Fruto de um TCC de Jornalismo, livro resgata trajetória do repórter Marcelo Canellas

 

 

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*Patrícia Paixão

Um dos repórteres mais respeitados do telejornalismo brasileiro, com mais de 40 prêmios nacionais e internacionais por suas matérias focadas nos Direitos Humanos, teve sua carreira registrada em um livro-reportagem, que será lançado no próximo dia 19/11, pela editora In House, na Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo.

Trata-se de Marcelo Canellas, repórter especial do programa “Fantástico”, da Rede Globo, autor da famosa série “Fome no Brasil”, exibida no Jornal Nacional de 18 a 22 de junho de 2001, considerada uma das reportagens mais premiadas do jornalismo latino-americano. Na série (vejo o vídeo abaixo), Canellas mostra os rostos e as histórias das pessoas que engrossavam, naquele período, as estatísticas sobre a fome no Brasil, fazendo um verdadeiro mapeamento dos municípios do país que mais sofriam com o problema.

O autor da obra?

MEU EX-ORIENTANDO DE TCC (desculpa, sociedade, mas eu tenho que me orgulhar e muito dos meus alunos rs), Sidney Barbalho de Souza.

Intitulado “Marcelo Canellas, por um jornalismo humanista”, o livro, que tem o prefácio da também repórter especial da Globo, Sônia Bridi, foi resultado do Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo que Sidney apresentou à FAPSP (Faculdade do Povo) em 2014, com a minha orientação.

Nesta entrevista, meu ex-pupilo e atual colega de profissão revela os bastidores de produção da obra e fala sobre o seu lançamento, que contará com a presença de Marcelo Canellas, para um bate-papo com o público e com o autor.

Confira!

O livro foi fruto do seu Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo. Por que escolheu fazer uma biografia como TCC e por que a escolha de Marcelo Canellas como biografado?

Sidney Barbalho de Souza: Apesar de ser um dos principais representantes da cobertura de Direitos Humanos no Brasil e possuir dezenas de prêmios, Canellas ainda não tinha sido alvo de nenhuma pesquisa mais aprofundada. Percebi que havia pouquíssimo material sobre a carreira do jornalista e que nem todos estudantes de Jornalismo conhecem o trabalho dele. Desde que uma colega minha da FAPSP, a Jennifer Souza [hoje também já formada], entrevistou o Canellas para o livro “Mestres da Reportagem” [2012], botei na cabeça que queria fazer o meu TCC sobre ele.  O Brasil é um país que traz números alarmantes de desrespeito aos Direitos Humanos e a profissão de jornalista é uma atividade de natureza social, que deve se pautar em denunciar esse desrespeito. O Canellas faz isso muito bem em suas reportagens. Gosto muito da mídia “livro”, então, fazer a biografia do Canellas foi uma maneira de contemplar tudo isso.

Qual foi o maior desafio para fazer a obra?

Sidney: Foram vários medos. Medo de não conseguir fazer uma boa pesquisa de campo, quando visitei as cidades nas quais o Canellas trabalhou; medo de achar que eu já estava dominando profundamente o assunto e, assim, deixar de pesquisar o suficiente; receio de fazer um livro parcial, já que sou fã do trabalho do Canellas e precisava manter a imparcialidade;  e, principalmente, escrever um livro que estivesse à altura da grandiosidade deste repórter, que correspondesse às suas expectativas.

Como Marcelo Canellas recebeu a ideia de biografá-lo?

Sidney: Ele ficou lisonjeado e, ao mesmo tempo, um pouco receoso. Me questionou se ele realmente mereceria uma biografia. Ele é muito humilde e modesto. Dizia que havia jornalistas com mais histórias que ele, para serem biografados. Mas aos poucos ele foi pegando confiança e foi vendo que o trabalho poderia ser interessante para ajudar a formar novos jornalistas.  Tudo transcorreu de forma tranquila e respeitosa. Ele sempre me apoiou.

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Canellas com Sidney, no primeiro encontro para planejar a criação do livro-reportagem

O projeto passou pela aprovação da Globo?

Sidney: Sim, o trabalho foi aprovado pela Direção de Jornalismo da Rede Globo de Televisão em abril de 2014, por intermédio do Globo Universidade, o que possibilitou sua viabilidade e realização. Fiquei impressionado com os cuidados que a Rede Globo tem com as informações que dizem respeito a seus funcionários. Tudo é muito organizado. Fui muito bem assistido pela equipe do Globo Universidade em tudo que eu precisei.

Que curiosidades/histórias mais te chamaram a atenção no processo de apuração das informações sobre a vida profissional do Canellas?

Sidney: Saber da luta dele para a colocar no ar uma de suas matérias mais famosas, a série “Fome no Brasil”, exibida no Jornal Nacional em junho de 2001. Ele levou quase quatro anos para conseguir a aprovação da pauta para essa reportagem. Descobrir que, além de repórter, Canellas é um excelente cronista, e talvez por isso os textos de suas reportagens para TV sejam tão bem construídos, com toques poéticos. Outra curiosidade é o extremo cuidado que ele tem no processo de produção de suas matérias. Ele tem um método único de construção da reportagem. Quem ler o livro vai conhecer. [risos]

Ao todo, quantas entrevistas você teve que fazer para produzir a obra?

