Os 20 livros que todo jornalista precisa ler

Formando Focas

*Patrícia Paixão

Resolvi fazer esse post, respondendo a uma pergunta que recebo com muita frequência dos meus alunos:

Quais são os livros que todo jornalista deve ler?

Segue, então, uma lista das obras que, NA MINHA VISÃO, você não pode sair da faculdade sem ter lido. O “na minha visão” vai em caixa alta, pois essa é uma lista muito particular, da qual outros colegas podem discordar.

Embora possa gerar discordâncias, garanto que não há nenhum livro indicado aqui que seja dispensável. Talvez estejam faltando obras que outros consideram mais importantes, mas não há livros medianos, que não vão acrescentar na sua formação.

E não, não indiquei os dez mais, como boa parte dos críticos costuma fazer. Minha lista dos melhores livros sobre Jornalismo ultrapassa e muuuito o número 10. Selecionar 20 já foi um trabalho árduo rs

Faça um check list e corra atrás dos que você ainda não leu.

*ILUSÕES…

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Fruto de um TCC, livro resgata a trajetória do repórter Gérson de Souza

livro

*Patrícia Paixão

Ele fez matérias invejáveis pelos cinco continentes do mundo. Esteve em lugares fascinantes, desconhecidos da mídia nacional e internacional, como Papua do Oeste, na parte ocidental da Ilha de Nova Guiné, onde comandou uma grande reportagem com os “korowai batu” – um povo que, comprovadamente, praticou o canibalismo durante décadas e que vive em grandes árvores.

Sem a maquiagem e figurino típicos de um repórter de TV, e com um jeito simples, simpático e caloroso, Gérson parece causar uma espécie de “encantamento” nas fontes. Em poucos minutos de conversa, seus entrevistados já estão abrindo as portas de casa, contando “causos” de seu cotidiano e convidando o jornalista para provar pratos e bebidas típicas e exóticas.

Repórter especial da Rede Record, o jornalista teve seus quase 40 anos de profissão retratados em um “livro-reportagem biografia” escrito pelo jornalista André Guimarães. A obra, fruto do Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo de André, aborda toda a trajetória do jornalista,  dos seus primeiros passos, em uma emissora pequena de Pederneiras (interior de São Paulo), às viagens pelos cinco continentes do mundo, pela Rede Record.

O livro foi lançado em 2014, com grande repercussão na mídia. A obra,  permeada por documentos e registros fotográficos da carreira do repórter, conta com o prefácio de Neusa Rocha, uma das principais diretoras da TV brasileira.

Trata-se de uma excelente dica de leitura e um belíssimo exemplo de TCC, do qual tenho imenso orgulho de ter sido orientadora.

Saiba mais sobre os bastidores de produção da obra, nesta entrevista com André Guimarães.

André

André Guimarães

Como surgiu a ideia de biografar Gérson de Souza? Por que ele e não outro repórter?

André Guimarães: A ideia surgiu após o lançamento do livro “Mestres da Reportagem” [em 2012], do qual sou coautor.  Gérson de Souza foi um dos repórteres que compareceram na noite de autógrafos, na Livraria da Vila do Shopping Higienópolis [São Paulo]. Conversamos por alguns minutos e trocamos o contato. Percebi que ele era bastante simpático e acessível. Comecei a pesquisar sobre ele e vi que não existia quase nada publicado sobre sua carreira. Constatei que Gérson tinha um extenso currículo, passando por diferentes mídias (rádio, jornal, assessoria de imprensa e TV), porém com muito pouco material divulgado, apenas um blog e sua página pessoal no Facebook.  Após conversar com a minha orientadora [Patrícia Paixão, responsável por este blog, o Formando Focas], propus ao Gérson a ideia de fazer um livro resgatando sua carreira. Ele concordou e disse: “é um grande desafio que envolverá muito trabalho, você tem certeza?” Eu disse que sim e o acordo para fazer o livro foi selado.

O livro é fruto de um TCC de Jornalismo. Quais são os desafios de escolher o “livro-reportagem” como mídia para um TCC? 

AG: Os desafios são o tempo, o planejamento e encontrar as pessoas que participaram da trajetória do biografado.  É uma corrida contra o tempo, mas o essencial é planejar cada detalhe, contando com contratempos. Não podemos esquecer ainda de que algumas pessoas podem não aceitar falar e teremos que entender e saber lidar com o ocorrido.

