ENTREVISTA COM ELMO FRANCFORT: Especialista na história da nossa TV, Elmo revela informações exclusivas do livro que lançará no próximo sábado (19/09), com a presença de diversas personalidades

*Patrícia Paixão

Conhecer a trajetória e as histórias daqueles que deram os primeiros passos na nossa mídia – seja ela impressa, radiofônica, televisiva ou digital – é um pré-requisito importante para todos que atuam no universo da comunicação, inclusive para jornalistas e estudantes de jornalismo, que têm muitas vezes a tarefa de resgatar o passado ao registrar o presente.

É conhecendo os acertos e erros dos nossos primeiros comunicadores que podemos aperfeiçoar e inovar o conteúdo que oferecemos ao público.

Por isso, o Formando Focas traz essa entrevista exclusiva sobre um evento IMPERDÍVEL que acontecerá na tarde do próximo sábado (19/09), na Biblioteca Latino-Americana Victor Civita, do Memorial da América Latina: a festividade dos 65 anos da TV no Brasil, que será marcada pelo lançamento do livro “Gabus Mendes: Grandes Mestres do Rádio e Televisão”, de Elmo Francfort, jornalista, coordenador do Centro de Memória da Associação Pró-TV e do Museu da TV e professor da FAPSP (Faculdade do Povo – especializada em cursos de Comunicação).

A cerimônia também celebrará os 20 anos de existência da Pró-TV, que é responsável pelo resgate, registro e valorização da história do rádio e da TV brasileira.

Nesta entrevista, Elmo, que é um dos maiores especialistas na história da nossa telinha (é autor de outros três livros: “Rede Manchete: Aconteceu, Virou História”, “Av. Paulista, 900: A História da  TV Gazeta” e “Televisão  em 3  Tempos), fala sobre o processo de produção da biografia de Cassiano (primeiro diretor artístico de TV na América Latina), destaca algumas das informações exclusivas oferecidas na obra, faz uma análise da TV e do nosso telejornalismo, além de revelar alguns atrativos do evento do próximo sábado, que contará com a presença de diversas celebridades, dentre elas Cássio Gabus Mendes e Tato Gabus Mendes (filhos de Cassiano), Lima Duarte e o ex-diretor da TV Globo, Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho).

Confira a entrevista e entenda por que não perderemos este evento!

São vários os pioneiros da TV no Brasil, alguns deles, felizmente, ainda vivos, como Lima Duarte e Lolita Rodrigues. Por que a escolha de biografar justamente Cassiano Gabus Mendes?

Elmo Francfort: Eu já tinha uma admiração muito grande pelo Cassiano, porque falar dele é falar de todos os pioneiros. Ele sempre teve um espírito de equipe muito forte e foi o primeiro grande comandante da TV brasileira, além de ser o primeiro funcionário registrado da nossa TV. Foi o único que esteve nos Estados Unidos para estudar a estética televisiva, no final dos anos 1940. Tudo isso eu conto no livro. Além disso, há  uma razão muito especial e que me impressiona até hoje. Sonhei diversas vezes com o próprio Cassiano dizendo que eu devia escrever sua biografia. Se foi ele ou não, de outro plano, não posso afirmar, mas isso até hoje me impressiona. Lembro que no ano passado, no meio de uma noite, tive uma insônia forte e resolvi que era a hora de começar a botar no papel esse sonho que tanto me perturbava. As portas se abriram de tal forma que acredito numa intervenção mística. Veio na hora certa e virou uma obra, cujas revelações, entrevistas, fugiram do que eu imagina, tornando-se ainda mais rica. É como essa viagem dele aos Estados Unidos, que até então era algo inédito. Todos achavam que só técnicos tinham ido para lá estudar televisão. Não posso deixar de mencionar que a proposta do livro era sobre Cassiano apenas, mas aí aconteceu que comecei a pesquisar sua infância e mocidade, vi a riqueza e a influência da vida do pai Octávio Gabus Mendes, na dele, e aí virou uma biografia familiar. A obra vai de 1906, nascimento de Octávio, até 2015, com a novela que já deu adeus à tela da Globo [Babilônia], com Cassio Gabus Mendes [filho de Cassiano] em um dos principais papéis, o personagem Evandro.

Além de ter sido ator, roteirista, sonoplasta, contrarregra e autor de telenovelas, Cassiano foi o primeiro diretor artístico de TV na América Latina, pela TV Tupi. Que contribuições ele deu para a criação dos nossos gêneros televisivos?

