O dilema das aspas – Parte II

*Patrícia Paixão

Outro dia publiquei um post sobre uma dúvida recorrente dos estudantes de jornalismo: o uso do ponto final dentro ou fora das aspas, quando se vai transcrever as falas dos entrevistados.

Hoje vamos falar sobre outros dilemas: que tipo de informação colocar dentro das aspas e como editar a fala do entrevistado.

Primeiramente, é preciso destacar que reproduzir algumas declarações da fonte é essencial para conferir credibilidade ao texto jornalístico. Textos em que o jornalista só escreve nas palavras dele o que o entrevistado disse (parafraseando), sem colocar algumas falas da fonte entre aspas, podem gerar dúvidas no leitor sobre a veracidade da entrevista, além de serem desinteressantes, já que a riqueza está em dar voz ativa aos personagens do fato.

Mas não é qualquer informação que deve entrar entre aspas. Apenas as frases mais impactantes, expressivas e espontâneas devem ser reproduzidas, conforme preconiza o Manual de Redação da Folha de S.Paulo, nossa antiga casa.

Ou seja, nada de colocar dados básicos demais entre aspas, como vejo alguns caixas d´água (alcunha “carinhosa” que dou a alguns dos meus aluninhos de jornalismo) fazendo. Exemplos:

“O evento começa às 8h e termina às 17h”, informou a professora organizadora do congresso, Mariana Duarte.

Ou

“Nasci em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo”, conta o engenheiro Osvaldo da Silva.

O certo seria colocar entre aspas informações como estas:

“É a primeira vez no país que um evento reunirá nomes consagrados da nossa sociologia, como Fulano, Sicrano e Beltrano. Será uma oportunidade valiosa para discutir o papel atual das políticas sociais no Brasil”, explicou a professora organizadora do congresso, Mariana Duarte.

Ou

“Tive uma infância muito dura, passava dias apenas com água e fubá. Brincadeira não havia não. Não sobrava tempo pra isso. Tinha que ajudar minha mãe no trabalho. Foi difícil”, conta o engenheiro Osvaldo da Silva.

Como editar

No momento de editar as declarações a serem colocadas entre aspas, algumas dicas também são importantes, a começar do tamanho das transcrições. As falas dentro das aspas não devem ser extensas. Como diz o jornalista Leandro Fortes, em seu livro O segredo das redações, “repórter que reproduz a fala do entrevistado em longas aspas ou é preguiçoso ou é ruim mesmo”.  Então, se as falas que você for usar ultrapassarem cinco linhas, você precisa cortá-las, e sem deturpar o que o entrevistado falou.

Na reprodução da declaração textual, é importante ser fiel ao que a fonte disse, mas você deve eliminar vícios de linguagem e repetições, como “né e “daí”. Corrija também os erros de português do entrevistado. Em geral, não expomos a nossa fonte, a não ser que exista um objetivo por trás.

Se for manter erros ou uma palavra ou frase mais chula na declaração, use a expressão latina “sic” – que quer dizer “assim mesmo” – entre parênteses, logo após o erro, frase ou termo de baixo calão.

Exemplos:

“Não adianta criar imposto a dar com pau (sic). O governo tem que ser coerente”, afirma o economista Fulano de Tal…

“O governador é um desgraçado (sic). Suas medidas têm acabado com o nosso estado”, disse o comerciante Fulano de Tal…

O uso do “sic” serve para mostrar ao leitor que a fonte disse aquele termo, frase ou expressão exatamente daquela maneira, ou seja, que não fomos nós, jornalistas, que usamos aquela/aquelas palavras ou cometemos aquele erro.

Mas nada de sair botando “sic” em todas as declarações, feito um psicopata! Use o recurso com moderação :p

Se uma ideia que o entrevistado falou ficou incompleta, mas pode ser deduzida, você pode completar a frase com o seu texto (desde que não mude o sentido do que ele disse) , para ficar mais claro ao leitor. Vale também suprimir um trecho ou alterar a ordem do que foi dito, desde que, de novo, se respeite o conteúdo da fala.

O Manual de Redação da Folha também adverte sobre o uso de verbos vinculados ao sujeito, nas declarações textuais. Segundo o Manual, é errado escrever, por exemplo: Agripino Viso declarou que “vi com meus próprios olhos”.

Também é errado escrever: Agripino Viso declarou que “viu com seus próprios olhos”.

O correto seria: “Vi com meus próprios olhos”, disse Agripino Viso.

Ou:

Agripino Viso disse ter visto com seus “próprios olhos”.

Ou ainda:

Agripino Viso disse: “Vi com meus próprios olhos”.

Anotou todas as dicas aí no seu bloquinho de notas? Então, bora começar a aplicá-las nos seus textos jornalísticos 🙂

6 ideias sobre “O dilema das aspas – Parte II

      1. Carlos Alex

        Excelente!
        Sobre o “sic” eu já tinha uma noção, mas o verbo vinculados ao sujeito; estive vendido em alguns momentos de minha vida.Não estarei mais! Ótimas dicas Patrícia… O link para a postagem “uso do ponto final dentro ou fora das aspas” está dando para essa mesma postagem (parte II). vou continuar procurando a parte I (rsrsrs). São essas dicas que nos ajudam na hora de uma correção e resto de vida. Parabéns pelo blog e livros. Já adquiri Jornalismo Policial, muito bom por sinal. Próxima meta: Mestres da Reportagem!

        Curtir

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