ENTREVISTA COM ANDERSON SCARDOELLI:  “Os valores éticos precisam imperar no dia a dia da profissão”

Para o editor do Portal Comunique-se, caráter e ética são as principais qualidades de um jornalista

 *Patrícia Paixão

Ele é responsável pelo jornalismo do maior portal de comunicação do Brasil. Tem o desafio diário de oferecer a estudantes e profissionais notícias relevantes de um setor que envolve diferentes carreiras (Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Rádio e TV, Relações Públicas, Marketing, entre outras) e que exerce forte influência sobre a opinião pública.

Entrevistamos Anderson Scardoelli, editor do Comunique-se, e colocamos essa entrevista no ar justamente hoje (10/09), data em que o portal comemora 14 anos.

Formado pela Uninove em 2011, o jornalista que escolheu a profissão por “amor à primeira vista”, após uma visita à Rádio Globo, entrou no Comunique-se em 2009, ainda como estudante, fazendo alguns freelas para o portal. “O que a princípio era para ser temporário virou definitivo e com grande evolução. Acho que gostaram de mim!”, brinca.

Ele destaca que um dos segredos da grande audiência do Comunique-se é evitar a publicação de boatos ou fatos banais, que não agregam informação aos profissionais da área. “Temos uma linha editorial bem definida. Vetamos ‘notícias’ do tipo ‘fulano deve fazer isso…’ ou ´beltrano pode fazer aquilo…’, além de matérias bobocas como “o jornalista X se assustou durante o telejornal”.

Nesta conversa, Scardoelli conta um pouco do seu dia a dia como editor. Fala sobre o Prêmio Comunique-se, que homenageia todos os anos os principais profissionais da área de comunicação; sobre o projeto “Correspondente Universitário”, voltado a estudantes de Jornalismo, e oferece dicas e conselhos preciosos para os focas, dentre os quais, a importância do caráter e da ética no cotidiano da profissão. Confira!

Qual é o desafio de ser editor de um dos principais portais de comunicação do Brasil?

Anderson Scardoelli: Na verdade, são desafios e mais desafios. Alguns esporádicos, outros contínuos. O maior desafio na função, modéstia à parte, já consegui realizar com êxito, que foi montar uma equipe de reportagem excelente, com qualidade acima da média. Dificilmente, você encontrará no webjornalismo alguém que escreva no mesmo patamar da Nathália Carvalho, meu braço direito na unidade, um coleguinha com a agilidade da Jacqueline Patrocinio ou até um jovem profissional que tenha nível tão “sênior” quanto a Tácila Rubbo.

Com relação ao conteúdo, o maior desafio é produzir diariamente assuntos que sejam atrativos para os internautas e, ao mesmo tempo, mantenham a credibilidade que construímos ao longo de quase 14 anos. Temos uma linha editorial bem definida, não damos espaços para especulações. Vetamos “notícias” do tipo “fulano deve fazer isso”, “beltrano pode fazer aquilo”… Ou temos base para cravar a informação ou não rende pra a gente. É simples. Por outro lado, também não trabalhamos com pautas bobocas, como repercutir que “o jornalista X se assustou durante o telejornal” ou que o “repórter Y caiu no meio de uma participação ao vivo”.

Outro desafio diário é a questão da agilidade X qualidade. Gostaria muito de saber quem foi o “gênio” que falou que o principal da internet é a velocidade em que determinada matéria ou nota é publicada. Infelizmente, vejo diversos textos em que claramente o veículo se preocupou apenas em publicar a pauta antes dos demais – aí o conteúdo é servido ao internauta com informações equivocadas e erros ortográficos e gramaticais. É triste. Logicamente que ser ágil é importante, mas o nosso leitor sabe que até podemos noticiar algo depois de outros sites, só que aqui ele encontrará informações precisas, contextualização das histórias e textos bons. Ao menos batalhamos para isso.

Deixamos a harmonia entre gama de informações e qualidade textual em primeiro plano, você pode perceber que não publicamos matérias com menos de três parágrafos. Se vendemos a ideia de que o Portal Comunique-se é um veículo especializado em comunicação, não faz sentido darmos espaço para temas que o máximo que conseguiremos extrair será 600, 700 caracteres.