Que conselhos você dá para o estudante de jornalismo que pretende fazer como TCC um livro-reportagem?

AG: Primeiro fazer uma vasta pesquisa sobre o assunto ou pessoa a ser retratada e, segundo, um bom planejamento. Terceiro, se dedicar ao máximo, o tempo todo  Em alguns momentos precisará escolher entre ir a alguma festa ou ficar pesquisando, transcrevendo entrevistas, ou seja, fazer o que os outros não estarão fazendo nas horas vagas.

Ao todo, quantas entrevistas e quantos lugares você conheceu para escrever o livro?

AG: Foram 65 entrevistados, entre São Paulo, Rio de Janeiro, Bauru, Jaú, Pederneiras, São Bernardo do Campo e Caieiras.

Qual foi o lado mais complicado de fazer essa obra?

AG: Conseguir a entrevista de alguns jornalistas que se julgam melhores que outros, a compilação de dados e a transcrição das entrevistas, já que foram vários entrevistados.

E o mais gratificante?

AG: A emoção, a experiência que obtive durante as entrevistas de ser recebido por grandes nomes do jornalismo brasileiro em suas casas, seus departamentos de trabalho, e os comentários de alguns entrevistados de que Gérson de Souza é um repórter em extinção. E foi exatamente por isso que dei esse nome ao livro.

NÓS

André Guimarães, Patricia Paixão e Gérson de Souza, no lançamento do livro

Como o Gérson recebeu a proposta de ser biografado?

AG: A princípio eu não consegui falar com ele, falei com a esposa, Elaine dos Santos. Ela disse que uma das filhas dele, que era jornalista, tinha um projeto de fazer um livro do pai, mas que falaria com o Gérson e qualquer coisa ele entraria em contato. Passados 15 dias [era sexta-feira – 15 de fevereiro de 2013], recebi uma ligação em meu celular.

Eu: Alô, quem fala?

Gérson de Souza: André Guimarães, aqui é o Gersinho do livro Mestres da Reportagem, tudo bem?

Eu: Gersinho?

Gérson de Souza: Sim, o Gérson de Souza!

Eu (ansioso, surpreso, coração acelerado): Ah! Oi, Gérson, o senhor está bem?

Gérson de Souza: Senhor não, por favor!

Eu: Tudo bem, desculpa. Em que posso ajudar?

Gérson de Souza: Minha esposa disse que você quer escrever um livro, uma biografia sobre mim.

Eu: Sim, verdade!

Gérson de Souza: Então é o seguinte, anote meu endereço, venha almoçar comigo domingo [17/02/2013], às 13h. Traga quem você quiser que conversaremos sobre o livro. Eu aceito.

Eu (lágrimas escorriam em minha face): Obrigado, muito obrigado. Vou falar com a professora Patrícia Paixão, e estarei em sua casa no horário combinado.

Eu fiquei muito emocionado e muito feliz com o aceite dele. Fomos eu, Patrícia Paixão e outro professor, o Carlos Monteiro, na casa dele no domingo. Gérson nos recebeu e disse: “Eu vou cozinhar pra vocês hoje, amo receber pessoas em minha casa e cozinhar pra elas”. Gérson falou 6 horas ininterruptamente. Começou dizendo que não tinha o contato de ninguém e que eu teria muito trabalho. Eu gravei a conversa e comecei as entrevistas. Foram sete meses de produção, todos os dias meu foco era o livro. Eu estudava pela manhã, fazia as entrevistas nos finais de semana, algumas durante a semana no período da tarde ou à noite, já que eu fazia estágio das 16h às 22h45.  Escrevia durante as madrugadas, aos sábados e domingos. Nos sábados, nas bibliotecas, aos domingos no Starbucks do centro de São Paulo, pois na faculdade ou onde eu morava não tinha como.

Ele interferiu no conteúdo do livro?

AG: Em momento algum, deu total liberdade para a produção. No início, decidimos que seria uma biografia profissional, focado na vida profissional dele. Este foi o combinado e assim foi feito.

Por que o leitor deve comprar o livro “Gérson de Souza: Um repórter em extinção”? O que ele vai descobrir sobre o Gérson que ele não sabe?

AG: Porque se trata de um repórter com vasta experiência em diversos veículos de comunicação, que possui uma linguagem simples e conquista as pessoas durante as reportagens. É um belo exemplo a ser seguido no jornalismo.

