosto de lembrar que tudo que se disse dela e se concebeu dela atingiu uma coisa chamada “classe média”, não se admite a intromissão de uma pessoa da categoria dela nessa classe. Primeiro falavam como se ela fosse um bicho estranho: “Ah, coitada, pobrezinha…”. Depois, quando ela começou a ter muita projeção, as pessoas diziam: “Porra… O que essa mulher quer?”. Então houve esse tipo de preconceito. Principalmente o consumo dos fenômenos. As pessoas vivem em busca de fenômenos, esse é um dos segredos da televisão. A Carolina foi isso, um fenômeno. A classe alta a convidava para banquetes. Teve um jantar que foi na casa da Filomena Suplicy, mãe do senador Suplicy, e ela foi. Ela veio falar comigo e eu disse que eu não aprovava aquilo.

Ela te consultava, então?

AD: Me consultava. Outra vez a Time [revista norte-americana, fundada em 1923, uma das mais famosas publicações semanais do mundo] enviou um repórter pra cá, pra falar com ela. Veio um repórter enviado especial, e prevaleceu aquela visão americana do sucesso individual. Era um cara muito simpático chamado David St Clair. Ela se apaixonou por ele. A Carolina tinha dessas coisas… Ele a levou para o Rio de Janeiro de avião, hospedou-a no Copacabana Palace, levou-a aos melhores restaurantes do Rio de Janeiro, quer dizer, ele fez a reportagem da cinderela negra moderna, uma porcaria, mas ela se deslumbrava com aquilo, ela achava ótimo, apesar das ironias que ela usava. O restaurante foi o mais famoso do Rio, um jantar fantástico. Tudo isso ela conta em Casa de Alvenaria. Na sobremesa, perguntaram o que ela queria e ela ficou em dúvida e escolheu a sugestão: crepe suzette. Aquele espetáculo, né? Ela olhou tudo aquilo e disse: “Comi aquela confusão toda e não gostei” [risos]. Ela tinha um espírito crítico fantástico, ao mesmo tempo que gostava de tudo aquilo.

Por essa frase dela, a gente vê por que tem aqueles trechos dos diários tão líricos…

AD: Sim. Ela era uma crítica, digamos, intuitiva.

E ela acabou falecendo. Não estava muito bem financeiramente, né?

AD: Então… Muita gente diz que ela morreu na miséria, mas não é verdade. Ela vendeu aquela casa por causa do assédio, os vizinhos começaram a ficar putos com a bagunça dela, dos meninos dela, aquela coisa. E ela queria voltar para o campo, comprou um sítio em Parelheiros [distrito localizado na zona sul de São Paulo]. Quem compra um sítio, mesmo em Parelheiros, mostra que está crescendo. Então não é verdade que morreu na miséria. Morreu sem muito dinheiro, porque montou um boteco lá, vendeu fiado, enfim, já não tinha muito para receber. Então morreu sem a glória que tinha obtido, e morreu também com menos dinheiro do que tinha ganho.

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Com essa história da Carolina Maria de Jesus, a gente percebe outra marca sua, que até a Eliane Brum destacou em uma entrevista que eu fiz com ela para o livro Mestres da Reportagem (In House, 2012). Ela disse que você é um dos repórteres que a inspiraram, por causa do foco no anônimo, por ampliar a voz de pessoas comuns. Por que essa escolha?

AD: Não foi uma coisa elaborada, e sim uma consequência da minha identificação com o povo, porque o nosso povo, principalmente, é a grande vítima, e sou um sujeito profundamente indignado com injustiça. Essa é uma característica minha, por isso a maioria do meu trabalho é ligada a questões sociais, como a reportagem que eu fiz sobre o Juqueri [Nossos desamados irmãos loucos sobre o Hospital Psiquiátrico do Juqueri, publicada na revista O Cruzeiro, em 1963], a matéria O Circo do Desespero [publicada também em 1963, em O Cruzeiro; o texto fala sobre um famoso concurso de dança carnavalesca, promovido por emissoras de rádio e TV de todo o país naquela época], essa coisa toda. É uma opção que veio muito da minha personalidade. Em O Circo do Desespero, as pessoas não têm nomes, elas são identificadas como números, porque o crime ali é coletivo.

