Os horrores da “cidade dos loucos”

 

holocausto

*Por Pablo de Oliveira

A “cidade das rosas”. Assim é conhecida Barbacena (MG), que se destaca pela produção de flores, uma atividade econômica de suma importância para o município, que tem cerca de 130.000 habitantes.  E não são só as rosas que chamam a atenção lá. A mente humana e seus dilemas também despertam o interesse do povo daquela localidade mineira, que concentra um grande número de hospitais psiquiátricos.

Tendo por base a ideia de que o clima ameno da cidade favorecia o tratamento dos doentes mentais, ergueu-se lá várias instituições para cuidar deles. E é sobre uma delas que nasceu a obra da repórter Daniela Arbex. O livro “Holocausto brasileiro”, lançado pela Geração Editorial, em 2013, tem 255 páginas e rendeu à autora o prêmio Jabuti (56a edição) em 2014.
Fruto de uma longa reportagem, marcada pela apuração detalhada, a obra aborda a situação das pessoas internadas no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, o Hospital Colônia.

Daniela Arbex ouviu testemunhos de funcionários, médicos e ex-pacientes que sobreviveram às más práticas médicas registradas no maior hospício do Brasil. Foram mais de 100 entrevistas realizadas, depois da série de reportagens publicada no jornal Tribuna de Minas. Todas elas permitiram a construção de uma história que revela o genocídio entre os muros daquele manicômio: 60.000 mortes é o saldo do que se pode chamar de holocausto.

Os depoimentos coletados apontam que epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, meninas violentadas por seus patrões e esposas traídas eram internadas no Colônia. Setenta por cento das pessoas não tinham diagnóstico de doença mental. Incomodar alguém poderoso, contrariar um parente, ser tímido ou demonstrar tristeza poderia significar décadas de encarceramento.

Confinados em uma instituição localizada na Serra da Mantiqueira, seres humanos de diversas idades sofriam maus-tratos igualmente variados. Água e comida escassas, pouca roupa para vestir, corpos expostos ao frio. Sofrimento imposto a gente vulnerável, que morria de fome e de hipotermia.

Outra ameaça aos internos era a eletroconvulsoterapia. Os choques, aplicados como forma de punição àqueles que contrariavam padrões sociais ou fugiam das normas ditadas pela sociedade em que viviam, incidiam sobre corpos muitas vezes esquálidos.

Depois de mortos, os indivíduos, surpreendentemente, tinham valor. Cadáveres eram vendidos para faculdades de medicina, auxiliando acadêmicos no estudo da anatomia humana, mesmo sem a autorização dos familiares para que isso fosse feito.

Sob a tutela do Estado e com a concordância de médicos e demais profissionais da saúde, milhares de pessoas engrossaram a lista de violações de direitos humanos. Lista gigantesca, que exigia a chegada da tão distante humanização da psiquiatria brasileira.

No catálogo de atrocidades, estão casos como o de Antônio Gomes da Silva, levado ao Colônia quando tinha 25 anos de idade. O alcoolismo foi a justificativa para os 34 anos de reclusão a que foi submetido. Privado do convívio social, passou mais de três décadas no que chamou de “inferno”.

À semelhança dos campos de concentração nazistas, o Colônia abrigou a barbárie: indivíduos comendo ratos, bebendo a própria urina, abandonados à própria sorte. As fotos que ilustram o livro comprovam, duramente, as cenas descritas.

“Holocausto brasileiro” tem texto bem escrito, minucioso, e envolvente o suficiente para prender a atenção do leitor, fazendo-o devorar página por página, em poucas horas.

Parte importante da nossa história está documentada em uma obra que aborda temas como a política de saúde pública e a exclusão social. Assuntos que colocam em evidência problemas graves de uma sociedade muitas vezes omissa diante das tragédias por ela enfrentadas.

*Pablo é meu aluno do 2º semestre de Jornalismo do campus Centro-Mooca da Universidade Anhembi Morumbi. Ele escreve em caráter colaborativo para o Formando Focas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s