Cinco livros que são verdadeiras aulas de grande reportagem

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*Por Patrícia Paixão

Ler ficção é ótimo, mas você, que é amante do jornalismo, já experimentou se entregar a livros que trazem os bastidores de grandes reportagens?

Vale muito a pena! Além de ser inspirador, é maravilhoso para aprender como dar novos olhares a assuntos tidos como desgastados, descobrir e valorizar personagens, conhecer diferentes técnicas de entrevista, pesquisa de campo e observação.

Recomendo cinco obras em especial. A seguir, você conhecerá um pouco cada uma delas:

O Olho da Rua – Uma Repórter em Busca da Literatura da Vida Real

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Uma verdadeira obra-prima do jornalismo literário brasileiro. Escrito pela diva-musa-suprema Eliane Brum (sim, eu amo essa mulher), o livro traz histórias incríveis de brasileiros de diversos cantos do país, como dona Ailce, que teve seus últimos 115 dias de vida retratados por Eliane (ela tinha um câncer terminal. Prepare-se para chorar rios com esse texto lindo).

As narrativas são construídas de maneira extremamente atrativa, com uso de metáforas, rimas e vários outros recursos da literatura, que Eliane sabe tão bem usar. Você percebe que cada termo do texto foi estrategicamente escolhido para encantar o leitor. Eliane age tal como um escultor que trabalhou com ardor e paixão cada pedacinho da sua obra.

O livro aborda realidades duras do nosso país, como a das mães do tráfico (há uma história de uma mãe que perdeu dois filhos na guerra do tráfico e, por isso, já pagava o caixão do terceiro que estava vivo, sabendo que ele era o próximo a morrer), o conflito entre arrozeiros, ONGs, políticos e índios em Raposa Terra do Sol, em Roraima, ou o cotidiano dos que vivem em um asilo.

Não bastasse tudo isso, após cada reportagem, Eliane oferece um making of, contando os bastidores de produção da matéria, com seus erros e acertos.

Um dos livros mais tocantes e importantes que já li. Sempre obrigo meus queridos aluninhos a lerem, cobrando o conteúdo dele em prova. FUNDAMENTAL!

Editora: Arquipélago Editorial

http://www.arquipelago.com.br/

Tempo de Reportagem – Histórias que Marcaram Época no Jornalismo Brasileiro

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Se Eliane Brum é uma diva-musa-deusa-suprema, imagine só o gabarito de quem foi um de seus grandes inspiradores?

Refiro-me ao Mestre Audálio Dantas, o homem que descobriu Carolina Maria de Jesus, lhe dando voz e valor. O homem que foi um dos primeiros a dar o lugar de protagonista, em suas matérias, para brasileiros anônimos, esquecidos pelo próprio país. O homem que ajudou a revolucionar a linguagem do nosso jornalismo, com um estilo criativo, autoral.

No livro “Tempo de Reportagem – Histórias que Marcaram Época no Jornalismo Brasileiro”, Audálio oferece ao leitor verdadeiras joias: suas históricas matérias feitas para a Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo) e para a Cruzeiro e a Realidade, as duas revistas que inauguraram o gênero grande reportagem no Brasil.

Antes de cada texto, o leitor é agraciado por um comentário de Audálio, com curiosidades e bastidores do processo de produção da matéria.

Além da célebre reportagem com os diários de Carolina Maria de Jesus (“O Drama da Favela escrito por uma Favelada”, publicada na Folha da Manhã, em 1958), que teve tanta repercussão que acabou proporcionando à Carolina o lançamento do livro “Quarto de Despejo”, traduzido para 13 idiomas, “Tempo de Reportagem” traz a matéria “Povo Caranguejo”. Publicado na Realidade em 1970, o texto é até hoje um case estudado nas salas de aula de jornalismo, pela maneira criativa como foi construído.  Audálio escreveu a matéria sob duas óticas: a dos caçadores de caranguejo do povoado Nossa Senhora do Livramento (PB) e a da caça (os caranguejos fugindo dos caçadores, no mangue).

Vale ainda destacar a reportagem “Circo do Desespero”, que reflete  a grande sensibilidade de Audálio ao mostrar o lado trágico de um conhecido concurso carnavalesco de dança dos anos 60, onde pobres brasileiros, esquecidos por diversas instâncias do Estado e pela sociedade, dançavam literalmente quase até morrer, para conseguirem ganhar um prêmio, que tornaria possível a realização de sonhos bastante importantes, como o de fazer a cirurgia de um filho.

Livro sensacional! Obrigatório, porque simplesmente é uma vergonha ser jornalista sem conhecer bem o trabalho de Audálio Dantas.