Esse modelo de trabalho tem dado certo?

AS: Sim, pois não somos simplesmente um dos principais portais de comunicação do país. Somos o maior! E isso não é prepotência de minha parte, são os dados de dois rankings online que mensuram a audiência dos veículos da web. No Alexa [plataforma da Amazon que diariamente atualiza seu ranking de domínios mais populares] estamos na frente [posição 503] do Meio e Mensagem [506], Adnews [953] e Portal Imprensa [1.995]. Pelo Similar Web, que apresenta o panorama mês a mês, seguimos na liderança: temos 220 mil visitadas contra 160 mil do Meio e Mensagem, 140 mil do Adnews e 60 mil do Portal Imprensa.

Antes de trabalhar no Comunique-se, atuou em outro lugar?

AS: Em termos jornalísticos, o Comunique-se é a minha primeira casa. Apesar de ter feito Uninove – e destaco que, no geral, a faculdade foi muito boa , costumo dizer que sou jornalista formado pelo Comunique-se. E espero que este seja o meu lar profissional por muito tempo. Entrei aqui em 2009 para fazer freelas de inserção de conteúdo na área do grupo voltada a Relações com Investidores. A oportunidade surgiu graças à indicação da Alice Carvalho, colega de turma lá na Uninove e que já atuava na empresa. Depois de ficar como freela por dois ou três meses, fui integrado à equipe de estagiários da Unidade de Monitoramento de Mídias, setor responsável por cuidar do produto de mailing, que a empresa oferece ao mercado. Onze meses depois, segui como estagiário, mas migrei para a equipe de redação do Portal Comunique-se. Em maio de 2011, quando os dois anos de estágio chegaram ao fim, fui contratado como trainee de redação. Em agosto do ano seguinte, já liderando o time responsável pelo conteúdo, veio a promoção para subeditor. Mudanças aconteceram e ganhei responsabilidades de gestão. Aí, passei a responder como editor desde fevereiro de 2014, cargo que ocupo atualmente, sendo responsável pelo Portal Comunique-se como um todo e pelo conteúdo do Prêmio Comunique-se. Então, o que a princípio era para ser temporário virou definitivo e com grande evolução. Acho que gostaram de mim! [risos]

Como é o dia a dia na redação do Portal Comunique-se? Como vocês criam as pautas?

AS: O slogan da GloboNews, “nunca desliga”, cai muito bem para a equipe do Portal Comunique-se. Passamos praticamente todos os dias e horários trocando informações e ideias que podem render pautas, além de freneticamente avaliarmos as sugestões que chegam por meio de assessorias de imprensa. Trabalhamos muito com essas pautas vindas de colegas assessores e também com assuntos que vimos em outro veículo ou em alguma rede social – aí tentamos sempre dar o nosso olhar diferenciado.

Em termos de pautas criadas por nós, reforço o olhar diferenciado, a expertise de enxergar e produzir além do óbvio e a qualidade para associar personagens interessantes a temas do momento. Exemplos recentes: a observação de perceber que a transmissão da Copa América pela TV Globo afetou a produção local das afiliadas; a ida da Tácila para a Argentina em um projeto para estudantes de comunicação, sendo que ela voltou com quatro pautas; as dicas estruturadas pela Jacqueline para quem deseja ter sucesso no YouTube;  e os 40 anos da versão brasileira da Playboy – além de falar da publicação, a Nathália foi entrevistar o maior colecionador da revista.

Como é a interação com os profissionais da área, já que muitos internautas costumam comentar as matérias que vocês publicam?

AS: É positiva. Por meio dos comentários publicados no portal, conseguimos melhorar matérias, corrigir informações e pensar em pautas diferenciadas. Pela audiência que temos, tenho consciência de que a parte da interação com o leitor pode ser amplificada. Devemos melhorar isso, mas as ações que iremos planejar passam pelo dilema abordado anteriormente: produzir conteúdo interessante, sem dar vez a pautas bobocas, de forma que o público possa participar cada vez mais do nosso conteúdo, até porque temos em mente que quem acompanha o nosso site é, antes de mais nada, colega da comunicação.