Eu chorei quando li pela primeira vez essa reportagem… É impressionante como você conseguiu mostrar que aquele famoso concurso de dança carnavalesca era, na verdade, uma grande tragédia. Muitos candidatos dançavam durante dias, literalmente quase até morrerem, sob os olhos de rigorosos fiscais, para conseguirem com o dinheiro do concurso realizar necessidades, como pagar a cirurgia de um filho. E todo mundo assistia, vibrando com a tragédia alheia. É muito marcante…

AD: Quem também chorou ao ler essa matéria foi Odylo Costa Filho [jornalista e poeta], responsável por uma das maiores reformas editoriais ocorridas no Jornal do Brasil, no final dos anos 50. Ele me enviou um telex dizendo: “Acabo de ler o seu texto, chorando em cima dele”. Foi o maior elogio que recebi na vida. No livro [a reportagem depois foi transformada em livro] tem uma epígrafe que diz assim: “O povo é quem tem as respostas para todas as perguntas”. E essa é uma grande verdade. As respostas podem demorar, mas um dia o povo dá a resposta. A história mostra isso, como na Revolução Francesa [movimento revolucionário ocorrido em 1789 na França, que derrubou o poder da monarquia absolutista, impondo princípios como liberdade, igualdade e fraternidade a todos cidadãos; inspirou mobilizações em todo o mundo]. Um dia o povo responde e eu espero que deem logo uma resposta aqui, antes que acabem com o país. Então, isso sempre me levou muito para esse lado do povo. Pode parecer demagógico, mas eu realmente acho que o povo tem a resposta para todas as perguntas. Eu aprendi isso com um cara que foi jagunço em Canudos, ele era menino de 10, 11 anos e já pegava em armas. Eu o encontrei em Canudos quando aquele vilarejo estava para ser inundado devido à construção de uma barragem [reportagem A Nova Guerra de Canudos, publicada em 5 de dezembro de 1954, em O Cruzeiro]. Ele me disse uma frase que eu acho que devia ser uma lição para todo jornalista. Eu perguntei a ele sobre o conflito de Canudos: “Mas tudo isso você viu e se lembra de tudo?”. E ele me respondeu mais ou menos assim: “Lembro e não minto. Mentir eu não minto, porque senão eu escorrego e caio”. Já pensou na profundidade dessa frase? E isso é a resposta de um anônimo que eu encontrei lá na caatinga.

Envolve ética, um monte de coisas, né?

AD: Exatamente! A obrigação do jornalista é ver, ouvir e contar, ele não pode mentir.

A imprensa na época cobria aquele concurso de dança carnavalesca com um tom de exaltação, como se fosse uma coisa boa. Só você conseguiu ver esse outro lado…

AD: Sim, era atração do tipo Programa do Ratinho, mas, na verdade, era uma baita tragédia! E tem mais, aquela reportagem, por incrível que pareça, fez acabar aquele programa. Acho que é um dos feitos do meu trabalho. Acabou aquilo, acho que os próprios caras se envergonharam.

“Não aceitamos a tese do suicídio desde o início [sobre a morte de Vladimir Herzog].”

Agora vamos para a parte da sua atuação como sindicalista. Você foi presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo em um momento extremamente tenso, de ditadura militar no Brasil, quando o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado pelo regime em 1975 [Herzog era diretor do departamento de jornalismo da TV Cultura, quando foi morto nas instalações do DOI-CODI – Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna, órgão de repressão do Exército brasileiro]. Sua postura, pelo que a gente estuda, lê e ouve de colegas que conviveram contigo, foi muito corajosa, porque naquele momento você não aceitou a tese de “suicídio” divulgada pelos militares. E bater de frente contra o regime era quase como assinar uma sentença de morte.

