ENTREVISTA COM ELIANE BRUM: “A pergunta é uma forma de controle”

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*Patrícia Paixão

A data era 13 de dezembro de 2011. Não tem como esquecer. Realizei o sonho de entrevistar aquela que é a mulher que mais admiro no jornalismo brasileiro.

Foi uma tarde extremamente prazerosa, trocando ideias sobre as delícias e dilemas da profissão que amamos.

A entrevista que fiz com Eliane Brum foi publicada em 2012 no livro “Mestres da Reportagem“, que produzi com meus alunos de jornalismo da FAPSP (Faculdade do Povo).

E como nem todo mundo tem acesso à obra, resolvi que chegou o momento de dividir com todos os internautas esta preciosidade.

Costumo perguntar nas minhas primeiras aulas com as turmas de jornalismo quem são os profissionais que eles admiram. É uma chance de saber em quem eles se inspiram e entender um pouco sua visão de mundo. Raríssimos citam aqueles que são repórteres de verdade, que se embrenham Brasil afora contando a vida de injustiçados, ignorados ou esquecidos. Normalmente, lembram só dos rostinhos famosos, que apresentam programas na TV. Poucos alunos ingressantes conhecem Eliane Brum.

Depois que cobro os livros da diva em prova (em especial “O Olho da Rua – Uma repórter em busca da literatura da vida real” e “A vida que ninguém vê” – Obras SENSACIONAIS que, na minha opinião, são obrigatórias para todo estudante de jornalismo), uma legião de fãs de Eliane começa a ser formada. E muitos confessam: “Tenho vergonha de só ter conhecido essa jornalista maravilhosa agora”.

Então, se você é um desses que não conhecem bem Eliane Brum ou se é apaixonado pela jornalista como eu e, por isso, não perde nenhum texto sobre ela, segue a entrevista que fiz com a repórter em 2011. De lá pra cá, algumas coisas mudaram, como o veículo em que Eliane publica suas colunas. Agora ela está na edição brasileira do jornal espanhol El País. Mas a entrevista permanece atual para conhecer a trajetória dessa grande repórter e entender seu “fazer jornalístico”. Confira!


 

Para a repórter Eliane Brum, a garantia da boa reportagem está no saber “escutar”

Difícil sair da condição de fã para entrevistadora quando se está diante de Eliane Brum. São raros os jornalistas que abdicam das pautas convencionais, com celebridades e olhares elitizados e viciados, para passar dias, semanas e até meses levantando a vida de brasileiros que são esquecidos por seu próprio país e vendo delicadezas e coisas especiais no cotidiano de pessoas comuns. Eliane faz isso muito bem desde o início de sua trajetória. “Desconstrutora” de pautas e contra a lógica do “homem que morde o cachorro” (uma das máximas dos critérios jornalísticos de noticiabilidade), focaliza seu trabalho na “vida que ninguém vê”, título da coluna que a jornalista tinha no jornal Zero Hora em 1999, com crônicas-reportagens sobre a vida de anônimos da região sul. As crônicas lhe renderam o Prêmio Esso de Jornalismo e acabaram se transformando em um livro, de mesmo título, vencedor do prêmio Jabuti de 2007.

Eliane não limitou sua experiência a seu estado, o Rio Grande do Sul. Aventurou-se pelo território nacional, revelando “Brasis” desconhecidos. Percorreu Roraima de norte a sul e leste a oeste, procurando entender a guerra entre índios, ONGs, arrozeiros e políticos pela disputa da terra indígena Raposa-Serra do Sol; andou quilômetros e quilômetros a pé, afundando em lama, no sul do Amazonas, para falar das mazelas sociais geradas pela nova corrida do ouro na região; embrenhou-se pela floresta amazônica para entender o cotidiano das “pegadoras” (como são conhecidas as parteiras naquele local); conviveu com os moradores da Vila Brasilândia, descobrindo belezas e poesia no dia a dia de um dos bairros mais violentos de São Paulo à época; retratou a vida de mulheres que perderam vários filhos para o tráfico de drogas; dentre muitas outras histórias.

Quem conhece a jornalista pessoalmente, sabendo do seu currículo, fica impressionado com sua humildade. Aposto que nenhuma das pessoas que estavam naquela tarde do dia 13 de dezembro de 2011 no Fran’s Café da Benedito Calixto, na zona oeste de São Paulo (local da entrevista), poderia supor que aquela mulher que chegou de maneira tímida e simples ao local, com voz baixa, sorriso sereno e olhar acolhedor, é a jornalista mais premiada do Brasil, como aponta a pesquisa feita pelo Instituto Corda em parceria com o Jornalistas&Cia. Eliane ocupa o primeiro lugar do ranking, com mais de 40 prêmios nacionais e internacionais.

Nascida em Ijuí, no noroeste do RS, em 1966, a gaúcha escolheu o Jornalismo num ato de impulsividade. Em janeiro de 1984, chegou a prestar vestibular para Biologia na Unicamp, mas, em julho, acabou se inscrevendo para Jornalismo na PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul). “Minha intenção era fazer Informática, mas pensei, na hora, que talvez o curso tivesse muita matemática, e acabei me inscrevendo para Jornalismo, uma graduação que nunca antes tinha cogitado. Foi um impulso que aconteceu ali, no pátio da universidade, quando preenchia a ficha de inscrição para o vestibular”.

Seis meses depois, Eliane passou no vestibular para História na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e começou a cursar a graduação em paralelo com a de Jornalismo.

Levou o curso de Jornalismo sem se interessar muito pela área. Considerava-se tímida demais para trabalhar como repórter e não conseguia enxergar “pessoas” nas páginas dos jornais. “O jornal era uma coisa muito seca”, lembra. Quando, quase no final do curso, por intermédio de um professor, descobriu que as pessoas, com seus sentimentos, defeitos e qualidades, podiam ser encontradas nos textos de mestres como Joel Silveira, José Hamilton Ribeiro, Audálio Dantas e Ricardo Kotscho, se apaixonou pela reportagem.