Que experiência mais legal você teve nesse tempo de editor do Comunique-se?

AS: A experiência mais legal e gratificante é a de fazer parte do time que forma o Grupo Comunique-se, fazer parte desse ambiente onde os resultados são cobrados sim, mas há um clima muito bom, de descontração e parceria entre as áreas, além da meritocracia, tendo como um dos diferenciais o histórico de formar líderes dentro de casa. Arrisco a afirmar que o Comunique-se é o reflexo de um Brasil que dá certo, onde um ajuda o outro, onde equipes batalham pelos melhores resultados, onde trabalho e alegria caminham juntos.

Como surgiu o Prêmio Comunique-se?

AS: O Prêmio Comunique-se nasceu em 2003, idealizado pelo Rodrigo Azevedo [fundador e presidente do Grupo Comunique-se. Azevedo lançou o portal em 2001 para reunir notícias sobre a mídia]. Ele pensou na premiação como forma de valorizar os grandes profissionais da área e, além disso, servir como ambiente de reencontro para a galera que enfrenta rotinas frenéticas pelas mais diversas redações do país.

De que forma vocês do jornalismo se envolvem na organização e cobertura do prêmio?

AS: Para o Prêmio Comunique-se, atuamos em várias frentes. Reportagens audiovisuais no tradicional almoço de lançamento e na noite de gala da premiação; transmissão ao estilo rádio ao decorrer das entregas dos troféus; matérias destacando os indicados e finalistas de cada uma das 12 categorias; textos para campanhas de e-mail marketing e para a revista produzida especialmente para os convidados do evento. No pós-Prêmio, preparamos reportagens com os destaques da edição.

Vocês possuem um projeto, o “Correspondente Universitário”, que dá oportunidade para o estudante de Jornalismo cobrir eventos da área e publicá-los no portal de vocês, o que é muito bom para os alunos, em termos de portfólio. Como surgiu essa ideia?

AS: Justiça seja feita, a ideia não foi minha, apenas batizei o formato de publicar matérias feitas por estudantes de jornalismo de “Correspondente Universitário”. Os responsáveis pela idealização do projeto foram os próprios alunos que começaram a nos enviar conteúdo, isso lá pelo começo de 2013. E dois dos primeiros a serem “correspondentes universitários” do Portal Comunique-se foram o Eduardo Rodrigues, ex-aluno de certa “professora-repórter-blogueira”e que hoje é repórter da afiliada da TV Globo no Rio Grande do Norte [Eduardo Rodrigues foi meu aluno da FAPSP – Faculdade do Povo], e a Kelly Mantovani, que atualmente integra a equipe do blog Mural, da Folha de S. Paulo.

Como é a relação do Comunique-se com os estudantes de Jornalismo?

AS: O projeto ‘Correspondente Universitário’ tem auxiliado de modo intenso a relação do Portal Comunique-se com futuros jornalistas. Temos, inclusive, recebido textos e imagens bem interessantes do Kaique Dalapola e da Beatriz Sanz [também meus alunos na FAPSP]. Vejo, ainda, que o nosso conteúdo é disseminado em sala de aula por professores de faculdades de comunicação. Graças à relevância junto aos mestres, só em 2015 já participei da semana de comunicação da Unifieo, recebi turma de alunos do campus da Unasp em Engenheiro Coelho [cidade do interior paulista] e estou concedendo esta entrevista a uma prestigiada acadêmica! [bondade do Anderson rs]

Vocês têm uma seção que oferta vagas de emprego e estágio. Já souberam de pessoas que conseguiram se empregar por esta seção?

AS: Ao longo do tempo, a nossa área de ‘Empregos’ se fortificou em ser o verdadeiro elo entre estudantes e profissionais da comunicação com o mercado de trabalho. Muitas pessoas tomam conhecimento de oportunidades de trabalho por meio do portal. O caso mais emblemático foi o do Guilherme Prado, ex-gerente de comunicação do Corinthians. Ao participar de um seminário realizado pela divisão de cursos do Grupo Comunique-se, ele revelou que conseguiu sua primeira oportunidade graças a uma vaga divulgada no nosso site.