EF: Foi uma contribuição total. Ele “fez” televisão até antes mesmo de o veículo existir. Explico: o pai dele, Octávio Gabus Mendes, escreveu roteiros televisivos no início dos anos 1940 e faleceu próximo ao término da II Guerra Mundial. Ele fez uma revolução no rádio e, infelizmente, não viu seu maior sonho – a televisão – acontecer. Cassiano fez isso e com o apoio de um grande colega de Octávio, Dermival Costa Lima, que o convidou para ser seu assistente direto na televisão. Dermival era o chefe, mas apenas supervisionava, uma vez que quem realmente fazia acontecer, criava os formatos e ainda operava equipamentos [Cassiano foi o primeiro “diretor de TV” ou “diretor de imagem”], escrevia, atuava, era o Cassiano. Há uma parte no livro chamada “O filho de peixe”, porque era assim que Costa Lima o considerava, levando em conta aquela famosa expressão “filho de peixe, peixinho é”. Cassiano tinha o mesmo brilhantismo, a mesma intuição e talento do pai. São figuras que não podem ser esquecidas. Foi ele que dirigiu o show inaugural da TV e criou os formatos desse veículo, lançou os principais nomes da televisão. Precisa dizer algo mais? É uma figura fascinante. Ainda assim pensava sempre na criatividade, na equipe e era muito humilde. Me disse a Susana Vieira, uma das entrevistadas do livro: “Ele foi nosso primeiro Boni”. Há um capítulo até sobre a amizade e a influência de Cassiano na carreira de Boni [José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, ex-diretor da TV Globo, um dos grandes responsáveis pela fórmula de sucesso da emissora, por meio da implantação do chamado “padrão Globo de qualidade”], uma parceria de décadas, da Tupi até a Globo.

É verdade que Cassiano teria sido o “pai” de nossos primeiros modelos de telejornais?

EF: Sim. Foi ele que criou o formato do “Imagens do Dia”, o primeiro telejornal da América Latina e do hemisfério Sul. Foi também criador do primeiro vespertino: “Edição Extra”, também na TV Tupi, com Maurício Loureiro Gama e o repórter Tico-Tico. Conto felizmente com o apoio dos depoimentos de muitos pioneiros, como os dois que acabei de citar, que disseram suas histórias à Pró-TV. São mais de 140 depoimentos [exclusivos e os do acervo da associação], cujos trechos fazem parte das mais de 500 páginas da obra.

Que outras informações exclusivas o leitor encontrará no livro “Gabus Mendes: Grandes Mestres do Rádio e Televisão”?

EF: São tantas que é difícil enumerar. O livro conta coisas que pouca gente conhece, como o início do rádio em São Paulo, o cinema mudo no Brasil e várias passagens da Era do Rádio, tudo sob o olhar de Octávio Gabus Mendes. Depois vão ver a carreira de Cassiano, começando com praticamente 10 anos de idade em rádio, tornando-se um grande novelista, até seu falecimento e o que ficou dele em nossa área. A obra mostra ainda o nascimento da televisão, os bastidores, como se deu a criação de todos os gêneros, a concorrência do rádio com a TV, como também a concorrência entre as emissoras. É um livro sobre a história da comunicação, não apenas TV. Fala de cinema, de rádio, de jornalismo. Há os bastidores das novelas, coisas até então não conhecidas, que apenas a família e os amigos sabiam, mas que nunca chegaram a conhecimento público. Dá pra entender um pouco como Cassiano criava suas novelas e séries. De “A Vida Por Um Fio”, “TV de Vanguarda”, “Alô Doçura”, passando por “Beto Rockfeller”, “Anjo Mau”, “Locomotivas”, “Ti Ti Ti”, “Que Rei Sou Eu?” e muitas outras, até chegar em “O Mapa do Mina”, sua última novela. Dá para conhecer um pouco a pessoa que existia por trás do profissional Cassiano Gabus Mendes e conhecer também sua família, como o início da carreira de seus filhos, os atores Tato e Cassio Gabus Mendes. Silvio de Abreu, Maria Adelaide Amaral, Lima Duarte, Laura Cardoso, Eva Wilma, Luis Gustavo [também cunhado de Cassiano] e muitos outros deram depoimentos interessantes para o livro.

