Ninguém quer ter “barriga”. Muito menos no Jornalismo! Saiba o porquê

*Patrícia Paixão

Em tempos de culto à estética e à vida saudável, ninguém quer ter a famosa “barriguinha”. E em tempos de Google e de várias ferramentas à disposição na Internet para checagem do fato, nenhum jornalista quer ter uma “barriga” estampando seu currículo, pois sabe que sua credibilidade vai para o ralo, e ele ficará sendo visto como um profissional irresponsável e preguiçoso.

Mas como assim no currículo, Patrícia?

É que a barriga no jornalismo tem outro significado. Trata-se da publicação de um fato falso, por falta de checagem, sem a intenção de enganar o leitor.

Qualquer um, seja por pressa em dar o famoso “furo de reportagem” (publicar uma notícia em primeira mão, antes da concorrência), por preguiça ou arrogância de achar que é bom o suficiente para precisar apurar, pode dar uma “barrigada”. Mesmo jornalistas renomados podem cometer essa gafe.

Basta lembrar da entrevista que Mário Sérgio Conti, que dirigiu a Veja e é colunista de O Globo e da Folha de S.Paulo, fez com o falso Felipão, na Copa do Mundo de 2014. Ele publicou a entrevista na Folha, convicto de que tinha entrevistado o então técnico da Seleção brasileira, quando, na verdade, ouviu Wladimir de Castro Palomo, que trabalha como sósia de Luiz Felipe Scolari. Nem desconfiou o quão absurdo seria Felipão estar em um voo comercial em plena Copa do Mundo.

BARRIGA

Outra barriga famosa foi a falsa morte do senador Romeu Tuma, pela Folha e pelo UOL, em setembro de 2010, mais de um mês antes do parlamentar falecer efetivamente (o que só ocorreu em 26/10/2010). Na ânsia de dar o furo, os veículos do Grupo Folha mataram o senador, levando outros veículos da imprensa, como o jornal O Globo (via twitter), a replicarem a barriga.

Tuma

Mas a mais célebre barriga da história do jornalismo foi dada na edição de 27 de abril de 1983 da revista Veja. O semanário do grupo Abril repercutiu uma matéria falsa publicada pela revista New Scientist sobre um suposto avanço da engenharia genética: a fusão de células animais e vegetais. O experimento teria gerado um “super tomate”, feito com a contribuição de células de gado, e que possuía uma polpa muito mais nutritiva, oferecendo vários benefícios à população.

New Scientist havia inventado essa notícia como parte uma brincadeira que costuma ser feita pela imprensa estrangeira, especialmente a britânica, no dia 31 de março, na véspera de 1º de abril. Nesta data, vários veículos costumam pregar peças em seus leitores, publicando fatos falsos.

Mesmo com várias pistas que indicavam que a notícia era um trote (exemplo: os supostos pesquisadores que tinha descoberto a fusão celular se chamavam Barry McDonald e William Wimpey, uma referência às redes de fast-food americanas McDonalds e Wimpy’s), Veja caiu na história, nomeando o novo avanço científico como “boimate” (união das palavras “boi” e “tomate”), nome pelo qual acabou ficando conhecida essa homérica barriga.

A revista chegou a fazer um infográfico mostrando aos leitores como o “super tomate” seria criado. #VergonhaAlheiaNívelUmMilhão

BOIMATE

Em 1983, os jornalistas da Veja não contavam com o nosso amigo “Google” para verificar se a notícia era verdadeira ou não, embora isso não justifica o erro cometido, só o ameniza. Hoje, temos ainda mais obrigação de checar, checar, checar o máximo possível para não dar uma barrigada.

Portanto, querido seguidor do Formando Focas, mantenha sempre o “desconfiômetro” ligado e nunca tenha preguiça de apurar uma informação. O erro de Mário Sérgio Conti foi perdoado pela Folha e pelo O Globo, mas por que ele é Mário Sérgio Conti. Dificilmente teriam a mesma compreensão com um foca.

Caso dê uma barrigada, a melhor coisa é assumir o erro e pedir desculpas ao público. Nada de querer justificar o injustificável.

A todos que desejam saber mais como a nossa imprensa tem pecado no quesito checagem, mesmo com todo o arsenal de pesquisa que temos hoje à disposição, recomendo o documentário “Abraço Corporativo”, do jornalista Ricardo Kauffman. Lançado em 2010, o filme mostra como conceituados veículos jornalísticos e famosos profissionais da nossa mídia,  como Heródoto Barbeiro e Gilberto Dimenstein, caíram na história de um personagem inventado, Ary Itnem (esse nome, quando lido ao contrário, forma a palavra “mentiyra”) , interpretado pelo ator Leonardo Camillo. Itnem seria um consultor de RH que implantou no Brasil a “teoria do abraço” (que se baseia no conceito de que abraçar as pessoas melhora os relacionamentos, inclusive no meio empresarial). Ele foi inventado para mostrar como nossa imprensa tem divulgado tudo o que lhe é oferecido, sem se preocupar com a checagem. Vale muito a pena! Assista ao filme no link abaixo:

 

 

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