Sua primeira experiência na área foi fruto de uma premiação. Venceu um concurso que envolveu as faculdades de Comunicação da região Sul do país e ganhou, com ele, um estágio no tradicional Zero Hora, que acabou levando a jornalista a largar o curso de História. Terminado o período de estágio, foi chamada para voltar a trabalhar no jornal, dessa vez como jornalista, e ficou por 11 anos. Só deixou o impresso em 2000 para trabalhar como repórter especial da Época.

Foi na revista que fez uma matéria que mudou significativamente sua vida: acompanhou os últimos 115 dias de vida de uma senhora que estava com um câncer incurável. A reflexão sobre o lado fugaz da vida em face da inevitabilidade da morte levou-a a “reapropriar-se de seu tempo”, buscando um estilo de trabalho mais independente, que lhe proporcionasse mais liberdade e experimentação. Desde março de 2010, então, o vínculo da jornalista com a Época limita-se a uma coluna semanal na Internet e a algumas reportagens que ela faz esporadicamente, por motivação própria.

Amante da literatura, Eliane também enveredou pelo caminho de escritora. Além de A vida que ninguém vê (Editora Arquipélago, 2006), é autora de outros dois livros-reportagem (Coluna Prestes: O avesso da lenda, Editora Artes e Ofícios, 1994, e O olho da rua: uma repórter em busca da literatura da vida real, Editora Globo, 2008) e de uma obra de ficção: Uma duas (Editora LeYa, 2011).

Também trabalhou na área de cinema, tendo sido codiretora de dois documentários: Uma história severina (2005) e Gretchen filme estrada: a última turnê e a primeira campanha política da rainha do rebolado (2010).

Nesta entrevista, ela revela um pouco dos segredos de seu “fazer jornalístico”. E explica por que defende que saber escutar é mais importante do que saber perguntar: “A escuta é o instrumento que vai dar para gente a possibilidade de chegar mais perto das verdades todas. E escutar é mais do que ouvir, é algo que se faz com todos os sentidos. É perceber o ritmo, o tom, a espessura das palavras e do silêncio, assim como do ambiente onde a vida que contamos se desenrola”.

O que te levou a escolher o Jornalismo? Como foi seu ingresso na área?

Eliane Brum: O que eu posso identificar hoje analisando minha infância é que eu sempre fui muito mais “escutadeira” do que faladeira, sempre gostei muito de ouvir e ler histórias. Quando eu aprendi a ler, os livros passaram a ter uma importância muito grande para mim. Eu tinha uma percepção da infância que era muito árida. Era uma criança triste e fui ficando mais alegre com o tempo. Sou uma adulta mais contente do que quando era criança. Os livros me deram a possibilidade de “existir” de uma outra maneira. Então, me tornei uma leitora compulsiva. Me trancava no quarto, não queria comer, só queria ler. Minha primeira paixão foi pela leitura. Aos nove anos, também por conta dessa aridez que eu sentia na vida, por causa da sensação de dor, limite, de tédio até, comecei a escrever. Mas eu nunca gostei de ler jornal, sempre gostei de ler literatura, porque eu tentava ler jornal e eu não enxergava as pessoas. Na minha época de infância e adolescência, o jornal era uma coisa muito seca. Quando eu fui fazer vestibular, minha primeira escolha foi para Biologia, depois eu fiz História. Entre esses dois vestibulares, resolvi também me inscrever no curso de Informática, mas não sei o que aconteceu na hora, pois, em vez de marcar Informática nas opções, eu coloquei Jornalismo [risos]. Então, eu fazia História na Universidade Federal do Rio Grande de Sul e Jornalismo na PUC, fazia as duas juntas. No período em que eu fazia História – que foi um curso bem mais importante pra mim do que o próprio curso de Jornalismo –, também percebia uma História muito árida, sem gente. Naquele momento, esse curso não dava enfoque nos personagens dos fatos, na vida cotidiana. Eu não estava feliz em nenhum dos dois cursos e tinha a certeza de que eu não servia para ser jornalista, porque eu era muito tímida, não me imaginava entrevistando ninguém, eu achava que aquilo não tinha nada a ver comigo. Mesmo assim resolvi me formar, porque já tinha andado um bom caminho, mas tinha decidido atuar em História, fazer algum tipo de pesquisa, talvez estudar algum momento da Idade Média. Aí apareceu um professor que foi muito importante pra mim. Grandes professores mudam a vida da gente e eu tive essa sorte. Esse professor, que conheci no último semestre da faculdade de Jornalismo, tinha sido um grande repórter e depois virou professor. Naquele tempo havia uma lei que não permitia que fizéssemos estágio em veículo de comunicação, era proibido. Então a gente fazia uma disciplina de estágio na faculdade e foi nela que eu encontrei o Leonam [Marques Leonam Borges da Cunha, que leciona Redação Jornalística na PUC-RS]. Ele tinha uma paixão muito grande pela reportagem. Trazia para gente reportagens maravilhosas do Joel Silveira, Ricardo Kotscho, José Hamilton Ribeiro, Audálio Dantas. Quando entrei em contato com aqueles textos, fiquei empolgada. Vi que era possível falar sobre pessoas no texto jornalístico. Só fui conhecer o new journalism [estilo de narrativa jornalística com toques literários, que surgiu nos EUA na década de 60] e seus principais representantes, como Gay Talese, Joseph Mitchell, John Hersey e Truman Capote, quando já tinha uns dez anos de profissão, porque naquele tempo a gente não tinha muito acesso. Algumas pessoas conseguiam os livros desses escritores comprando em sebos e guardavam os exemplares como uma relíquia. No final da faculdade, o Leonam pediu que eu fizesse uma grande reportagem, e eu escolhi falar sobre filas, todas as filas que a gente entra desde que nasce até o dia em que morre. Era um tema que, para imprensa da época, não tinha nada a ver. O Leonam achou ótimo. Fiz a matéria, escrevendo do jeito que eu gostava, destacando as coisas que me interessavam. Ele adorou, fiquei superfeliz. Aí aconteceu o primeiro Set Universitário, um concurso que envolve as faculdades de Comunicação da região sul do país, promovido pela Faculdade de Comunicação Social [Famecos] da PUC-RS. Uma amiga minha me inscreveu no Set e eu ganhei na categoria Redação Jornalística. E aí já começou uma coisa que foi muito frequente no começo da minha carreira como repórter que era o questionamento do meu texto. A comissão julgadora chamava a gente para avaliar o trabalho. Quando entrei, os jornalistas da comissão disseram: “O que tu faz não é jornalismo”. E os publicitários disseram: “É jornalismo sim” [risos]. Não sei se havia mais publicitários que jornalistas na comissão, ou se os publicitários eram mais convincentes, o fato é que eu ganhei o concurso. E por outra sorte o prêmio era um estágio no Zero Hora, que até hoje é o principal jornal do sul do país. Fiz estágio nas editorias de Polícia e Geral e fiquei até o final do período dele, isso era mais ou menos julho de 1988. Em novembro, quando teríamos as primeiras eleições, no período da redemocratização, o Zero Hora me chamou para voltar a trabalhar lá. Voltei para o jornal e fiquei 11 anos. Lá eu descobri que ser repórter é a melhor profissão do mundo. Foi mais ou menos assim que me tornei jornalista, devido a uma série de circunstâncias mais ou menos aleatórias.