A telenovela Beto Rockfeller, criada por Gabus Mendes e exibida pela TV Tupi, foi um marco na TV brasileira por trazer o primeiro anti-herói da história das nossas telenovelas. Dizem que Gabus Mendes não admirava os personagens que criava, pois eles costumavam ser fúteis e defectíveis, espelhando os problemas da nossa sociedade. Rockefeller teria sido um desses personagens criados para fazer críticas aos costumes da sociedade?

EF: É um equívoco dizer que ele menosprezava seus personagens, e eu elucido no livro as razões. Cassiano dizia apenas que fazia personagens comuns, porque buscava uma grande identificação com a sociedade – inclusive o Cassiano adorava assistir às suas novelas e torcer por elas [o Cassio conta bem no livro como o pai se sentia]. Era um sujeito humilde, mas inteligente. Outro equívoco é sobre ele ter dito que o rádio ia morrer dez anos após o início da TV no Brasil. Eu faço a explicação e a defesa disso na obra. Ele era muito inteligente. Mexia muito com clichês, porque, além de novelista, era um bom executivo de televisão, sabia os recursos certos para fazer sucesso na televisão. Ainda assim modestamente dizia que não sabia a fórmula. Claro, a fórmula absoluta não existe, mas ele sabia exatamente o que “não fazer” e onde tinha que “fazer mais”. Era um grande estrategista. Pela primeira vez, o próprio “Beto Rockfeller” [o ator Luis Gustavo] conta a história real nesse livro de como foi criado o personagem. Lima Duarte também, que foi o diretor de “Beto Rockfeller”. Os amantes de novela vão adorar saber.

Gabus Mendes é autor de sucessos como Anjo Mau (1976), Ti Ti Ti (1985-86), Brega & Chique (1987) e Que Rei Sou Eu? (1989). De todas as tramas criadas pelo autor, qual, na sua opinião, mais se destacou pela repercussão junto ao público e criatividade?

EF: Todas tiveram sua importância. Não foi por acaso que ele foi chamado de “Mago das 7”. Ele sabia acertar no ponto. Poucas foram as novelas que não tiveram o sucesso esperado, mas não foram um fracasso. “Anjo Mau” consolidou o horário das sete horas, “Locomotivas” foi a primeira em cores no horário, mas a mais ousada, e que ficou por definitivo na história, sem dúvida foi “Que Rei Sou Eu?”. É uma verdadeira obra prima. Ele conseguiu com humor criticar a política da época, em tempos de eleições presidenciais, e a crise no Planalto. Só que tudo isso com uma trama “capa e espada”, em 1989. Ele satirizava, fazia referências claras aos personagens da política. Digo sempre que se passasse no “Vale a Pena Ver De Novo” seria sucesso garantido e atual. Infelizmente o país, politicamente, continua com problemas. Gosto de citar o caso do Bidet Lambert [interpretado pelo ator John Herbert], o Ministro da Marinha do fictício reino de Avilan, que “curiosamente” não tinha mar!!! Uma comédia pura. Os personagens reais mudaram, mas os ficcionais de Gabus Mendes continuam atuais.

O que os autores de novela hoje têm a aprender com Gabus Mendes?

EF: O texto, a história, os ganchos e tantas outras coisas. Claro que no livro não dou receita de bolo. Tentei pensar como Cassiano. Ele também não daria. Daria princípios iniciais, mas cada um tem que pegar o “novelo da novela” – como dizia a autora Janete Clair, cujo nome artístico foi dado por Octávio Gabus Mendes – e, a partir daí, tecer seu crochê, seu tricô… Só que não dá pra fazer nada sem um bom conteúdo, que te prenda, que tenha conflitos e tantas outras coisas. Os grandes autores estão envelhecendo, isso me preocupa. Felizmente há novos e bons autores surgindo, mas são poucos que fazem a diferença. Muitos autores, de todos os tempos, estão perdendo a mão. É triste. Hoje a novela termina, passa um tempo, e você confunde a trama, não lembra qual era qual. Se você pegar as do Cassiano elas eram bem distintas, você reconhecia os personagens, eram fortes, tinham personalidade própria. E não dá pra dizer que a “sociedade está cada vez mais igual”, porque esses personagens persistem, são bem definidos. Precisamos repensar a telenovela.

Qual foi o maior desafio no processo de registro da biografia de Gabus Mendes?