O leitor descobrirá que Gérson é a mesma pessoa, seja em casa, no trabalho ou com amigos, simples, o homem do calcanhar rachado, como ele mesmo se define.

SERVIÇO

O livro pode ser adquirido pelo site da Livraria Cultura (entregas em todo o Brasil), ao valor de R$ 44,90.

Conheça as relações, as “avós” dos jornais impressos

*Patrícia Paixão

Por volta de 1450 (alguns estudiosos apontam 1445, outros 1447), o alemão Joahnnes Gensfleish, conhecido como “Gutenberg”, inventou a prensa tipográfica, uma técnica de impressão que utilizava tipos móveis de metal (a técnica tipográfica já era utilizada antes na Coréia e na China, mas com tipos de madeira, que limitavam a reutilização).

Esses tipos (letras e sinais gráficos de pontuação) eram colocados um ao lado do outro para formar as palavras. Depois, eram reunidos em linhas que se transformavam em colunas, até formar uma página inteira.

A técnica revolucionou a humanidade, permitindo a reprodução de milhares de exemplares de livros, o que antes era impossível pelo método manuscrito (escrito à mão um livro levava dias para ser reproduzido).

Permitiu também o surgimento dos jornais impressos. Podemos dizer que as impressoras utilizadas hoje na nossa imprensa são bisnetas e tataranetas da prensa tipográfica.

Mas os jornais não surgiram prontamente após a invenção de Gutenberg.  Antes de 1600 (ano em que começaram a surgir os primeiros jornais impressos na Europa),  existiu uma forma embrionária de jornalismo impresso chamada de RELAÇÕES, que foi impulsionada pela invenção da prensa tipográfica.

Também nomeadas de “notícias avulsas” ou folhas avulsas, as relações eram panfletos, com títulos longos, que descreviam um fato excepcional, sensacional, causador de grande repercussão. Exemplos: um terremoto, a morte de um rei ou o estouro de uma guerra.

De acordo com o estudioso e jornalista Antônio Costella, autor do livro “Comunicação – do Grito ao Satélite”, as relações anteciparam dois critérios de noticiabilidade que hoje são fundamentais na imprensa na hora de avaliar quais fatos merecem ser transformados em matéria jornalística: a imprevisibilidade e o apelo.

No início elas eram manuscritas, mas, quando surgiu a prensa tipográfica, logo começaram a ser impressas.

  • Na França chamavam-se “feuilles volantes”.
  • Na Inglaterra: “newes”
  • Na Alemanha: “zeitungen”
  • Na Espanha: “relaciones”
  • Em Portugal: “relações”

Quando surgiram, as relações traziam a descrição de um único fato e não tinham periodicidade. Só era impressa outra Relação quando outro fato sensacional ocorresse, daí diferenciarem-se das gazetas manuscritas (jornais escritos à mão – outra forma embrionária de jornalismo), que tinham periodicidade e tratavam de fatos variados.

Com o passar do tempo, por volta do final do século 16, as diferentes Relações que circulavam na Europa começaram a variar os assuntos e a ter periodicidade (imitando as gazetas manuscritas, só que na forma impressa), tornando-se, portanto, JORNAIS (a periodicidade e a variedade temática são dois critérios que os estudiosos usam para apontar os primeiros jornais surgidos no mundo). Foi quando surgiu a imprensa.

O primeiro impresso brasileiro, produzido por Antonio Isidoro da Fonseca, foi uma Relação

O primeiro impresso brasileiro foi uma Relação

O primeiro impresso brasileiro, na fase que se tentava implantar a imprensa no Brasil (antes de 1808 – data da vinda da Coroa portuguesa para cá – Portugal minou todas as tentativas de  surgimento do jornalismo aqui), foi justamente uma relação. Em 1746, Antonio Isidoro da Fonseca, um impressor bastante conceituado em Lisboa, transferiu-se para o Rio em busca de melhores oportunidades financeiras, trazendo na bagagem um material tipográfico. Apoiado pelo então governador Gomes Freire, o impressor chegou a colocar sua tipografia em funcionamento (antes dela ser queimada por Portugal), imprimindo a “Relação da entrada que fez o excelentíssimo senhor Dr. Fr. Antonio do Desterro Malheyro, Bispo do Rio de Janeiro em o primeiro dia deste presente ano de 1749…”, esse era o título da relação.

Gostou dessa informação?