E foi no Zero Hora que você começou com a sua linha de fazer reportagens sobre anônimos, com esse seu jeito de ver coisas bonitas na vida de pessoas comuns e em situações que normalmente não são retratadas pela grande imprensa, algo que foge dos chamados critérios de noticiabilidade. Por que você fez essa opção?

EB: Como quase tudo na minha vida, isso começou como uma opção não consciente. Nunca me interessei pelo clássico do jornalismo, que é aquela máxima do “homem que morde o cachorro”, da busca do fato inédito. Sempre gostei de ouvir as histórias das pessoas comuns. Sou do interior do Rio Grande do Sul, de uma cidade chamada Ijuí, no noroeste do estado, mas uma parte grande da minha família, que é muito determinante na minha vida, é da zona rural, de um lugar chamado Barreiro. Meu pai pertence à primeira geração alfabetizada da família. Meus tios eram pequenos agricultores, alguns deles muito pobres. Eles tinham problemas no inverno, às vezes não tinham agasalho suficiente, era uma vida bem dura, de agricultores que viviam da roça mesmo. A gente ia muito para lá e eu sentava e ficava ouvindo as histórias deles, adorava aquilo. Quando eu passava pela cidade – naquela época só tinha um edifício por lá – sempre ficava pensando sobre as pessoas que viviam lá dentro, o que fazia elas sofrerem, chorarem, sorrirem, como elas sonhavam. Então, desde pequena, me interessava muito por essa vida cotidiana, por essas histórias. Quando fui ser repórter no Zero Hora e me davam uma pauta para fazer, naturalmente eu, em vez de focar no personagem principal, fazia o secundário, quer dizer, o “supostamente” secundário. Ou então eu ia cobrir uma coisa e acabava vendo o que estava por trás daquela coisa. Eu peguei bem a época da pirâmide invertida e de um monte de regras para o texto. A gente tinha o copidesque que formatava todas as matérias. Eu não conseguia me adequar àquilo, achava muito chato e brigava muito. A primeira matéria minha que foi publicada da forma como eu escrevi foi sobre a inauguração do primeiro McDonald’s de Porto Alegre. Isso era em 1989, num plantão de domingo. Eu trabalhava na editoria Geral e me deram três pautas. Uma delas dizia que eu que deveria ir ao McDonald’s apurar quantos big macs havia sido vendidos, pegar alguém para comentar a inauguração, aquela coisa básica, previsível. O McDonald’s estava justamente se instalando num local que é a praça mais tradicional de Porto Alegre, a Praça da Alfândega, onde fica a feira do livro de Porto Alegre. Lá havia uma instituição, que talvez todas as cidades brasileiras tenham, que é a dos velhinhos da Praça da Alfândega – um grupo de aposentados que ficava ali falando de política, conversando sobre a vida, olhando bunda de mulher. Eu fiquei pensando no que eu poderia fazer para encontrar uma boa história, porque é claro que eu não ia contar o número de lanches vendidos [risos]. Uma das coisas que eu fiz – e que eu faço até hoje, pois nunca chego invadindo a cena que eu vou contar na matéria, sempre fico num canto – foi ficar de lado, só observando aqueles senhores. Percebi que, pela primeira vez, alguma coisa tinha conseguido calar os velhinhos, porque eles não se calavam sobre nada, eles falavam muito e sobre tudo. Mas daquela vez eles estavam praticamente mudos e não em roda como costumavam ficar. Estavam olhando para o McDonald’s como se ele fosse uma nave alienígena. Aquilo me chamou muito a atenção, então, o que eu fiz foi sentar com eles e ficar também observando, vendo se faziam algum comentário. Depois escrevi sobre aquilo que eu observei e ouvi. Na verdade, nem entrei na inauguração do McDonald’s. Dei sorte porque naquele dia não tinha acontecido nada de relevante na cidade e o editor que estava de plantão era um cara mais aberto. Publicaram minha matéria na íntegra. E aí deu uma repercussão superboa, as pessoas gostaram daquele jeito diferente de contar uma história, do enfoque que eu dei. Não foi uma matéria sobre a inauguração do McDonald’s, e sim sobre uma mudança econômica e sociopolítica que estava ocorrendo naquele local, o estranhamento dos velhinhos diante disso. Dei uma amplitude ao assunto. Acho que jornalismo é isso. Depois desse episódio, devagarinho, fui conquistando meu espaço e, então, esse modo diferente de contar as coisas começou a se tornar uma característica minha e as pautas que os editores queriam que fossem diferentes já começaram a vir pra a minha mão. Quando o Augusto Nunes assumiu a direção da redação do Zero Hora, uma fase ainda melhor começou pra mim, porque ele trouxe para o jornal uma visão de jornalismo de grandes reportagens, que no Brasil tinha sido implementada pela Realidade [revista que circulou entre 1966 e 1976, pela editora Abril, que se destacava pela ousadia do projeto editorial e gráfico, com grandes reportagens e belas imagens, considerada um divisor de águas no jornalismo brasileiro], e era colocada em prática nos Estados Unidos pela New Yorker [revista norte-americana, que popularizou o new journalism], que tem muito mais a ver comigo.