EF: Foram dois. Hiatos na história da comunicação, principalmente em relação à fase do rádio, descrita de 1950 para trás. Ligar uma fase da carreira à outra, mudança de estação, épocas de crise são mais difíceis. Nas crises, por exemplo, são os momentos em que se tem a menor informação, uma vez que as emissoras – por exemplo, a TV Tupi -, evitava que a crise vazasse para a imprensa. Outra dificuldade foi a síntese. E que dificuldade! Contar uma história tão rica de pessoas que dariam uma enciclopédia, divididas em fascículos! Ainda assim sintetizei a narrativa em mais de 500 páginas incluindo fotos históricas, muitas mostrando a vida pessoal dos Gabus Mendes. Usei como fonte também entrevistas e declarações dadas por Cassiano e Octávio Gabus Mendes no passado, pra manter a visão deles no livro. Isso me ajudou muito e aprendi demais.

Teve dificuldade em falar com artistas que trabalharam com Cassiano ou em conseguir arquivos históricos?

EF: Isso foi uma das coisas interessantes. Tudo surgiu gradativamente, tanto arquivos históricos, como colaborações e entrevistados. Claro, fui atrás das fontes de pesquisa, busquei o melhor que pude. A história merecia esse cuidado. Mas tive casos de renomados pioneiros da televisão –  não citarei nomes – que me procuraram querendo participar do livro e contar suas histórias com Cassiano e os Gabus Mendes. Fiquei muito feliz. É uma família muito querida. Cassiano, por exemplo, é considerado por muitos como padrinho.

Como se sente agora que a obra está finalizada?

EF: Muito feliz. Foi um grande desafio, mas ao mesmo tempo um grande prazer escrever esse livro e ouvir as histórias. Espero realmente ter conseguido repassar adiante o que ouvi. O Tato me disse que no livro sou um “grande contador de histórias”. Respondi a ele que agradecia o elogio, mas que a história é que era de um grande “contador”. Ainda mais porque Cassiano foi o inventor de um programa de teleteatro da Tupi chamado “O Contador de Histórias”, com tramas de suspense e mistério. Agradeço o elogio, mas não mereço. Me identifiquei muito com o que conto no livro, porque acredito, assim como eles [a família Gabus Mendes], que tudo é fruto do nosso trabalho, de arregaçar as mangas, que ainda é possível fazer a “arte pela arte”. O comercial, a audiência, é resultado. Temos que pensar sempre no conteúdo em primeiro lugar. Isso é o futuro da nossa televisão e também do nosso rádio. A convergência, a interatividade, seguirão juntas no mesmo processo, mas é preciso alinhar a técnica ao artístico, como Cassiano e Octávio fizeram a vida toda.

Quando começou essa sua paixão pela televisão?

EF: Acho que eu nasci com ela! [risos] Sou de uma família de pioneiros da TV. Um deles, Luiz Francfort, meu tio, foi câmera do Cassiano na TV Tupi. Conto no livro, por exemplo, que lá ele foi câmera de “Os Dez Mandamentos” [décadas antes da Record fazer], sob supervisão de Gabus Mendes. Quando nasci peguei o “vírus”. Como sempre digo: quando você conhece o “cheiro” de estúdio, nunca mais esquece. Conheci os bastidores da TV e comecei cedo. Além disso, trabalho na Associação Pró-TV, sou telespectador também e professor, dando aulas na FAPSP [Faculdade do Povo, especializada em cursos de comunicação]. É preciso ter uma visão geral, do todo, pra entender e buscar a evolução de nossa comunicação.

E esse seu trabalho de registro e preservação da memória da nossa TV?

EF: Começou também cedo. Eu percebi muita coisa que minha família me contava nos bastidores, mas que eram vistas como folclore, que foram esquecidas com o tempo. Só que nada havia sido registrado. Desde cedo gostava de história. Quando alguém me perguntava: “Você tem algum hobby?” Eu respondia: “História”. Ninguém entendia. Sempre achei importante preservar a história. Cheguei até a fazer vestibular para História e passei em duas faculdades, mas na hora final pensei bem e algo lá dentro disse que eu tinha que ir para comunicação, por vontade própria, sem imposição nenhuma. A arte tem dessas coisas. Ela inspira. Ainda farei “História” e não abandonarei a comunicação. Sou apaixonado pelo que faço.

