Carta de uma jornalista apaixonada

*Patrícia Paixão

Fui convidada pelo Portal Comunique-se para participar do especial deles sobre o Dia do Jornalista.

Espero que goste do texto, querido foca (veja abaixo).

Nele falo sobre as dores e as delícias do Jornalismo (muito mais delícias que dores), através de uma carta que escrevi para mim mesma. A Patrícia Paixão de 40 anos escrevendo para a Patrícia Paixão de 19, uma foca.

Me emocionei muito redigindo este texto e sei que ele responde às dúvidas de muitos focas sobre seguir ou não na profissão.

FELIZ DIA DO JORNALISTA!

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Divulgação/Comunique-se

Divulgação/Comunique-se

 

São Paulo, 7 de abril de 2016.

Querida Patrícia,

Tudo bem?

Quem escreve é você mesma, aos 40 anos.

Nesta data em que se comemora o Dia do Jornalista, resolvi te dar alguns conselhos e acabar com certas interrogações que andam colocando na sua cabeça sobre permanecer ou não no curso de jornalismo.

Sei que já te contaram sobre casos de familiares e conhecidos que fizeram jornalismo e não conseguiram trabalhar na área. Ou que trabalharam durante algum tempo e depois acabaram mudando de profissão.

Sei também que andam dizendo que o melhor seria você optar por uma profissão “mais séria” e “que desse mais dinheiro”, para garantir seu futuro e o de sua família.

Pois bem. Em vez de dar ouvido a esses questionamentos, lembre-se do que disse sua estimada professora de Língua Portuguesa do terceiro ano do ensino médio, da escola estadual “Professor José Marques da Cruz”. Lembra como ela te incentivou a prestar jornalismo pelo fato de você escrever bem?

Some a este precioso estímulo seu amor pela leitura e seu jeito inconveniente de querer opinar e estar por dentro de tudo o que acontece, querendo mudar o que considera injusto. Jeito este que lhe rendeu, quando pequena, alguns puxões de orelha, por se meter em “conversas de adulto”, e quebra-paus homéricos (já na adolescência) com alguns de seus familiares por pensar diferente de muitos deles em relação a assuntos polêmicos.

Escute também uma das poucas vozes sensatas que te rondam neste momento, a do seu pai.  Ele insiste em destacar que quem faz o que ama, dando o seu melhor, consegue vencer, por mais difícil que seja a profissão que escolheu. Ele está certo. Acredite!

Rica, realmente, você não vai ser. Pelo menos uma verdade foi dita por essas pessoas que estão empenhadas em te fazer desistir do jornalismo. Pra falar a verdade, aos 40 seus bens se resumirão a uma casa própria modesta e um carro popular “bem detonado”, diga-se de passagem.

Mas você vai conseguir pagar todas as suas contas, realizar alguns sonhos de consumo e, o mais importante, será uma pessoa plenamente realizada em diversos sentidos.

Sabe esse seu horror pela rotina? Pode ficar tranquila, porque, no jornalismo, você não corre o menor risco de ficar entediada. Todo dia conhecerá pessoas novas e aprenderá sobre diferentes assuntos. Começará como locutora da rádio da sua faculdade, comentando sobre Esportes, Economia, Cultura, entre outras editorias. Depois escreverá sobre a colônia japonesa, em um jornal voltado a brasileiros que moram no Japão; trabalhará como colunista de comportamento, escrevendo para pessoas que vivem sozinhas, dando dicas sobre como conquistar alguém; atuará na editoria de Política da agência de notícias de um dos principais jornais do país (a Folha de S.Paulo, que você tanto admira); será editora de duas revistas na área de papel e celulose e no mercado de indústria gráfica; escreverá sobre política tributária em um sindicato de funcionários da Receita Federal e será assessora de imprensa de organizações de diferentes setores.

Sabe esse seu hobby por viagens? Também será atendido. Como jornalista você terá a chance de conhecer diferentes lugares, suas culturas, suas peculiaridades.

Perderá, sim, finais de semana, feriados, Natal, Ano Novo, Carnaval, Páscoa, e adentrará madrugadas na redação. Trabalhará muito, muito mesmo. Mas também se sentirá fazendo parte da história ao participar de coberturas marcantes, como a dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA, um dos dias em que você mais vai trabalhar na vida. Você se sentirá orgulhosa de ter feito essa e outras coberturas. Vai vibrar com cada furo conseguido, com cada elogio que receber do público.

Ficará extremamente grata e sensibilizada ao notar alguns entrevistados contando suas histórias, com lágrimas nos olhos, abrindo suas vidas sofridas para você, vendo em seu trabalho a única saída para seus dilemas, já que o Estado e outras instituições que deveriam zelar pela sua proteção lhes viraram as costas. Você dará voz a essas pessoas que têm suas falas tantas vezes ignoradas e/ou silenciadas e perceberá que, com seu trabalho, a vida delas terá uma chance de ser modificada.