AD: Não aceitamos mesmo, e quando falo “aceitamos”, falo do coletivo do sindicato, não só de mim. Não aceitamos a tese do suicídio desde o início

Como era sua atuação sindical?

AD: Lutei muito. Eu participava das lutas sindicais meio de fora, mas de vez em quando, com determinadas questões, eu me engajava, como quando veio a proposta da Lei de Imprensa ainda no governo do presidente Castelo Branco [a Lei de Imprensa foi sancionada em 9 de fevereiro de 1967, e ficou em vigor até 2009, quando foi derrubada pelo Supremo Tribunal Federal – STF, por ser considerada incompatível com a Constituição Federal de 1988]. Eu fui ao sindicato, com um grupo que eu participava, e pedimos uma manifestação. O sindicato disse que não se envolvia em política. Aí descobrimos uma brecha – toda legislação tem uma brecha. Descobrimos que o estatuto do sindicato permitia – acho que com 18 associados –  convocar uma assembleia, e fizemos isso. A convocação da assembleia foi no sentido de montar uma comissão de liberdade de imprensa, e eu estava no meio. Recebemos apoio até do velho Mesquita [Júlio de Mesquita Neto], do Estadão [jornal O Estado de S.Paulo]. Esse movimento cresceu muito e fizemos um ato público no Cine Paramount, o maior da cidade. Mais de duas mil pessoas participaram. Aí os jornais escreveram editorial dizendo que aquilo tinha virado um movimento estudantil. E a Lei de Imprensa terminou aprovada. Quer dizer, eu já participava lá do sindicato e da luta democrática. Aí quando começou o movimento que levou à eleição no sindicato, contra dez anos de adesão da entidade à ditadura, as pessoas se lembraram de mim. O movimento era nascido de baixo pra cima, dentro das redações, era chamado “Movimento Fortalecimento do Sindicato”. Alguém disse: “Olha, precisamos de um nome que, além de ter posições democráticas, seja irretocável, um nome com aprovação da maioria”. Eu já era repórter famoso, aquela coisa, e eu disse: “Não, não vou, porque eu quero fazer reportagem”. Eu tinha consciência de que, se eu fosse para o sindicato, eu ia acabar parando na política. E foi o que aconteceu [Audálio foi deputado federal pelo MDB em 1978]. A pressão era muito grande e acabei aceitando. Já no segundo mês de gestão recebi recado dos militares e nem preciso dizer as razões, porque eram muitas. O sindicato era considerado um centro de subversão. O General Comandante Ednardo D’Ávila Melo disse pra mim: “Vocês estão fazendo subversão, não estão fazendo sindicalismo”. Eu disse: “É sindicalismo sim. A minha categoria tem direito de pensar em ser anti-censura, por exemplo”. Três meses depois começou uma onda de perseguições políticas, e essa perseguição, no meu entender, foi a mais grave que apareceu. Diziam que os comunistas estavam tomando conta das redações. Ridículo! Diziam que a imprensa estava sendo objeto de combate à democracia. Pensar na Folha e no Estadão como sendo influenciados pelos comunistas é muito, né? Eu vi que a coisa era pesada, houve muitas prisões de advogados, engenheiros, arquitetos, e eu disse que ia chegar nos jornalistas. E chegou. Chegou no começo de setembro [de1975], quando o Vlado assumiu a diretoria de jornalismo da TV Cultura. Começaram a dizer: “Estão vendo? A TV do Estado de São Paulo botou um comunista lá”. Até que prenderam os primeiros jornalistas, no início de outubro. Quando se fala do Vlado, a maioria esquece de uma coisa importante: a cada prisão de jornalista o sindicato reagia denunciando. Não foi só com o Vlado. Porque, na verdade, não eram prisões, eram sequestros. Não havia ordem judicial, nada, eles prendiam simplesmente. Foi no começo de outubro que começaram a prender. No dia 5 de outubro o jornalista Sergio Gomes, o Serjão, foi preso. Ele foi barbaramente torturado e essas notícias de algum jeito chegaram até nós, porque realmente havia muitos comunistas presos e tinha uma rede de solidariedade. Até que chegou a vez do Vlado. Quando foi com ele, a gente já tinha meio que perdido o medo, porque o medo já estava presente. Eu comecei a perceber que ter medo é uma coisa muito perigosa. Medo é uma coisa que todo animal tem no sentido de preservação.