Continue acompanhando o Formando Focas para conhecer um pouquinho mais a história do jornalismo.❤

11º CONGRESSO DA ABRAJI: Caco Barcellos, Elvira Lobato, Alberto Dines, Fernando Rodrigues, André Caramante e Sérgio Dávilla estão entre os palestrantes

Abraji

*Patrícia Paixão

Vida de estudante de jornalismo não é fácil. É preciso muito jogo de cintura e economia para conseguir pagar a mensalidade da faculdade, transporte, alimentação, tirar xerox de textos, comprar os dezenas de livros recomendados pelos professores, além de tecnologias que ajudam no dia a dia da reportagem, como gravador de voz e câmera digital.

E os eventos?

Sim, eles também entram nas despesas. Há palestras, cursos, oficinas e workshops maravilhosos sobre a área e você terá que reservar uma graninha para eles.

Tá, eu sei que a coisa tá feia, mas, se você conseguiu juntar dinheiro para ir àquele show carérrimo da sua banda favorita (#EuSeiOqueVocêFeznoVerãoPassado rs), também precisa fazer um poupancinha para a profissão que ama.

E se tem um evento que é OBRIGATÓRIO e você simplesmente NÃO PODE PERDER (!!!) é o 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), que acontece nos dias 23, 24 e 25/06 em São Paulo, no campus Vila Olímpia da Universidade Anhembi Morumbi, instituição na qual tenho o grande prazer de lecionar:)

E por que o Congresso da Abraji é tão importante?

Primeiramente, porque é referência na área jornalística. Participar deste evento com certeza oferecerá um diferencial ao seu currículo, colaborando para que você conquiste uma possível vaga de estágio. Os empregadores do nosso mercado conhecem a importância deste congresso e o nível de convidados que participam dele.

Em segundo lugar, é uma excelente oportunidade para conhecer os bastidores de grandes reportagens e ficar por dentro de assuntos que são tendência na nossa profissão, por exemplo o jornalismo de dados.

Finalmente, é um evento maravilhoso para fazer networking e networking é TUUUUDO na nossa área. Você terá a oportunidade de interagir com grandes nomes do nosso jornalismo. Neste ano o congresso traz como palestrantes Caco Barcellos, Elvira Lobato (ela é a homenageada do evento), Juca Kfouri, André Caramante, Alberto Dines, Rubens Valente (responsável pelos furos de reportagem que estão incendiando o país neste momento: as gravações entre Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, e os senadores peemedebistas Romero Jucá, Renan Calheiros e José Sarney), Bruno Torturra, Leonardo Sakamoto, Adriana Carranca, Fernando Rodrigues, Sérgio Dávilla, dentre muitas outras feras.

Vários painéis acontecem ao mesmo tempo durante os três dias do evento. Você pode montar a sua própria grade, optando pelas palestras e cursos que mais te interessam. Confira aqui a programação completa do encontro.

Há ainda a chance de conhecer focas e jornalistas de todas as partes do Brasil, fazendo novas amizades e ampliando sua rede de contatos.

O investimento para estudantes de jornalismo é de R$ 310,00. Não é muito, considerando a quantidade de cursos e palestras que você encontrará à disposição no congresso.

Estudantes que são associados à Abraji pagam apenas R$ 215,00. Jornalistas formados associados à Abraji pagam R$ 300,00 e para os não associados o valor é R$ 490,00.

Eu estarei no congresso, acompanhando tudo de perto, e ficarei muito feliz em vê-lo por lá. Aos meus alunos, eu reforço: É OBRIGATÓRIO!!

Vambora?

SERVIÇO:

O quê: 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo

Quando: 23, 24 e 25/06

Onde: Universidade Anhembi Morumbi/ Campus Vila Olímpia – R: Casa do Ator, 275

Para obter mais informações sobre o evento:

Por email: congresso@abraji.org.br

Por telefone (de segunda a sexta-feira, das 10h às 18h): (11) 3159-0344

 

 

 

Jornalistas destacam desafios da assessoria de imprensa nas áreas política e cultural

*Por Amanda Rinaldi, Ana Claudia, Gabriela Freitas e Thayna Gomes

Busian

 

Os jornalistas Fernando Busian, assessor da Presidência da Câmara Municipal de São Paulo, e Marina Santa Clara Yakabe, assessora de imprensa dos rappers Emicida e Rael, palestraram sobre o trabalho de assessoria nas áreas política e cultural, no último dia 20/04, na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Organizado pela jornalista e professora Patrícia Paixão, responsável por este blog (Formando Focas), o encontro aconteceu na forma de um bate-papo com os alunos do quinto semestre do curso de jornalismo.