O seu texto é poético e inteligente, cada palavra é encaixada estrategicamente na frase. Você gosta muito de metáforas e sabe trabalhar bem com elas. É um texto que emociona, cativa. De que forma você foi construindo esse estilo?

EB: Foi de forma intuitiva. O que me ajudou foi que eu tive muito contato com a literatura e isso contribuiu muito. Hoje eu racionalizo tudo o que faço, mas no início da minha carreira eu ia apenas reagindo e escrevendo as coisas em que eu acreditava, sem maiores orientações. Eu escrevo como uma leitora. Quero que as pessoas consigam enxergar o que eu enxergo. Mas também é importante destacar uma coisa: você pode ser um prêmio Nobel de literatura, mas não vai conseguir construir uma boa reportagem se não fizer uma grande apuração, se não tiver ralado muito, porque na reportagem não há milagre de texto. Na ficção tu cria, mas na reportagem tu não pode criar. Nesse sentido, tu precisa saber exatamente como é o cheiro daquilo que você pretende retratar, que tipo de móvel é aquele, que idade ele tem, se aquela pessoa fuma, se o esmalte dela é vermelho paixão, se ele está descascado. É essa observação que faz tu escrever um bom texto. Eu defendo que o cheiro, a textura das coisas, os gestos são tão importantes quanto as palavras. O que não é dito é tão importante quando aquilo que é dito. Tudo é informação. Às vezes, o jornalista pensa que informação é somente a palavra dita, mas, na verdade, isso é uma pequena parte das coisas. A realidade é uma coisa muito mais complexa, e a gente, como jornalista, tem a obrigação de trazer essa complexidade para o leitor. Quando comecei a receber os primeiros elogios, falavam muito do meu texto, mas eu sempre tentei mostrar para as pessoas que o texto é só a última parte do meu trabalho, porque eu ralo muito antes de escrever, faço muita apuração. Eu pergunto tudo, checo tudo, apuro cada detalhe. Isso faz com que eu tenha muita informação para contar bem a história, e o leitor tem prazer com a leitura, porque ele tem tudo no texto: o cheiro, o gosto, o sentimento. Isso é fundamental.

No livro O olho da rua, você destaca que a presunção do repórter, a partir da visão de mundo dele, é um grande pecado quando se está fazendo uma reportagem. Você tem alguma dica para quem está começando, como os meus alunos, para não ser presunçoso, ou seja, para evitar o olhar viciado sobre uma questão?

EB: Eu acho que a primeira coisa importante é complicar a pauta. Quando a gente pensa numa pauta, é natural que a primeira ideia seja algo que já vimos, algo baseado na nossa visão de mundo. Portanto, essa pauta tu deve colocar no lixo. Talvez a segunda ideia tu também coloque no lixo, precisa ir complicando. Se tu vai para uma favela, por exemplo, como eu fui na da Vila Brasilândia [reportagem Um país chamado Brasilândia, republicada no livro O olho da rua], tente contar a história de uma maneira que não trate apenas da violência que existe lá, porque isso todo mundo já contou. É claro que tu terá de falar de alguma forma da violência, porque isso faz parte daquele mundo, mas precisa complicar essa pauta para chegar mais perto das verdades todas daquele lugar. E como é que tu complica a pauta? Pensando em questões que outras pessoas não pensaram. Por exemplo: se só existe violência lá, como a imprensa diz, por que todo mundo não se mata, por que não há um suicídio coletivo na Vila Brasilândia? Essa foi a minha pergunta complicadora nessa matéria: o que faz a vida seguir num lugar tão violento, onde a sobrevivência é um desafio cotidiano? Qual é a delicadeza que faz a vida ser possível naquele lugar? Com esses questionamentos tu complica a pauta. Tu vai ao local e estuda bastante o ambiente e as pessoas para poder ter a lucidez e a tranquilidade de botar tudo aquilo que você tinha pensado inicialmente no lixo. Você descobre que tinha uma visão equivocada daquele mundo. E eu acredito que o ápice da reportagem surge de um “não saber”. Apesar de todo teu estudo, você tem de partir de um não saber, tem que partir de uma ignorância, por que um pecado muito grande é acreditar que a tua ignorância é a sabedoria. Se tu vai com a tua ignorância acreditando que é sabedoria, tu manipula a realidade para comprovar tua ignorância, e aí tu não apura nada, só embala tua ignorância em formato de reportagem. Tu tem de partir do princípio que não sabe nada daquele mundo pra descobrir que mundo é aquele. Quando eu chego para fazer uma reportagem, seja onde for, eu peço para as pessoas me mostrarem seu mundo, e esse é um começo da apuração. Analiso o que essa pessoa me mostra e também aquilo que ela não me mostra. Se eu tenho tempo, eu fico um dia só escutando as pessoas para entender como é a lógica daquele lugar. Eu faço esse movimento de me esvaziar dos meus preconceitos, dos meus julgamentos, para poder ir vazia ou, pelo menos, o mais vazia possível em direção ao mundo do outro e ser preenchida por aquele mundo. Uma coisa muito importante é que a gente tem de ter muita certeza de que não estamos agindo como juízes. Jornalista não existe para julgar ninguém, existe para escutar. Então, nesse sentido, a gente tem de escutar aquele cara que é considerado um herói com o mesmo tratamento que a gente vai ouvir um bandido. Aliás, a nossa obrigação é mostrar que não existem heróis, que todos os heróis são bem humanos, com qualidades e defeitos.

Ainda em O olho da rua, você defende que saber escutar é mais importante, para o jornalista, que saber perguntar. Por que tem essa opinião?

EB: Porque tudo é informação quando tu faz uma matéria. As palavras que as pessoas escolhem para falar contigo são importantes, assim como a entonação que elas dão ao falar, os momentos em que elas se calam, enfim. Escutar de verdade é mais do que ouvir. É perceber o ritmo, o tom, a espessura das palavras e do silêncio. Não interromper as pessoas enquanto elas falam, mesmo que elas estejam falando numa velocidade que para gente não é a ideal ou que estejam sendo pouco claras ou não estejam dizendo aquilo que gostaríamos que elas dissessem. Isso tudo é informação sobre aquela pessoa e sobre a história que ela conta. E é sempre bom ser surpreendido na reportagem.