Como o caranguejo na matéria que você escreveu.

AD: Sim, o medo paralisa. Eu analisei meu próprio medo e disse: “Se eu não vencer isso, ele me vence”. Aí fomos em frente. Quando eu soube da morte do Vlado, não tive nenhuma dúvida. Saiu um comunicado do comando do 2º Exército falando do suicídio, e nós do sindicato fizemos outro dizendo que não aceitávamos aquela tese e fomos adiante. Convidamos as pessoas para o sepultamento dois dias depois no Cemitério Israelita, e foi a primeira vez que houve massa – eram 800 mil pessoas – assistindo ao sepultamento de uma vítima da ditadura. As outras mortes todas ocorriam de forma escondida, ninguém sabia, porque quem fazia menção era ameaçado. Quando saímos do cemitério, alguém gritou: “Vamos para o sindicato!”. E isso foi fundamental. Marcamos uma reunião, antes de sair do cemitério, para as 19 horas no sindicato. Não era assembleia, porque tinha um sentido, e não havia protocolo. Assembleia tinha que ser convocada com um certo tempo de antecedência, aprovada, aquela coisa toda. Aí quando foi mais ou menos 17 horas recebi um telefonema dizendo: “O senhor exacerbou. O senhor está fazendo subversão de verdade, porque o senhor está incitando o povo contra a autoridade. O comandante quer o senhor aqui tal horas”. Eu vi que não dava tempo para eu voltar para a reunião, precisei deixar alguns companheiros informados para irem avisando quem chegasse, porque quem ia para essa reunião não era mais só jornalistas, eram jornalistas e gente comum. Já tinha começado uma reação.

Foi um impacto bem além da área jornalística, não é mesmo?

AD: Isso. E muito em função do comunicado da véspera. Começou a chegar gente de toda parte em apoio ao sindicato. Foi muito bom. Aí fomos lá e nessa reunião foram exibidas as fotos da autópsia do Vlado. Aquela foto dele pendurado nos deu mais força pra dizer que não tinha sido suicídio. E já nessa reunião – chegamos quase 21 horas, por causa do trânsito – foi decidida a realização de uma missa. Nessa mesma noite, um sujeito que escrevia uma coluna religiosa no Estadão [Hélio Damante] lembrou: “Olha, não achamos que seja conveniente ser um culto católico, porque o Vlado era judeu”. E eu disse: “Porra, é verdade”. Então surgiu a ideia do culto ecumênico. Levamos a ideia ao dom Paulo Evaristo Arns e ele aceitou na hora. Esse [dom Paulo Evaristo Arns] foi um herói nacional! Ele tratou de organizar os convites para os outros representantes, o rabino Henry Sobel e o reverendo Jaime Wright. E a semana toda foi de alta tensão, de ameaças e telefonemas anônimos dizendo: “Nós vamos te pegar”. Mas, ao mesmo tempo, foi crescendo o movimento no país inteiro, a consciência nacional foi despertada. O culto ecumênico foi realizado na Praça da Sé, com cerca de 8 mil pessoas [em 31 de outubro de 1975], e foi concluído com a presença do dom Helder Câmara. Era proibido citar o nome dele, você sabe disso? [dom Helder foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, que teve importante papel de enfrentamento à ditadura militar. Com a implantação do Ato Institucional Nº 5, em 1968, passou a ser considerado pelos militares como um “morto-vivo”. A imprensa não podia falar sobre ele, nem publicar nada que mencionasse seu nome]. Ele compareceu, não disse uma palavra e, no final, quando o culto terminou, foi recomendação minha e do Dom Paulo de não haver nenhuma manifestação, porque isso significaria a possibilidade de um banho de sangue. Dom Helder viu que tinha terminado tudo em paz e perguntei a ele: “Por que o senhor não disse nenhuma palavra? Eu nunca vou esquecer do que ele me disse: “Meu filho, há momentos em que o silêncio fala mais alto do que qualquer discurso. A ditadura militar está acabando a partir de hoje”. E eu acreditei. Na verdade, ela acabou muito tempo depois, mas não demoraram para acontecer as primeiras greves operárias, a campanha da Diretas Já [de 1984, pedindo eleições presidenciais diretas], a campanha da anistia, enfim. Tudo isso foi consequência.