Busian, que é formado em Rádio e TV, Jornalismo e Filosofia pela Universidade São Judas e possui 16 anos de experiência na área (atuou como repórter e editor na redação do jornal Agora São Paulo e foi assessor de imprensa do prefeito Fernando Haddad durante a campanha eleitoral e no primeiro ano de sua gestão),  contou sobre os desafios diários do assessor na área pública. Para o jornalista, a maior dificuldade encontrada por assessores atuantes nesse setor é o preconceito da imprensa em relação ao poder público. Segundo Busian, essa situação acaba sendo refletida na forma como a sociedade enxerga a administração pública.

O palestrante também destacou que “falta interesse público no jornalismo brasileiro”, após discorrer sobre a nossa recente e frágil democracia. Completou dizendo que “falta equilíbrio” nos julgamentos midiáticos e que esse quadro é agravado no atual cenário político que vivemos.

Fernando ressaltou para os estudantes a necessidade de adaptação às novas tecnologias e à tendência de transparência nos dados públicos . “O jornalismo está mudando, porque tem muitas coisas públicas disponíveis hoje na internet. Poucos colegas, no entanto, sabem explorar esses dados”, disse, referindo-se à Lei de Acesso à Informação.

Área cultural

Marina

Marina Santa Clara Yakabe, que trabalhou no jornal Agora S. Paulo e no Portal R7 antes de atuar como assessora, explicou um pouco do seu cotidiano e da responsabilidade de trabalhar com dois nomes importantes do rap nacional. Ela falou sobre as diferenças entre assessorar um artista que já é renomado, como o Emicida, e um ainda em ascensão, como o Rael. “Não é um trabalho mais fácil que o outro, e sim desafios diferentes”.

Questionada sobre se passou por alguma situação com os músicos em que teve de colocar em prática a gestão de crise, Marina lembrou da prisão do cantor Emicida, em 2012, por desacato à autoridade, durante um show em Belo Horizonte. No início do show o rapper fez a leitura de um texto desaprovando a desocupação de um terreno na região do Barreiro, onde famílias pobres estavam acampadas. Na ocasião, ela disse que não foi preciso um grande esforço para contornar o problema, já que setores da própria mídia, como a MTV, saíram em defesa do cantor.  

Apesar de fazer assessoria para dois artistas de um mesmo segmento, Marina enfatizou que não é interessante usar o sucesso de um para promover o outro.

Preconceito

Tanto Marina como Busian discutiram sobre o preconceito que o assessor de imprensa costuma sofrer por parte de alguns colegas atuantes em redação. Enquanto Busian disse não se importar com o fato, Marina enfatizou que é necessário quebrar a ideia de que o assessor é uma figura chata, que só se tornou o que é por não ter dado certo na redação. Ela disse que se sente muito mais realizada hoje, como assessora, inclusive na questão do respeito às suas convicções. Afirmou que, quando o jornalista atua em redação, muitas vezes se vê obrigado a seguir a linha editorial e as regras do veículo no qual ele trabalha, tomando atitudes que fogem da verdadeira vocação do jornalismo, que é o interesse público.

*Estudantes do quinto semestre do curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Carta de uma jornalista apaixonada

*Patrícia Paixão

Fui convidada pelo Portal Comunique-se para participar do especial deles sobre o Dia do Jornalista.

Espero que goste do texto, querido foca (veja abaixo).

Nele falo sobre as dores e as delícias do Jornalismo (muito mais delícias que dores), através de uma carta que escrevi para mim mesma. A Patrícia Paixão de 40 anos escrevendo para a Patrícia Paixão de 19, uma foca.

Me emocionei muito redigindo este texto e sei que ele responde às dúvidas de muitos focas sobre seguir ou não na profissão.

FELIZ DIA DO JORNALISTA!

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Divulgação/Comunique-se

Divulgação/Comunique-se

 

São Paulo, 7 de abril de 2016.

Querida Patrícia,

Tudo bem?

Quem escreve é você mesma, aos 40 anos.

Nesta data em que se comemora o Dia do Jornalista, resolvi te dar alguns conselhos e acabar com certas interrogações que andam colocando na sua cabeça sobre permanecer ou não no curso de jornalismo.