De que forma conheceu Vida Alves, que é idealizadora da Pró-TV e do Museu da TV no Brasil, além de ser uma das principais pioneiras ainda vivas da nossa telinha (deu o primeiro beijo das nossas telenovelas)?

EF: Um dos meus irmãos, o Arthur, havia criado um site sobre televisão chamado Telecentro. Virei colunista. Aí na época da faculdade virei colunista do site Sampa On Line e passei a escrever uma coluna também sobre televisão e sua memória. Fui trabalhar com ele na Rede Meridional, uma rede de representação comercial de emissoras fora do Eixo Rio-São Paulo. Um dia entrei no site da Pró-TV e vi ele fora do ar. Aquilo me deixou perplexo, porque não entendia como a entidade com uma causa tão importante estava com seu site fora do ar na Era da Internet. Mas preciso contar algo um pouco antes: anteriormente, próximo dos 50 anos da televisão [em 2000], eu tinha feito um site que era “irmão-caçula” do “Telecentro”: o “Canal 1: Memorial da Televisão Brasileira”. Coloquei nele muito conteúdo inédito, baseado no que havia recuperado da história da TV. Um dia entrei em outro site e tinham copiado tudo, sem nenhum crédito, sem nenhum respeito. Fiquei tão chateado. Prometi pra mim que não voltaria mais a fazer nada, porque aquilo foi de uma falta de consideração total. Prometi que só voltaria a fazer algo assim na internet – na época era ainda mais, legalmente, “terra de ninguém” em termos de direitos autorais e falta de créditos, fontes – se fosse por uma causa nobre. Então, voltando ao site da Pró-TV, percebi que o Museu da TV precisava voltar. Feeling? Não sei. Só sei que dei um jeito de criar e hospedar dentro do site da Rede Meridional. No final saí de lá e entrei na Pró-TV. Fui cuidar de um pequeno site que hoje, orgulhosamente, digo que é um portal (www.museudatv.com.br), milhares de páginas, tem redes sociais e tudo que tem direito. Eu adoro desafios. Quando percebi, reconheceram meu gosto pela história, e fui mudando de funções. Fui fazer a curadoria do acervo, depois organização de eventos e de exposições, que percorreram todo país e a Europa. Tudo por causa de um site fora do ar!

Você participou com ela da ideia de criar um Museu da TV?

EF: Mudando o tempo do verbo, digo que eu “participo”. O Museu da Televisão precisa se desenvolver. Já tem um grande acervo, mas está na casa da Vida Alves e precisa de uma sede própria, maior. Está cada vez mais cheio de doações importantes, mas precisa se desenvolver urgentemente. Acompanho há mais de uma década essa luta e vou seguir em frente.

No livro “Televisão em três tempos” você oferece um passeio pela evolução da TV no Brasil, dos primeiros televisores em preto em branco à TV digital.  De 1950 pra cá avançamos bastante em tecnologia. A qualidade da nossa TV acompanhou esse avanço?

EF: A qualidade tecnológica sim, mas a de conteúdo precisa evoluir. Há muita coisa boa no ar. Não dá pra jogar a culpa na sociedade, se a televisão não oferece opções de bom conteúdo. Há iniciativas boas, mas todos pensam no retorno comercial imediato. Só que há muitas coisas que é preciso “apostar” no retorno a longo prazo, porque aí passa a ser duradouro o sucesso. São testes. A Globo já fez e ainda faz muito disso. Às vezes, um insucesso inicial, para uma emissora [comercialmente e em audiência], torna-se, com o hábito, um sucesso futuro e duradouro, quando o conteúdo vale a pena. É preciso sempre pensar no hábito do telespectador.

O que a TV de hoje precisa aprender com a TV do passado?

EF: Muita coisa. Inclusive como lidar com o “ao vivo”. Em épocas que estamos disputando a atenção da televisão com a interatividade, com a TV digital, o Netflix, e Internet, é hora de repensarmos muita coisa e naquilo que é exclusivo do formato televisão. O que é ao vivo é exclusivo, por exemplo. Estamos agora passando pelas mudanças que o rádio passou nos anos 1950 e 1960. É uma nova postura. Uma nova televisão que está surgindo. Tento mostrar isso nas entrelinhas do livro “Gabus Mendes: Grandes Mestres do Rádio e Televisão”. Quem beber da fonte de Octávio e de Cassiano, com certeza entenderá o que estou falando e de como é preciso repensar os formatos. O passado sempre é muito importante para avaliarmos, não errarmos e aprimorarmos o futuro da nossa comunicação.