No prefácio de outro livro seu – A vida que ninguém vê –, o Marcelo Rech, que foi diretor de redação do Zero Hora, diz que você tem uma empatia enigmática com os personagens de suas matérias, uma força que leva as pessoas a se abrirem para você. Que força é essa? Qual é o segredo para que as pessoas abram a vida delas para você?

EB: Não tem segredo nenhum na verdade. Eu sou muito clara em dizer para a fonte quem eu sou e o que eu vim fazer, e eu acho que essa honestidade é o que conta. Há uma linguagem invisível que estabelecemos com as pessoas quando somos realmente sinceros e honestos. As pessoas percebem e agem de maneira sincera e honesta contigo também. É um pacto silencioso que se estabelece. Mas também respeito se elas não quiserem falar comigo e não fico insistindo. Ninguém é obrigado a me dar entrevista.

Então, você é contra a técnica de ficar insistindo, tentando arrancar a informação da fonte?

EB: Sim, eu não arranco nada de ninguém. A pessoa me conta sua história se ela quiser. Já faz bons anos que eu não sofro pensando: “o que vou fazer se fulano não falar comigo?” Se fulano não falar comigo, está resolvido, não falou e pronto. É claro que essa postura não é muito popular nas redações, tudo tem um custo e eu acho que a gente tem de assumir esse custo. No meu caso, deixo as pessoas muito à vontade. Vou aproveitar esse gancho para falar um pouco de ética, porque acho que tem uma ética envolvida nessa questão. A ética no jornalismo é uma das questões mais complicadas que existe e não há uma resposta fácil para ela, porque cada matéria te coloca em confronto com outras coisas, com outros desafios, com limites diferentes e tu tá sempre se perguntando se tá fazendo tudo certo. Eu fui construindo o meu próprio limite ético. Estabeleci para mim uma coisa muito simples: se me dão uma pauta ou se eu penso numa pauta, antes de sair e bater na porta da fonte, eu me coloco no lugar dela. Penso se eu responderia àquela pergunta que pretendo fazer, se eu abriria a porta da minha casa e da minha vida para respondê-la, caso fosse questionada por um repórter. Se a minha resposta for não, eu não faço a matéria, porque eu acho que a gente não pode pedir nada para o outro que a gente não possa dar. Então esse é meu limite ético: eu só peço para o outro aquilo que eu também poderia dar.

 

Por falar em ética, é marcante, e muito interessante jornalisticamente falando, a angústia que você viveu após fazer a matéria A casa dos velhos (publicada originalmente na revista Época e republicada no livro O olho da rua, e que traz suas observações sobre a vida num asilo). Embora destaque essa reportagem como uma das melhores da sua vida, você admite alguns erros, como não ter alertado os idosos de que os detalhes que eles contavam para você sobre a vida íntima deles poderiam ter grande repercussão ao serem publicados. Eles sabiam que a matéria seria publicada, mas não estavam muito atentos para essa questão da repercussão. Você contou os detalhes da vida deles com um enfoque muito bonito, muito delicado. Se não tivesse contado esses detalhes, a reportagem não teria ficado tão especial. Qual é a sua opinião sobre esse caso?

EB: Eu coloquei esses detalhes porque os achei lindos, porque eu estava falando, na verdade, sobre a resistência da vida num lugar onde as pessoas esperavam a morte, mas não me dei conta dessa questão da exposição. É o que eu disse há pouco de me colocar no lugar do outro. Uma das pessoas que eu entrevistei nessa matéria, por exemplo, me disse que tinha sonhos eróticos com a fisioterapeuta e com a médica do asilo. Eu achei isso muito interessante, no sentido de mostrar que aquela pessoa continuava “viva” em termos de desejos, de sonhos, mas, se tu se colocar no lugar desse velho, tu pensa: “como é que eu vou olhar para essa médica na próxima consulta?” Imagina o que os outros moradores do asilo não disseram para ele? Ou como foi difícil encarar a médica e a fisioterapeuta no dia seguinte… Então, hoje eu percebo claramente que isso foi uma tristeza para ele, e que eu poderia ter evitado. Tu tem de fazer uma escolha e a escolha nunca pode ser a de constranger alguém. Mas, naquele momento, eu não percebi essa consequência – então, errei.

Então se você tivesse que fazer essa matéria de novo, você não incluiria esses detalhes?

EB: Sim, não incluiria. E hoje quando dou palestras em faculdades e em outros lugares sempre destaco que o jornalista tem a obrigação de alertar o entrevistado sobre o impacto de uma matéria. Quando entrevistamos um empresário, um jogador de futebol, uma celebridade ou um político não há problema, pois são pessoas que estão acostumadas com a imprensa, os caras sabem exatamente o que significa uma matéria jornalística, mas a maioria das pessoas não sabe. Especialmente no meu caso, que costumo entrevistar pessoas comuns. Então, hoje sempre no final da entrevista eu sento com o entrevistado e digo: “olha, quando sair na revista ou quando sair no jornal, teu vizinho vai ler isso, teu marido vai ler, todo mundo vai saber o que tu tá me dizendo”. E aí tu tem de respeitar a decisão da fonte, mesmo que aquele detalhe seja a melhor informação da matéria. Algumas vezes tu tem de tomar a decisão pela pessoa e ir contra a vontade dela, porque mesmo tu explicando a situação percebe que ela não tem ideia dos riscos que correrá. Por exemplo, na matéria sobre as mães do tráfico (Mães vivas de uma geração morta, também presente em o Olho da rua), entrevistei a Eva, que perdeu todos os filhos assassinados. O marido dela era extremamente violento, tanto que, numa noite, ela acordou com uma faca na vagina, porque ele a culpava pelas mortes. Quando eu a entrevistei, o marido estava no hospital em estado grave, achavam que ele ia morrer. Pouco antes de a matéria ser publicada, liguei para ela. Perguntei do marido e ela me disse que ele tinha sobrevivido, mas tinha perdido as duas pernas. Mesmo sem pernas, no momento em que eu liguei, ele estava pintando a casa. Se conseguia pintar a casa, também continuava capaz de exercer a violência. Então eu disse: “olha, Eva, a matéria vai sair e teu marido pode ler”. Ela me disse: “pode publicar, é tudo verdade e ele nem vai ler essa revista”. E eu reforcei: “pode ser que a revista não chegue a ele, mas algum vizinho pode contar”. Ela continuou insistindo que eu podia publicar. Então, eu tomei uma decisão contra a vontade dela. Não coloquei o nome dela no texto. Mais tarde, quando lancei o livro e republiquei a reportagem, o marido dela já tinha morrido, então eu coloquei o nome dela. Nós jornalistas nunca podemos esquecer que nós vamos embora, mas aquela pessoa vai continuar morando ali para o resto da vida, vai continuar naquela favela, vai continuar naquela vizinhança e ela precisa estar segura.