Sei que já te contaram sobre casos de familiares e conhecidos que fizeram jornalismo e não conseguiram trabalhar na área. Ou que trabalharam durante algum tempo e depois acabaram mudando de profissão.

Sei também que andam dizendo que o melhor seria você optar por uma profissão “mais séria” e “que desse mais dinheiro”, para garantir seu futuro e o de sua família.

Pois bem. Em vez de dar ouvido a esses questionamentos, lembre-se do que disse sua estimada professora de Língua Portuguesa do terceiro ano do ensino médio, da escola estadual “Professor José Marques da Cruz”. Lembra como ela te incentivou a prestar jornalismo pelo fato de você escrever bem?

Some a este precioso estímulo seu amor pela leitura e seu jeito inconveniente de querer opinar e estar por dentro de tudo o que acontece, querendo mudar o que considera injusto. Jeito este que lhe rendeu, quando pequena, alguns puxões de orelha, por se meter em “conversas de adulto”, e quebra-paus homéricos (já na adolescência) com alguns de seus familiares por pensar diferente de muitos deles em relação a assuntos polêmicos.

Escute também uma das poucas vozes sensatas que te rondam neste momento, a do seu pai.  Ele insiste em destacar que quem faz o que ama, dando o seu melhor, consegue vencer, por mais difícil que seja a profissão que escolheu. Ele está certo. Acredite!

Rica, realmente, você não vai ser. Pelo menos uma verdade foi dita por essas pessoas que estão empenhadas em te fazer desistir do jornalismo. Pra falar a verdade, aos 40 seus bens se resumirão a uma casa própria modesta e um carro popular “bem detonado”, diga-se de passagem.

Mas você vai conseguir pagar todas as suas contas, realizar alguns sonhos de consumo e, o mais importante, será uma pessoa plenamente realizada em diversos sentidos.

Sabe esse seu horror pela rotina? Pode ficar tranquila, porque, no jornalismo, você não corre o menor risco de ficar entediada. Todo dia conhecerá pessoas novas e aprenderá sobre diferentes assuntos. Começará como locutora da rádio da sua faculdade, comentando sobre Esportes, Economia, Cultura, entre outras editorias. Depois escreverá sobre a colônia japonesa, em um jornal voltado a brasileiros que moram no Japão; trabalhará como colunista de comportamento, escrevendo para pessoas que vivem sozinhas, dando dicas sobre como conquistar alguém; atuará na editoria de Política da agência de notícias de um dos principais jornais do país (a Folha de S.Paulo, que você tanto admira); será editora de duas revistas na área de papel e celulose e no mercado de indústria gráfica; escreverá sobre política tributária em um sindicato de funcionários da Receita Federal e será assessora de imprensa de organizações de diferentes setores.

Sabe esse seu hobby por viagens? Também será atendido. Como jornalista você terá a chance de conhecer diferentes lugares, suas culturas, suas peculiaridades.

Perderá, sim, finais de semana, feriados, Natal, Ano Novo, Carnaval, Páscoa, e adentrará madrugadas na redação. Trabalhará muito, muito mesmo. Mas também se sentirá fazendo parte da história ao participar de coberturas marcantes, como a dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA, um dos dias em que você mais vai trabalhar na vida. Você se sentirá orgulhosa de ter feito essa e outras coberturas. Vai vibrar com cada furo conseguido, com cada elogio que receber do público.

Ficará extremamente grata e sensibilizada ao notar alguns entrevistados contando suas histórias, com lágrimas nos olhos, abrindo suas vidas sofridas para você, vendo em seu trabalho a única saída para seus dilemas, já que o Estado e outras instituições que deveriam zelar pela sua proteção lhes viraram as costas. Você dará voz a essas pessoas que têm suas falas tantas vezes ignoradas e/ou silenciadas e perceberá que, com seu trabalho, a vida delas terá uma chance de ser modificada.

Entrará em contato com personalidades que costumam aparecer na telinha, enchendo os olhos de quem pensa que ser jornalista significa trabalhar na Globo e conquistar a fama. Aliás, ao longo de sua carreira vão te perguntar muitas vezes se você trabalha na vênus platinada. Acostume-se! Você perceberá que este contato com celebridades é irrelevante perto da chance de poder denunciar o que está errado no seu país. Aliás, prepare-se, porque denunciar o que não anda bem significa muitas vezes mexer com interesses de grupos poderosos, dispostos a perseguir e até mesmo calar quem deseja revelar seus mandos e desmandos.

