Precisa entrevistar???

*Patrícia Paixão

Dentre as várias categorias de estudantes de jornalismo, uma das mais bizarras é a dos que não gostam de fazer entrevista.

Não, você não leu errado. Eles querem ser repórteres, mas não gostam de entrevistar. Poderiam ter escolhido medicina, arquitetura, administração, direito, agronomia, mas escolheram jornalismo e reclamam quando são pautados para ir pra rua.

Há alguns anos tenho me deparado em sala de aula com esta figurinha e confesso que continuo com a mesma estupefação.

Quando cobrados nos exercícios de reportagem, saem logo com uma dessas:“tem mesmo que entrevistar, professora? Eu tenho um material ótimo que dá conta do assunto.”

Outra saída típica é: “a amiga da minha mãe vive exatamente essa situação da pauta, professora. Posso ouvi-la?”. Ou: “tem um médico no posto de saúde lá da minha rua que é excelente pra essa matéria”. Isso sem contar os casos de aspas inventadas… (abafa!)

A resposta é sempre taxativa: SIM, VAI TER MESMO QUE ENTREVISTAR! E PRESENCIALMENTE!

E NÃO! SEU PAI, A AMIGA DA SUA MÃE, O MÉDICO DA SUA RUA, O OBREIRO DA SUA IGREJA E O SEU VIZINHO NÃO SÃO FONTES! CHEGA DE “FONTE-AMIGA”, essa praga das salas de aula de jornalismo. Aff!

A entrevista é uma das etapas essenciais do processo de apuração, ao lado da pesquisa. É a matéria-prima do Jornalismo. É ouvindo os diferentes lados de uma história que conseguimos retratá-la com fidelidade. Na maioria das vezes o conhecimento que nós, jornalistas, temos do fato não vem de nós mesmos, mas das fontes.Se você está escrevendo um texto sem entrevista, sorry, mas você está fazendo qualquer coisa menos reportagem. E não adianta entrevistar conhecidos para se livrar rapidamente de uma tarefa que deveria ser um prazer na sua vida e não um estorvo. Você precisa de fontes de credibilidade para que seu texto seja lido. O que gera mais leitura? Uma matéria sobre doenças coronárias que traz aspas do cardiologista do posto de saúde da sua rua (por melhor que ele seja, e ele realmente pode ser ótimo, mas não é conhecido do grande público) ou do cardiologista-chefe de um hospital de renome como o Albert Einstein, Hospital das Clínicas ou Sírio Libanês?

A lei do mínimo esforço infelizmente prevalece. E é por isso que hoje vemos aos montes blogs de estudantes de Jornalismo que são meros achismos. Como é chato e desnecessário esse tipo de blog. Será mesmo que essas pessoas acham que já no primeiro, segundo ou terceiro ano de faculdade têm credibilidade suficiente para arrebatar leitores apenas com opinião (muitas vezes palpite de boteco)? E aí você tem que botar na cabeça dos caixas d´águas (alcunha “carinhosa” que costumo dar aos estudantes sem noção, que agem como se seus cérebros fossem uma gigante caixa da Brasilit): escuta, você ainda não é um Clóvis Rossi, um Jânio de Freitas, um Paulo Vinícius Coelho. Existe um caminho natural no jornalismo ou que pelo menos deveria existir: primeiro o cara rala muito fazendo reportagem pra depois ter respaldo para ser um articulista, um colunista. Tudo bem que o blog dá liberdade para textos opinativos e é importante sim que o aluno de jornalismo seja crítico, que tenha opinião. Mas não dá para se limitar a esse tipo de texto. Um estudante ainda tem uma imagem a ser construída, muita leitura pra fazer, muito conhecimento pra adquirir, antes de sair ditando como as coisas devem ser. Com certeza conseguiria muito mais visitantes para o blog,se investisse em entrevistas e pesquisa, produzindo reportagens capazes de furar a mídia tradicional. É dessa forma, aliás, que o jornalismo de blog tem se destacado.

E não adianta reclamar também do tempo para entrevistar. Você dá um mês para o cara fazer três, quatro entrevistas, e ele acha um absurdo. Meu, querido, na redação de um veículo hard news você vai fazer bem mais que três entrevistas numa manhã ou tarde! Mesmo em veículos que contam com deadlines mais amenos essa cobrança acontece. Quando era editora e repórter de duas revistas segmentadas, cheguei a entregar em uma semana uma reportagem que envolveu 14 entrevistados e muito pé na rua.

Tá mais do que na hora de quem não gosta de entrevista repensar a escolha do curso. O segredo do sucesso no jornalismo passa por: trabalho, trabalho, trabalho, tesão, tesão, tesão, humildade, humildade, humildade. Se você não sente prazer em entrevistar e não quer se esforçar, pois acha que já tem respaldo suficiente para escrever um texto sem apuração, não vai conseguir crescer na área. A não ser que seja pelo famoso QI (se algum doido resolver te indicar – eu nunca, pois tenho um nome a zelar) e, mesmo assim, se estiver em uma empresa jornalística séria, corre o risco de não durar muito tempo no cargo. O esforço de reportagem -número de entrevistas feitas, grau de dificuldade de contato com os entrevistados, credibilidade das fontes ouvidas, distância percorrida para fazer as entrevistas, pesquisa de campo, entre outras coisas – é cuidadosamente avaliado na banca de um Trabalho de Conclusão de Curso de jornalismo, momento-chave para dizer se o aluno está pronto ou não para ir para o mercado. Os professores-avaliadores levam em conta esses fatores exatamente porque sabem que, sem entrevista, não dá samba, não dá reportagem. E reportagem é a alma do jornalismo.

Então, #ficaadica. Pense bem se é mesmo jornalismo que você quer. Você é foca e não bicho-preguiça!

Imagem: Pixabay

4 ideias sobre “Precisa entrevistar???

  1. ademirplasajornalista

    Claro que pra ser um bom repórter tem que entrevistar sim, e nunca se deixar levar pela preguissa, afinal, temos inúmeros exemplos de matérias que por conta da falta de responsabilidade do repórter destruiram empresas, familias e outros. A Escola Base, matéria catastrófica do renomado Valmir Salaro, é um ótimo exemplo, e recentemente as Libras do senador Romário, se houvesse um melhor aprofundamento a história teria sido outra.

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