E como era a sua relação com o Vladimir? Vocês eram amigos?

AD: Não. Tínhamos alguma relação, mas não era muito próxima. Era uma relação de colegas. Ele era um intelectual, não era só um diretor de jornalismo. Ele teve um programa de entrevistas na TV Cultura e me convidou algumas vezes. Tenho até fotos dele me entrevistando, mas não éramos amigos. Quem era bem próximo dele era o Fernando Pacheco Jordão [jornalista falecido em 14 de setembro de 2017; foi chefe de redação da TV Globo São Paulo]. O Fernando tinha trabalhado com ele na BBC de Londres, então havia uma amizade, os filhos nasceram lá, cresceram unidos. O Fernando foi uma das peças mais importantes naquele episódio.

E naquele momento já surgiu a ideia de fazer o livro As duas guerras de Vlado Herzog: da perseguição nazista na Europa à morte sob tortura no Brasil ou foi bem depois?

AD: No dia que terminou o culto, eu desci as escadarias da Catedral da Sé, olhei para a praça já quase vazia e pensei: “Eu tenho que escrever essa história”. Mas como essa história mexeu muito com a minha alma, mas mexeu muito mesmo, eu dizia que não ia ter condição e isenção para escrever. Não que precisasse da famosa neutralidade, mas a isenção para fazer bem, sabe? Pra contar bem aquela história. Aí guardei isso comigo. Até que foram escritos alguns livros sobre o assunto, inclusive o do Fernando Pacheco Jordão [Dossiê Herzog – Prisão, Tortura e Morte no Brasil, de 1979, editora Global], que é o mais importante. Mas, mesmo com esses livros, eu achava que o papel do sindicato não estava devidamente contado, e eu tinha a obrigação de fazer isso. Aí resolvi em 2005, 40 anos depois, escrever o livro. Comecei a consultar meu computador interno, lembrar das coisas. Isso foi o principal que determinou. Pesquisei muito e fiz 40 e tantas entrevistas, principalmente com pessoas que foram torturadas, inclusive com os jornalistas torturados. Fui descobrindo coisas que nem eu sabia. E não ficou aquela coisa chata, compacta. Ficou como a gente faz numa reportagem. É uma reportagem! Eu cheguei ao Arquivo Nacional no momento em que o SNI [Serviço Nacional de Informações, criado em 13 de junho de 1964 pelos militares, com o objetivo de supervisionar e coordenar as atividades de informações e contrainformações no Brasil e exterior.] tinha liberado os arquivos. Liberado entre aspas, porque muita coisa eles não liberavam. Fui lá logo no começo, em 2011. Eu já tinha concluído as pesquisas e pedi duas coisas: meu dossiê e o do Vlado. O maior espanto que eu tive foi ver que existia ali 400 e tantas páginas de citação de aspas desse dossiê sobre mim. Diziam que eu tinha participado de oito organizações subversivas. Tudo isso me deixou puto, mas eu fiquei mais puto quando vi que eles mentiam. Nunca pertenci a nenhuma sigla até hoje, e lá eles me apontavam como pertencente a várias organizações. Eu até fui para o MDB, mas foi depois do sindicato. Aí, quando chegou no dossiê do Vlado, eu vi que a ditadura continuava de pé em 2011. A coordenadora do SNI disse que eu precisava levar a autorização de Clarice Herzog [viúva de Vladimir], e eu disse que tinha essa autorização. Então ela respodeu que eu tinha que levar uma cópia autenticada do atestado de óbito e eu falei: “Não, isso a senhora não vai ter de mim, porque não existe um atestado de óbito verdadeiro. O atestado do Vlado foi falsificado”. Aí eu não aguentei e emendei: “Porra! Acabou a ditadura e vocês estão me exigindo um atestado de óbito falso?”. Eu conto isso no livro.