Editora: LeYa Brasil

http://www.leya.com.br/

Instinto de Repórter

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Nesta obra a super repórter investigativa Elvira Lobato, homenageada na edição de 2016 do Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), também traz suas principais reportagens, contando ao leitor os bastidores de produção dos textos.

Elvira que foi repórter especial da Folha de S.Paulo por muitos anos, especializada no nicho das Telecomunicações, revela algumas técnicas interessantes utilizadas para obter informações para algumas de suas matérias, por exemplo quando se tornou acionista da Petrobras e da Oi para investigar mais a fundo essas empresas.

O ramo do jornalismo investigativo é um dos mais instigantes e difíceis para quem atua na profissão, e demanda estratégias e tecnologias especiais, como a técnica da infiltragem ou a câmera escondida.

É muito interessante conhecer as estratégias que Elvira utilizou para fazer suas reportagens, e observar como a curiosidade e a coragem são elementos essenciais para quem deseja atuar nessa área.

Editora: Publifolha

http://publifolha.folha.uol.com.br/

Narrativas de um correspondente de rua

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Mauri König é um dos mais premiados jornalistas brasileiros e um dos meus repórteres investigativos prediletos. Nada escapa ao seu faro. Suas reportagens são voltadas a apontar chagas sociais brasileiras. Em um de seus primeiros trabalhos de destaque, como repórter do jornal O Estado do Paraná, sofreu graves agressões ao denunciar o caso de adolescentes brasileiros recrutados para o serviço militar paraguaio. Teve que fingir que já estava morto, ficando imóvel no chão, para parar de ser agredido e evitar a morte real.

No livro “Narrativas de um correspondente de rua”, König traz esta e outras 14 reportagens premiadas que fez para a Gazeta do Povo (quando era repórter especial do jornal), também oferecendo comentários sobre os bastidores de produção dos textos.

Como muito bem descreve o texto da editora Pós Escrito, o livro, finalista do Prêmio Jabuti de 2009, denuncia “a dura realidade de pessoas que pertencem ao Brasil que não deu certo. São crianças, adultos e idosos que sobrevivem e trabalham em condições desumanas, explorados de maneira inescrupulosa por aqueles que detêm o poder econômico. Em cada reportagem, é possível vislumbrar o compromisso de Mauri com um jornalismo que luta por uma sociedade melhor, para que não sejam desperdiçadas mais vidas.”

Não dá pra não ler!

Editora: Pós-Escrito

http://www.editoraposescrito.com.br/

Mestres da Reportagem

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Não é porque foi feito por mim e pelos meus alunos de Jornalismo da extinta FAPSP (Faculdade do Povo), mas este livro é IMPRESCINDÍVEL a todos que desejam ser bons repórteres. Como disse o “repórter do século” José Hamilton Ribeiro, que fez o prefácio da obra (em um e-mail que enviou para mim logo após o lançamento, em 2012), trata-se de “uma das coisas mais importantes já feitas sobre jornalismo/reportagem entre nós”.

O livro traz 30 entrevistas pingue-pongue com renomados repórteres brasileiros. Além de José Hamilton Ribeiro: Ricardo Kotscho, Elvira Lobato, Carlos Wagner, Renato Lombardi, Marcelo Rezende, Percival de Souza, Sônia Bridi, Luiz Carlos Azenha, Agostinho Teixeira, Adriana Carranca, Bruno Garcez, Mauri König, Valmir Salaro, Tatiana Merlino, Paula Scarpin, Roberto Cabrini, Leandro Fortes, Cid Martins, Eliane Brum, Goulart de Andrade, Giovani Grisotti, César Tralli, Geneton Moraes Neto, Regiani Ritter, Marcelo Canellas, José Arbex Jr., Ernesto Paglia, Sílvia Bessa e Gérson de Souza.

Afora discutir a importância da reportagem e as principais técnicas para a produção desse gênero jornalístico, a obra resgata a trajetória profissional dos jornalistas entrevistados e revela os bastidores de produção das principais matérias que eles fizeram. Lendo o livro, por exemplo, você conhecerá as técnicas que Roberto Cabrini usou para encontrar PC Farias (que estava foragido) em Londres em 1993, ou curiosidades sobre os bastidores de grandes entrevistas que foram feitas pelo mestre Geneton Moraes Neto, que infelizmente nos deixou em 2016. Imperdível!

E a sequência do livro, o Mestres da Reportagem II, está quase saindo do forno. Mais uma vez organizados por mim, alunos de diferentes faculdades de jornalismo do país entrevistaram dezenas de grandes nomes da nossa reportagem, dentre eles Audálio Dantas, Clóvis Rossi, Mário Magalhães, Rubens Valente e Sérgio Dávila. Aguarde!