Mas você vai superar cada obstáculo que aparecer no seu caminho, impulsionada pelo prazer de seguir numa profissão tão enobrecedora.

Um dia você decidirá deixar a redação para se tornar professora de jornalismo. Vai fazer essa opção para tentar ter uma vida mais organizada e com o objetivo de passar adiante toda experiência acumulada na área.

Continuará a escrever e a reportar, pois é um “vício” muito bom,  do qual você nunca vai conseguir se desvencilhar, mas desta vez com o pé na sala de aula, ajudando a formar profissionais que estão cheios de dúvidas e expectativas, como você está neste momento, aos 19, no primeiro ano do curso de jornalismo.

Lecionar será uma experiência igualmente enriquecedora. Você poderá discutir os erros e acertos que vê na profissão, passando seu idealismo e sua paixão aos discentes.

Em muitas aulas você vai se empolgar ensinando as técnicas de entrevista e reportagem que aprendeu ao longo da carreira. Vai comemorar cada conquista dos seus alunos como se fosse sua. Conseguirá ver seus sonhos jornalísticos sendo colocados em prática pelos seus pupilos, como se eles estivessem incorporando um pouquinho de você dia a dia.

Aos 40, você vai ouvir muita gente dizendo que o jornalismo está em crise. Sabe por quê? É que este novo meio de comunicação, que nesse momento você está vendo nascer, a tal da internet, ganhará força e realmente abalará os veículos tradicionais, dando a qualquer pessoa a oportunidade de divulgar informação. O impresso, em especial, perderá muitos leitores para a internet, que veiculará a notícia de forma mais rápida e sintética. Muitos dirão que a mídia impressa vai desaparecer. Haverá também uma dependência ainda maior da mídia em relação aos seus anunciantes e a grupos políticos e econômicos. Tente não se abalar com esses acontecimentos. Com um pouco de observação e cautela, você perceberá que a informação com credibilidade continuará dependendo do bom jornalismo, ou seja, da apuração, do bom texto e de todas as técnicas que você aprendeu na faculdade.

Você vai ver muitos colegas serem demitidos devido a tal crise do jornalismo? Sim, verá. Mas também verá formas interessantes de reportagem surgindo na internet, um jornalismo independente de interesses políticos e econômicos, como não vemos nas grandes redações. Muitos colegas sem espaço na grande imprensa apostarão nessas novas formas de comunicação, que buscam outros caminhos de sustentação financeira, a partir da contribuição do próprio público. Grandes reportagens continuarão a ser feitas, revelando feridas e males da nossa sociedade, mostrando que, apesar de todo o cenário de incertezas, o jornalismo continua sendo essencial.

Por tudo isso, querida Patrícia, digo com segurança: pode seguir tranquilamente no curso que escolheu.

Só não perca nunca sua sensibilidade social, sua perseverança e o seu amor pela profissão. Essa coisa do brilho no olhar, sabe? Brilho no olhar é TUDO! Ao longo da carreira você verá que os profissionais mais bem sucedidos são os que mantiveram o tesão pela área, a esperança de que você pode mudar o mundo com uma reportagem. É uma ilusão pensar assim? Sim, é! Mas é uma ambição extremamente importante para quem está numa profissão de natureza social.

Fácil não será. Aliás, vai ser bem difícil. Você vai ouvir pelo menos uns 30 “nãos” até conseguir sua primeira oportunidade de trabalho num mercado que é extremamente competitivo, e que ficará cada vez mais disputado. Ganhará pouco e nem sempre vai ser devidamente reconhecida, mas, com certeza, será feliz por fazer o que gosta e ver na sua carreira uma oportunidade de colaborar com um mundo melhor. Quer maior riqueza que esta??

Nos vemos daqui a 20 anos. Pode estar certa de que você não terá se arrependido. Como disse o mestre Gabriel García Márquez, esta é “a melhor profissão do mundo”. Não me imagino fazendo outra coisa.

Patrícia Paixão é jornalista e professora do curso de jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi, da Universidade Presbiteriana Mackenzie e das Faculdades Integradas Rio Branco. É também responsável pelo blog Formando Focas (www.formandofocas.com), voltado a estudantes de jornalismo e jornalistas recém-formados.