Nas faculdades de Jornalismo é muito comum a discussão sobre a necessidade da imparcialidade e da isenção, quando se está cobrindo um fato. Lendo a reportagem A Guerra do começo do mundo (publicada na Época, em 2001, e presente em O olho da rua), sobre os conflitos no território indígena de Raposa-Serra do Sol, em Roraima, é possível perceber que você acabou escolhendo um dos lados daquela guerra: acabou ficando, ainda que sutilmente, do lado dos índios e do lado das ONGs ambientalistas que reivindicavam que aquele fosse um território único, e não dividido em ilhas, como queriam os arrozeiros, a elite política do estado e outra parcela de índios ligada a esses dois grupos. Qual é a sua opinião a respeito da imparcialidade na cobertura jornalística? Ela é possível?

EB: Eu acho que a gente tem de trazer para o leitor a complexidade da situação. O jornalismo anda numa zona cinzenta, sempre explorando o contraditório. A reportagem sobre Roraima é um bom exemplo disso, porque lá há vários discursos, várias coisas muito fascinantes acontecem ao mesmo tempo. Fiquei um mês no estado, percorrendo do sul ao norte, do leste ao oeste, e eu trago esses discursos todos para dentro da matéria. Fiquei até surpreendida com a reação negativa que algumas pessoas tiveram quando o texto foi publicado, porque aquilo que eu via como algo fascinante, eles viram como algo pejorativo. O que eu acho é que a gente tem de ter muita consciência de que o jornalismo não paira acima da realidade, não paira acima das pessoas, não é uma espécie de “entidade”. Somos seres históricos, inscritos na cultura, carregando uma história de vida. Precisamos ter muita consciência dessa limitação. Fazemos parte do mesmo mundo que a gente conta. Então, quando um jornalista diz que ele é imparcial e isento, ele já está contando uma mentira antes mesmo de começar a fazer a matéria, porque isso é impossível. Isso só é possível se tu não pertence a esse mundo e todos nós pertencemos a esse mundo. Agora, o que eu acho que a gente deve fazer é esse processo de tentar se esvaziar o máximo possível para sermos capazes de escutar. A escuta é o nosso principal instrumento para chegarmos perto das verdades todas – e é a sua qualidade que vai determinar a qualidade da nossa apuração, a nossa capacidade de alcançarmos a história que é do outro. Precisa lembrar que não somos amigos nem inimigos da fonte, estamos apenas no lugar da escuta. Hoje, eu quase nem faço perguntas em boa parte das minhas reportagens, porque eu entendo que a pergunta é uma forma de controle, especialmente a primeira pergunta. Se eu começo perguntando alguma coisa para alguém, eu já estou direcionando o entrevistado para a história que eu quero ouvir. Por isso eu prefiro que a pessoa comece contando a história livremente por onde fizer mais sentido pra ela – e percebo que o começo da história é sempre muito diferente do que eu poderia prever e do que seria o meu começo se fizesse a primeira pergunta. Sempre tenho uma informação incrível neste começo, que só alcanço por não fazer a primeira pergunta. Mas, é claro, não é uma regra para todas as reportagens. Aliás, não acredito em regras. Às vezes, é preciso começar perguntando. Na matéria Vida até o fim, por exemplo, durante o acompanhamento que fiz dos últimos 115 dias da vida da Ailce, notei que ela nunca pronunciava a palavra “câncer”, nunca pronunciava o nome da doença que a mataria. E eu só captei essa realidade por conta da escuta. Se tivesse começado perguntando do seu câncer, jamais saberia que ela não pronunciava essa palavra e, portanto, jamais entenderia como ela lidava com a doença que a mataria. Quando eu interfiro na matéria, o leitor também fica sabendo. Nessa matéria da Ailce, tem um exemplo bem claro disso. Eu sempre fiquei no papel apenas de escutar e ela parecia compreender bem isso, pois nunca tinha perguntado nada sobre a minha vida e nem pedido minhas opiniões, mas em determinado momento, quando ela estava se sentindo melhor, eu estava na cozinha com ela e ela me disse: “ah, acho que eu não tenho mais essa doença, não sinto mais nada. Não tenho mais essa doença não”. Ela queria uma confirmação minha. Eu gostaria muito de poder dar aquela confirmação, mas não podia, porque não era verdade. Foi um momento terrível pra mim. Ela me pediu pra sair do lugar da escuta para contar uma mentira. O que eu fiz foi ficar em silêncio, continuar no meu lugar de escuta. Depois teve um outro momento terrível, quando ela estava no fim da vida. Ela lembrou que, certa vez, um médico disse que, se ela comesse e ficasse forte, poderia fazer a cirurgia e se salvar, como se a cura do câncer dependesse dela. O fato é que a cirurgia dela era impossível, o câncer que ela tinha era inoperável. Ela estava sentindo muita dor, estava desesperada. Eu a acompanhei na consulta médica e a doutora disse a ela que não tinha jeito de operar. Quando ela saiu da consulta, me falou: “acho que se eu comer e ficar forte, eu vou poder fazer a cirurgia e ficar boa”. Aí foi um momento em que eu resolvi interferir, porque eu achei que era o mais certo a fazer, não só como jornalista, mas como ser humano. Disse pra ela: “olha, eu estava contigo e tu ouviu a médica dizer que não tem como operar a tua doença, então não há nada que você possa fazer. Não é culpa sua, nunca foi”. Aí ela me disse: “acho que eu já sabia disso, não dá para se lembrar de tudo…”. Naquele momento, então, eu saí do meu lugar de escuta e interferi. E deixei tudo isso claro para o meu leitor. É uma questão não apenas de honestidade jornalística, mas de honestidade no seu sentido mais amplo.