Sidney: Foram mais de 50 entrevistas com familiares, amigos e ex e atuais colegas de trabalho do Canellas. Estive em Santa Maria, Porto Alegre (RS), Rio de Janeiro (RJ), Ribeiro Preto (SP), Brasília (DF) e Recife (PE). Fui em busca de documentos da infância e da juventude do Marcelo e de sua vida profissional. Depois parti para a fase de cruzamento das informações passadas pelas fontes e, finalmente, para a redação do texto, respeitando a linguagem de um livro-reportagem.

O livro oferece uma discussão sobre o Jornalismo de Direitos Humanos ou se limita à vida de Canellas?

Sidney: Sim, essa discussão existe no Capítulo V. Há um debate sobre o que seria o  “Jornalismo de direitos humanos” e como o “fazer jornalístico” do Canellas se encaixa nesse tipo de cobertura. O Canellas, por exemplo, não gosta da expressão “Jornalismo de direitos humanos”. Veet Vivarta, da Andi [ONG que luta pelos direitos da infância e da juventude] também é contra essa expressão e explica o porquê no livro. Para eles, o jornalismo, quando bem feito, já cobra naturalmente o respeito aos direitos humanos. Essa discussão, aliás, é uma das partes mais interessantes da obra.

Depois de fazer esse livro, como você avalia o jornalismo que cobre Direitos Humanos no Brasil?

Sidney: Embora tenhamos avançado em relação ao passado – e muito em parte graças à internet, que oferece oportunidade maior para os profissionais de Jornalismo denunciarem mazelas sociais, ainda há muito a ser feito. Na pesquisa que fiz percebi que muita gente na área jornalística desconhece que a garantia de educação, por exemplo, faz parte da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Normalmente se associa a direitos humanos só pautas envolvendo tortura, trabalho escravo, exploração sexual. Poucos profissionais da área conhecem toda dimensão dos Direitos Humanos. E esse é um tipo de jornalismo essencial, ainda mais em um país como o nosso, onde as instituições são tão falhas.  O jornalismo que se pauta em denunciar o desrespeito aos direitos humanos acaba pressionando os governos, faz eles tomarem atitudes que deveriam ser tomadas naturalmente, mas que não são. A meu ver, a função do jornalismo é lutar pelos mais fracos e pude aprender com a construção do livro que isso é possível.

Da esq. para a dir.: Sidney e Canellas comigo (Patrícia Paixão), no primeiro encontro com o jornalista, para planejar a criação da obra

Sidney e Canellas comigo (Patrícia Paixão), no primeiro encontro com o jornalista

Marcelo gostou da obra?

Sidney: Sim, ele me confidenciou que ficou muito surpreso e feliz com o resultado. Não esperava que eu fosse conseguir tantas informações sobre sua carreira, incluindo documentos antigos do seu início no Jornalismo.

Que conselhos você oferece ao estudante de Jornalismo que deseja fazer um livro-reportagem como TCC?

Sidney: Precisa estudar muito o personagem que você pretende biografar. Planejar muito, ler muito e negociar com o biografado quais serão os métodos e caminhos a serem traçados: se um livro-reportagem que aborde mais aspectos da vida pessoal, da vida profissional ou de ambas. É importante ir a campo, passar pelos locais onde o biografado viveu seus principais momentos e fazer muitas entrevistas, cruzando o que uma fonte disse com a informação de outras fontes, para se chegar o mais próximo possível dos fatos sobre o personagem. Também é preciso evitar achar que se tornou um “amigo” do entrevistado, pois é preciso manter o distanciamento e a objetividade. Se você deixar o subjetivo interferir, ainda mais quando você é fã do biografado, corre o risco de não fazer jornalismo.

Convite

Convite do lançamento do livro, que acontecerá em 19/11, na Biblioteca Mário de Andrade

Há algo especial programado para o lançamento do livro em 19/11? O que o público pode esperar?

Sidney: Sim, haverá um bate-papo com o biografado e comigo sobre a cobertura na área de Direitos Humanos e sobre o processo de construção do livro.

Por que o leitor deve comprar o seu livro?

Sidney:  Porque além de trazer a vida e os bastidores das reportagens de um dos principais nomes do nosso telejornalismo, o que acaba sendo um grande exemplo a ser seguido, a obra discute a cobertura de Direitos Humanos que, como já dissemos no início da entrevista, representa a essência da nossa profissão. O Jornalismo existe para atender a sociedade, para denunciar quando essa sociedade não tem seus direitos garantidos. Sou suspeito pra falar, mas considero o livro essencial para todos que desejam conhecer as qualidades essenciais de um repórter. Espero todos no lançamento da obra.

SERVIÇO

Marcelo Canellas, por um jornalismo humanista

Data do lançamento: 19/11/2015

Onde: Biblioteca Mário de Andrade (Rua da Consolação 94)

Horário: das 19h às 21h30 (das 19h às 20h: bate-papo com Marcelo Canellas e Sidney Barbalho de Souza/das 20h às 21h30: sessão de autógrafos. OBS: É necessário retirar senha no local, a partir das 18h, para participar do bate-papo com o autor e Canellas)

Página do livro no Facebook.

 

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