Entrará em contato com personalidades que costumam aparecer na telinha, enchendo os olhos de quem pensa que ser jornalista significa trabalhar na Globo e conquistar a fama. Aliás, ao longo de sua carreira vão te perguntar muitas vezes se você trabalha na vênus platinada. Acostume-se! Você perceberá que este contato com celebridades é irrelevante perto da chance de poder denunciar o que está errado no seu país. Aliás, prepare-se, porque denunciar o que não anda bem significa muitas vezes mexer com interesses de grupos poderosos, dispostos a perseguir e até mesmo calar quem deseja revelar seus mandos e desmandos.

Mas você vai superar cada obstáculo que aparecer no seu caminho, impulsionada pelo prazer de seguir numa profissão tão enobrecedora.

Um dia você decidirá deixar a redação para se tornar professora de jornalismo. Vai fazer essa opção para tentar ter uma vida mais organizada e com o objetivo de passar adiante toda experiência acumulada na área.

Continuará a escrever e a reportar, pois é um “vício” muito bom,  do qual você nunca vai conseguir se desvencilhar, mas desta vez com o pé na sala de aula, ajudando a formar profissionais que estão cheios de dúvidas e expectativas, como você está neste momento, aos 19, no primeiro ano do curso de jornalismo.

Lecionar será uma experiência igualmente enriquecedora. Você poderá discutir os erros e acertos que vê na profissão, passando seu idealismo e sua paixão aos discentes.

Em muitas aulas você vai se empolgar ensinando as técnicas de entrevista e reportagem que aprendeu ao longo da carreira. Vai comemorar cada conquista dos seus alunos como se fosse sua. Conseguirá ver seus sonhos jornalísticos sendo colocados em prática pelos seus pupilos, como se eles estivessem incorporando um pouquinho de você dia a dia.

Aos 40, você vai ouvir muita gente dizendo que o jornalismo está em crise. Sabe por quê? É que este novo meio de comunicação, que nesse momento você está vendo nascer, a tal da internet, ganhará força e realmente abalará os veículos tradicionais, dando a qualquer pessoa a oportunidade de divulgar informação. O impresso, em especial, perderá muitos leitores para a internet, que veiculará a notícia de forma mais rápida e sintética. Muitos dirão que a mídia impressa vai desaparecer. Haverá também uma dependência ainda maior da mídia em relação aos seus anunciantes e a grupos políticos e econômicos. Tente não se abalar com esses acontecimentos. Com um pouco de observação e cautela, você perceberá que a informação com credibilidade continuará dependendo do bom jornalismo, ou seja, da apuração, do bom texto e de todas as técnicas que você aprendeu na faculdade.

Você vai ver muitos colegas serem demitidos devido a tal crise do jornalismo? Sim, verá. Mas também verá formas interessantes de reportagem surgindo na internet, um jornalismo independente de interesses políticos e econômicos, como não vemos nas grandes redações. Muitos colegas sem espaço na grande imprensa apostarão nessas novas formas de comunicação, que buscam outros caminhos de sustentação financeira, a partir da contribuição do próprio público. Grandes reportagens continuarão a ser feitas, revelando feridas e males da nossa sociedade, mostrando que, apesar de todo o cenário de incertezas, o jornalismo continua sendo essencial.

Por tudo isso, querida Patrícia, digo com segurança: pode seguir tranquilamente no curso que escolheu.

Só não perca nunca sua sensibilidade social, sua perseverança e o seu amor pela profissão. Essa coisa do brilho no olhar, sabe? Brilho no olhar é TUDO! Ao longo da carreira você verá que os profissionais mais bem sucedidos são os que mantiveram o tesão pela área, a esperança de que você pode mudar o mundo com uma reportagem. É uma ilusão pensar assim? Sim, é! Mas é uma ambição extremamente importante para quem está numa profissão de natureza social.

Fácil não será. Aliás, vai ser bem difícil. Você vai ouvir pelo menos uns 30 “nãos” até conseguir sua primeira oportunidade de trabalho num mercado que é extremamente competitivo, e que ficará cada vez mais disputado. Ganhará pouco e nem sempre vai ser devidamente reconhecida, mas, com certeza, será feliz por fazer o que gosta e ver na sua carreira uma oportunidade de colaborar com um mundo melhor. Quer maior riqueza que esta??

Nos vemos daqui a 20 anos. Pode estar certa de que você não terá se arrependido. Como disse o mestre Gabriel García Márquez, esta é “a melhor profissão do mundo”. Não me imagino fazendo outra coisa.

Patrícia Paixão é jornalista e professora do curso de jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi, da Universidade Presbiteriana Mackenzie e das Faculdades Integradas Rio Branco. É também responsável pelo blog Formando Focas (www.formandofocas.com), voltado a estudantes de jornalismo e jornalistas recém-formados.

 

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