Como é voltar para o seu cotidiano, após ficar meses vivendo histórias tão intensas, como esta da Ailce. Você a acompanhou até a morte. Isso é forte demais. Sofre muito após essas histórias?

EB: É uma escolha que tu tem de fazer. Eu me entrego, me atiro na história. Essa matéria da morte teve um custo bem alto pra mim, pessoalmente falando, me deixou muitas marcas. Hoje eu percebo que, após a matéria, eu fiz mais ou menos um ano de luto. Foi um ano em que eu tive que elaborar isso tudo dentro de mim. Nessa matéria eu fiquei doente várias vezes, foi muito difícil. Mas eu acho que se uma matéria não te transforma é porque tu não conseguiu fazê-la bem. Eu sempre ganhei mais do que perdi com essa minha escolha de me entregar. Mudei muito com a reportagem da Ailce.

Você conta em O olho da rua que, depois dessa matéria, você resolveu dar uma desacelerada no seu ritmo de vida.

EB: Não uma desacelerada, mas uma mudança. Cada reportagem que eu fiz mudou coisas na minha vida, mas foi dessa matéria especificamente que veio toda a minha decisão de deixar de ter emprego fixo, de me reapropriar do meu tempo. Me inspirei muito naquela frase que a Ailce disse no começo do nosso encontro: de que quando ela tinha finalmente tempo para aproveitar a vida – pois estava aposentada –, descobriu  que seu tempo tinha acabado, pois estava com o câncer. Essa frase ainda mexe muito comigo, porque a morte serve para isso, para a gente pensar sobre a vida. Então eu me reapropriei do meu tempo, fiz várias mudanças na minha vida. Essa matéria ecoa em mim até hoje.

Mudando de assunto, você fala muito do papel da reportagem como documento histórico, ou seja, o que estamos escrevendo hoje ficará como registro da nossa realidade para as futuras gerações. Sempre que você pensa numa pauta, você tem essa preocupação na cabeça, de deixar um registro para o futuro?

EB: Sim. Acho que a gente não pode se esquecer disso. Eu não falo só das grandes matérias. Mesmo com uma nota temos de ter essa preocupação. Nós contamos a história cotidiana, a história contemporânea do nosso mundo, seja o mundo da nossa comunidade, seja o do nosso país. O jornalista é o historiador do cotidiano, o que a gente faz é documento, querendo ou não, com consciência ou não, mesmo que seja um documento da nossa incompetência. A gente influencia o mundo agora e vai influenciar a compreensão do nosso mundo depois, então é uma responsabilidade muito grande.

Nosso jornalismo hoje está fazendo bem essa documentação?

EB: Tem gente que está fazendo bem e tem gente que está fazendo mal. Acho que sempre foi assim. Tivemos épocas melhores, outras piores, bons e maus jornalistas convivendo ao mesmo tempo. Hoje vivemos um momento muito privilegiado do jornalismo, que é contar com a Internet, usufruir das possibilidades abertas por esse meio. Existem jornalistas que estão deixando seus empregos na imprensa tradicional, porque é possível tu fazer jornalismo com novas formas de financiamento. A ONG Repórter Brasil [www.reporterbrasil.org.br], por exemplo, há dez anos faz um trabalho de denúncia de trabalho escravo. É um outro jeito de fazer jornalismo fora da imprensa tradicional. A gente tem também a Pública [apublica.org], a primeira agência brasileira de jornalismo investigativo independente. Então há várias coisas acontecendo. Tenho uma ex-colega da Época que está na faixa dos 30 anos e saiu da revista para fazer jornalismo por conta própria, ela faz uma matéria e publica esse mesmo texto no The Guardian [tradicional jornal britânico], no El Mundo [jornal espanhol], quer dizer, o mundo está mudando, a gente está tendo outras oportunidades. Isso é bem interessante. Mas, principalmente, a Internet ampliou o número de vozes narrativas e de versões sobre os acontecimentos do mundo, o que torna tudo mais rico.

Muita gente diz que a Internet não é lugar para textos longos. Qual é a sua opinião a respeito?

EB: Eu acho a Internet um lugar perfeito para textos longos, complexos, profundos. Uma coisa que me deixa muito indignada é essa balela de que Internet é para textos curtos e rápidos, para notícia e não para reportagem. Isso é uma bobagem enorme, e é uma sacanagem, porque pela primeira vez na história a gente tem um meio no qual não há disputa de poder por espaço, como ocorre no espelho do jornal e da revista. A Internet é um meio ilimitado, no qual você pode escrever cem páginas, se desejar. As matérias podem finalmente ter o tamanho que elas precisam ter. Passei a vida inteira ouvindo que eu escrevia demais para os padrões do jornalismo tradicional, sempre enfrentei gozação a respeito disso. A Internet mudou essa relação. Sempre ouvi também que o leitor não gosta de texto longo, mas aí tu pergunta: “essa afirmação que tu está dizendo vem de onde, de qual pesquisa?” E aí tu percebe que não tem pesquisa por trás daquela afirmação. Desde março de 2010, escrevo uma coluna semanal de opinião na Época. Essa é a relação que mantenho hoje com a revista. De vez em quando, eu faço algumas reportagens. Na coluna, eu pude comprovar que o leitor gosta sim de textos longos, que ele lê sim textos longos. Na verdade, o que o leitor não gosta é de texto ruim, pois ele se sente enganado. Se o texto for bom, ele se sente respeitado na sua inteligência e dedica seu tempo à leitura. Chego a fazer colunas com 60 mil caracteres, o que daria mais ou menos 30 páginas de revista. Tento recuperar aquela ideia das entrevistas longas que a gente perdeu. Não existe mais hoje na imprensa tradicional entrevista de 30 páginas. Eu faço isso na Internet e posso provar que há leitura, porque tenho o acompanhamento da audiência, eu tenho o número de acessos, eu tenho o tempo de permanência do leitor, por isso consigo desmontar todos esses mitos. Uma de minhas colunas mais lidas, por exemplo, foi a entrevista que fiz com a psicóloga Debora Noal, que trabalha na organização humanitária internacional Médicos sem Fronteiras. Tem 63 mil caracteres, uma coisa assim. E eu nunca consegui fazer uma coluna com menos de sete mil caracteres, em média elas têm 10 mil, 15 mil.