“Dois jovens repórteres mudaram o mundo no caso Watergate. Fizeram o presidente da maior potência guerreira do planeta renunciar. Eu acho que a nossa profissão exige ousadia.”

Que conselho você costuma dar para mostrar que o jornalismo pode sim promover mudanças, transformar coisas erradas, especialmente em uma sociedade como a nossa, com tanta injustiça?

AD: Eu resumo me referindo ao Caso Watergate [escândalo político ocorrido na década de 1970 nos Estados Unidos, que acabou culminando na renúncia do presidente Richard Nixon, do Partido Republicano, após uma série de reportagens feita por dois jornalistas do jornal The Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein]. Dois jovens repórteres mudaram o mundo, é ou não é?! Fizeram o presidente da maior potência guerreira do planeta renunciar. De alguma forma o mundo foi mudado dessa forma, não como a gente queria, mas foi [risos]. É isso, eu acho que a nossa profissão exige ousadia. Ousadia não para inventar histórias aí pelo mundo, contando aventuras, mas para investigar, para dizer as coisas que precisam ser ditas. E essa falta de ousadia é um dos maiores problemas hoje do jornalismo, não só brasileiro, acho que no mundo inteiro.

Como você avalia o momento atual do nosso jornalismo?

AD: Acho que nunca o nosso jornalismo passou por um momento tão negativo. O que acontece hoje é pior do que a censura política que se fez na ditadura militar. Aquela era uma censura que não atingiu propriamente os donos dos meios de comunicação, mas os jornalistas, muitos dos quais fizeram autocensura, que era uma espécie de escape, era o medo. E hoje o que há? Além da autocensura dos jornalistas, que é a pior que pode existir, há a censura das posições da grande mídia. Hoje não precisa de nenhuma censura política. Quem primeiro trata de censurar são aqueles veículos que apoiaram a ditadura militar. Os mesmos que apoiaram continuam fazendo a censura, que se expressa por alguns prismas. Um deles é pela omissão da informação – omissão, a meu ver, é a mesma coisa que censura. Você pode omitir ou, então, induzir o leitor a pensar que algo é verdade, mas não é a realidade, de fato. Na cobertura que fez das manifestações realizadas no Dia 1º de  Maio de 2017 [houve atos de trabalhadores em todo o país, inclusive manifestações de movimentos sociais contra as reformas promovidas pelo governo do presidente Michel Temer], a imprensa deu mais ênfase à manifestação da Força Sindical [central sindical que comumente se identifica com as forças do patronato], que é dirigida pelo Paulinho da Força [deputado federal Paulo Pereira da Silva, do Solidariedade – SD], do que à manifestação dos movimentos de esquerda. O Paulinho faz o papel da mídia, por isso eles não destacam as coisas erradas relacionadas a ele. Isso é omissão!

É um jornalismo que só aponta contradições no que interessa…

AD: Exatamente. É isso.

Você está com 87 anos [em 2017, na época da realização da entrevista]. Para finalizar, eu queria que você respondesse: ainda há planos de reportagem na sua vida?

AD: Ah, se eu pudesse, eu faria. Como eu disse, o que está acabando não é a reportagem, e sim os veículos para publicá-la. É isso simplesmente. Talvez eu pudesse propor uma reportagem para a revista Piauí, ou outro veículo que dá espaço para a grande reportagem, algo assim… Mas aí tem a questão da minha própria sobrevivência. Eu não posso mais me dar ao luxo de sair e passar 40 e tantos dias, como eu fazia na época da Realidade, fazendo uma reportagem. Não dá mais.

Mas você ainda é repórter?

AD: Sou. Isso sempre! [risos]

 

 

 

 

 

 

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