De acordo com a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (divulgada em 29/04/15, pelo IBGE), até 2013 somente 31,2% dos lares tinha TV digital. Apesar da baixa adesão à TV digital, o governo pretende começar a desligar as redes de TV analógica no ano que vem. Como você avalia essa situação?

EF: Um processo gradativo e inevitável. De 2007 pra cá muito se fez, até criaram leis de financiamento de crédito para baixar os preços das TVs digitais, mas a mudança foi pouca. É fogo isso, mas as grandes mudanças muitas vezes vêm de forma forçada e com uma ruptura, no estilo “agora ou nunca”. Foi assim com a TV em cores. Foi gradativo, mas uma hora falaram: “Ó, vai acabar”. E só assim é que terminou de vez. Ainda há muito chão pela frente, mas as emissoras estão reagindo gradativamente. O que é preciso agora é o mercado de televisores reagir também e estimular a compra, porque se a mudança não surtir efeito, será um grande problema. Não se aquece mercado, não sem 100% de TV digital. Ninguém vai querer ficar no “apagão”.

Qual é a sua opinião sobre o telejornalismo brasileiro?

EF: Em tempos da chamada “Geração Y”, eu acho que o telejornalismo tem que apostar em duas vertentes: um telejornal de manchetes rápidas, sintéticas. E outro estilo mais analítico, pra entender melhor os assuntos. Isso vai garantir a informação mínima, mas necessária, pra quem não tem tempo hábil. Já no outro estilo, dá para se analisar mais, ser mais opinativo. Sinto que a ética é algo que precisa ser também repensada nos nossos telejornais. Os interesses não podem estar acima da informação.

Por que é importante para um estudante de jornalismo conhecer a história da nossa TV?

EF: Um estudante precisa saber a importância da história da TV, do rádio e do jornalismo impresso, senão não conseguirá ir para área e sobreviver. É um contexto geral. Você precisa conhecer o seu universo, de onde veio tudo que existe hoje e como chegamos aqui. Imagina para um fazendeiro não conhecer seu solo direito? Talvez não consiga nunca cultivar o que plantou. Precisamos saber um pouco de tudo. É a base, sempre, principalmente pra quem pretende seguir no telejornalismo.

Que conselhos você oferece aos estudantes de jornalismo que pretendem trabalhar na mídia TV?

EF: Se dediquem ao máximo e estudem. Isso vocês sempre precisarão. Da sala de aula às pautas do dia a dia. Observem também sempre o seu entorno. As coisas mudam, os fatos mudam e as pessoas mudam. Às vezes até de opinião! O futuro é de quem acredita nele. Crises são passageiras, mesmo que demorem a acontecer, mas sempre há uma saída. Oportunidades estão sempre aí. Basta olhar bem e percebê-las. Ah… Correr atrás! Sempre!

Pra finalizar, por que o público não pode perder o lançamento do livro sobre Cassiano no próximo dia 19/09?

EF: Será uma grande festa e com muitas surpresas. Além do lançamento do livro, com a tarde de autógrafos, haverá uma homenagem ao Cassiano Gabus Mendes, no Memorial da América Latina, e a comemoração dos 65 anos da TV no Brasil e dos 20 anos da Associação Pró-TV. Vai mexer com muita gente, tanto com quem trabalhou como com quem assistiu à televisão esse tempo todo. Será emocionante. Ninguém pode perder. Os Gabus Mendes, Vida Alves, Eva Wilma, Laura Cardoso, Boni, Lima Duarte e muitos colegas de Cassiano Gabus Mendes estarão na homenagem. Estou ansioso para o dia, mas não posso contar tudo! Vou ter que deixá-los na curiosidade porque, como disse, vai mexer com muita gente. Ah… um dos segredos de Cassiano Gabus Mendes era manter um certo suspense na conclusão de suas tramas! Garanto que não irão se arrepender dos capítulos finais. [risos]

 SERVIÇO:

*EVENTO DOS 65 ANOS DA TV NO BRASIL E LANÇAMENTO DO LIVRO “GABUS MENDES: GRANDES MESTRES DO RÁDIO E TELEVISÃO”

Quando: Sábado (19/09)

Horário: às 15h

Local: Biblioteca Latino-Americana Victor Civita, no Memorial da América Latina            (Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664 – Barra Funda)

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