Qual foi a sua situação mais difícil que você viveu como repórter?

EB: Já tive vários momentos difíceis, mas talvez a matéria mais difícil tenha sido a minha primeira grande reportagem, que foi sobre a Coluna Prestes. Fiz essa matéria em 1993, quando eu tinha 26 anos. Foi difícil por várias razões. Primeiro, porque foi uma matéria concretamente difícil de fazer: foram 25 mil quilômetros percorrendo o território brasileiro, passando por lugares muito distantes, muito pobres. Havia dificuldades práticas, como reconstruir pontes e viajar quilômetros usando álcool de cozinha como combustível. E essas dificuldades práticas eram, na verdade, as menores, porque eu acabei descobrindo que a história que eu fui buscar era outra – e essa é a melhor parte, mas também a mais difícil. Eu comecei a viajar impregnada do mito que existia sobre a Coluna Prestes e acabei descobrindo a versão das pessoas que estavam no caminho por onde a Coluna passou, a visão das pessoas que não eram nem governistas nem rebeldes, a visão da população que é, em geral, aquela que mais sofre com qualquer guerra. Em muitos lugares pobres e pequenos, as pessoas começaram a me relatar casos de torturas, assassinatos, estupros, tudo o que hoje é muito lógico de se pensar. Imagine uma tropa de mil homens num lugar muito pobre com 200 pessoas? Mas, embora seja até lógico, naquela época, isso nunca tinha sido cogitado, era um mito muito forte sendo derrubado. Foi difícil no processo de escuta entender o que estava acontecendo. Entrevistei cem pessoas, voltei e publiquei a matéria com a versão do povo do caminho, com a fala de gente que nunca tinha sido ouvida. Minha matéria, claro, foi colocada em dúvida, pois contrariava muito o mito da Coluna. Não há nada mais duro para um repórter sério, uma pessoa honesta, do que ter seu trabalho colocado sob suspeição. Eu era muito jovem para lidar com aquilo, sofri muito. Só no final dos anos 1990, quando foram abertos os arquivos do Juarez Távora, um dos comandantes da coluna, pela Fundação Getúlio Vargas, no Rio, é que foi descoberta uma correspondência do comando da Coluna, na qual os próprios integrantes relatavam que as pessoas fugiam deles e que estavam muito preocupados com os abusos, estupros, assassinatos e outras atrocidades que estavam sendo cometidas pela tropa contra as populações locais. Aí essa versão passou a ser aceita e foi tema da imprensa nacional. Como sempre, a história oral dos mais pobres só tem valor se for “legitimada” pelos letrados.

Por que você resolveu apostar também no caminho da ficção, lançando o romance Uma duas, que trata da relação entre mãe e filha?

EB: A ficção é uma outra voz que em determinado momento eu senti necessidade de expressar. Continuo repórter, fazendo livro-reportagem, mas precisei escrever um romance para dar conta desta outra voz, que agora faz parte de mim e precisa se expressar. E essa necessidade surgiu exatamente com o fato de eu ter trabalhado várias reportagens sobre a morte. A matéria sobre a morte da Ailce é a mais importante certamente, mas, na verdade, eu fiz várias outras matérias sobre o assunto. Em uma delas, por exemplo, eu fiquei em uma enfermaria especializada em cuidados paliativos de bebês que estavam entre a vida e a morte. Passei praticamente dois anos trabalhando com diversas histórias de morte, de diversas maneiras e, em determinado momento, percebi que eu precisava de outra voz para contar certas realidades, certas verdades. Quando tu tem uma história pra contar, tem de achar um jeito de contá-la ou a história acaba contigo. Pelo menos comigo é assim. Então, eu criei uma voz de ficção. Para quem está acostumado a ler o meu texto de não-ficção, é uma grande surpresa, porque é outra coisa, é realmente outra voz.

Em uma entrevista que você concedeu à Livraria Cultura sobre o livro, você diz que essa voz surge de repente na sua cabeça. Como é esse processo?

EB: Sempre me entreguei muito, mesmo na reportagem eu sou possuída. Só que no jornalismo eu sou possuída pela voz do outro, pela realidade que está fora de mim. Agora, na ficção é uma possessão de dentro para dentro, uma possessão de mim mesma. Eu vejo também como uma “apuração”, só que é uma apuração dos abismos que existem em mim. Isso é muito perturbador. Quando estou vivendo uma reportagem eu me entrego, tanto que eu nunca falo em casa sobre a matéria. Eu só consigo falar depois de escrever, é como uma gestação, só depois que “nasce” eu falo a respeito. Só que a reportagem tem um tempo menor e a ficção não, leva muito mais tempo, então o custo é maior. A sensação que tive enquanto eu escrevia o livro era a de que eu “vivia” o meu romance e “encenava” a minha vida. Foi bem complicado.

Você se sente hoje plenamente realizada?

EB: Eu me sinto realizada pelo que já fiz, mas tenho muito mais para fazer, muito mais que eu nem sei o que é. Eu gosto muito dessa coisa da reportagem que é a história do “não saber”, de encontrar algo diferente do que se esperava, de se espantar com o absurdo da realidade. Minha grande angústia é ficar pensando em quanto tempo de vida eu tenho para poder fazer reportagem, vida com saúde, eu quero dizer. Quero poder ir para a África, por exemplo, pegar malária e não morrer. Até que idade eu posso fazer isso? Essa é minha angústia. Eu queria poder conhecer o mundo inteiro e tenho medo de morrer sem ter realizado esse sonho. Quero fazer muitas matérias na África, na América Latina, tenho muitos sonhos.

Foto: Cedida pela jornalista para publicação no livro “Mestres da Reportagem”

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