Há oportunidades para quem quer estagiar em jornalismo no Comunique-se? Se sim, o que o aluno deve fazer?

AS: No momento, infelizmente, não há vagas em aberto para estudantes de jornalismo no Comunique-se, seja no Portal ou em outros setores da empresa. Independentemente disso, o conselho que é fica é: apresente-se para a equipe, entre em contato com a gente, envie textos… Assim, o vínculo vai sendo criado. E contato é sempre bem-vindo na profissão.

Por que escolheu o Jornalismo como profissão?

AS: Quando estava no ensino médio, tinha interesse em cursar Geografia, pois sempre me interessei por questões relacionadas à geopolítica. Tudo se encaminhava para isso, até o momento em que liguei para a produção da Rádio Globo e pedi para ir ao estúdio da emissora. Era ouvinte do programa ‘Globo Cidade’, apresentado por Osvaldo Pascoal. Quando cheguei à redação, foi amor à primeira vista. Vi como funcionava um veículo de comunicação e decidi que queria trabalhar em um. Aí, de um futuro geógrafo, parti para o curso de comunicação social.

Como você avalia nosso Jornalismo hoje? Quais são nossos principais erros e acertos?

O jornalismo brasileiro segue em alta, apesar da crise econômica que atinge diretamente o mercado da comunicação. Reportagens interessantes e bons profissionais surgem dia após dia, com projetos que geralmente acabam sendo noticia no próprio Comunique-se. O que me incomoda é acompanhar a proliferação de sites e fan pages que não fazem outra coisa a não ser criticar quem justamente faz reportagem. E, novamente, a política geralmente está envolvida. O repórter, baseado em documentos e declarações, publica tal denúncia. É o que basta para canalhas abusarem de análises mequetrefes, geralmente colocando em xeque as competências e intenções do jornalista em questão. O pior? Esses canalhas têm fãs, até com profissionais da mídia endossando suas críticas. É lamentável. É inadmissível. Apesar de tudo, sou grande entusiasta do jornalismo nacional, creio que a qualidade sempre irá se sobrepor.

Quem são os jornalistas que você admira?

AS: Até pelo trabalho que desenvolvo no Comunique-se, tenho o olhar de admirar diferentes jornalistas de áreas e funções distintas. Em qualidade de texto analítico, não há ninguém do mesmo nível que o Augusto Nunes. Na função de executivo e comunicador, sou fã do mestre Marcus Aurélio de Carvalho. Nas reportagens, gosto demais dos trabalhos de Rodrigo Rangel, Vinícius Dônola, Leonencio Nossa e Roberto Cabrini. E, claro, não posso deixar de externar a minha admiração pelo grande mestre Moacir Japiassu, colunista e romancista impecável.

 Que qualidades um estudante de Jornalismo precisa ter para conseguir um estágio?

AS: Caráter e ética acima de tudo. A qualidade do texto e de outras atividades jornalísticas podem ser treinadas e aprimoradas com o tempo, mas o jornalista – mesmo na fase em que se é estudante – deve ter o pensamento de que os valores éticos precisam sempre imperar no dia a dia da profissão.

Deixe um conselho para quem quer vencer na área de jornalismo.

AS: O principal conselho é o próprio profissional avaliar se mantém o brilho nos olhos quando recebe uma pauta especial, na ocasião em que entrevista um personagem interessante e o momento em que publica um furo. Se esse ânimo se perder, não adianta a pessoa insistir. Jornalismo é lugar para quem, apesar das dificuldades enfrentadas pelo mercado de comunicação no país e no mundo, é apaixonado pelo que faz. Além do conselho, tenho uma reclamação. Vejo muito foca querendo opinar sobre tudo e sobre todos, principalmente a respeito de políticos e partidos, antes mesmo de ter domínio sobre o idioma. Há gente que elogia, critica e paga de sociólogo antes mesmo de aprender a escrever corretamente. Isso pega muito mal.

Crédito das fotos: Nathália Carvalho e Divulgação/Prêmio Comunique-se

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