Editora: In House

http://inhousestore.com.br/

OBS1: Procure as principais livrarias ou diretamente as editoras, para adquirir as obras. Caso algum dos livros esteja esgotado, procure em sebos ou em sites como o Estante Virtual. Vale todo esforço para não ficar sem ler essas joias.

OBS2: Esse artigo foi publicado originalmente no portal Comunique-se, onde sou colunista.

 

“Por mais ingênua e doce que seja a atividade do assessorado o risco de crise nunca é zero”, destaca Gilberto Lorenzon

G2

O jornalista e escritor, Gilberto Lorenzon, em palestra aos alunos de Jornalismo do Mackenzie

*Por Bianca Ninzoli Marques e Isabella Massoud

Com foto de Letícia Marques

Gestão de crise foi o tema da palestra que o jornalista Gilberto Lorenzon concedeu aos alunos de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em 03/05, durante a aula da professora e jornalista, Patrícia Paixão, que ministra a disciplina Assessoria de Imprensa.

O professor trabalha na área desde 1983 e é autor, juntamente com Alberto Mawakdiy, do livro “Manual de Assessoria de Imprensa”, uma obra muito usada por aqueles que lecionam e trabalham nessa área. Gilberto também leciona diversos cursos sobre assessoria de imprensa em instituições como Mackenzie, Belas Artes e no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo.

Dentre os assuntos tratados na conversa, o jornalista falou sobre a importância de uma etapa anterior à “gestão de crise”: a “gestão de risco”, ou seja, uma preparação que a equipe de assessoria deve ter para evitar que a crise aconteça ou para saber lidar com uma crise, que venha a aparecer. “Por mais ingênua e doce que seja a atividade do assessorado o risco de crise nunca é zero”, declarou Gilberto, a fim de ressaltar a necessidade de criação de um comitê especializado no assunto.

Outros três elementos compõem o departamento de gestão de risco: a auditoria (para detectar problemas que podem gerar crise), um manual com procedimentos (sobre como agir em caso de crise) e o Media Training. Este terceiro, de acordo com ele, é extremamente importante, tanto no pré, quanto no pós-crise, pois é quando o jornalista treina seu assessorado para se portar bem com a imprensa.

Gilberto citou exemplos vividos em sua carreira, nos quais teve que lidar com crises sem um comitê ou um preparo especializado, mostrando mais uma vez a importância dessas ferramentas.  Ressaltou que a equipe voltada à gestão de crise precisa ser muitas vezes multidisciplinar, contando com profissionais de outras áreas, além do jornalismo. “Médicos, advogados e psicólogos podem fazer parte do comitê de crise”. Mas destacou que “ele [comitê] não pode ficar engessado e perder a mobilidade”.

Outro fator relevante em momentos de gestão de crise é o relacionamento com a imprensa. “Valorizar o questionamento do repórter traz empatia e interlocução. A demora em se pronunciar pode trazer consequências ruins para empresa, uma vez que a imprensa pode criar especulações”, alertou.

Também é preciso “saber o que falar para o jornalista, pois tudo que o porta-voz fala é declaração oficial”, disse Gilberto.

Por fim, o professor enfatizou o valor de se comunicar internamente na empresa: “é preciso manter os funcionários informados, para que estes não se sintam traídos, passando a divulgar informações falsas ou negativas”.

Finalmente, alertou que é preciso lidar com a crise imediatamente depois de seu fim, “para aprender com os erros e evitar novos problemas”.

*Bianca Ninzoli Marques, Isabella Massoud e Letícia Marques são alunas de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, e escrevem para o Formando Focas em caráter colaborativo.

“É preciso mergulhar na obra e ter coragem para apontar suas falhas”, destaca Julio Maria sobre o trabalho do crítico musical

*Por Brian Alan

Com fotos de Cecilia Ferreira

“Bagagem cultural, pesquisa e um bom texto vão determinar o seu sucesso ou insucesso na área”. Essa foi uma das frases que o crítico e repórter do jornal O Estado de S.Paulo, Julio Maria, utilizou para aconselhar os alunos de Jornalismo que pretendem seguir na área de crítica musical. O bate-papo com o jornalista aconteceu em 15/05, no Centro de Comunicação e Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Julio foi convidado pela jornalista e professora da instituição, Patrícia Paixão.

Autor da biografia “Elis Regina – Nada será como antes” (2015), o jornalista ressaltou a importância da crítica ser sempre bem fundamentada e de o jornalista ter coragem para apontar as imperfeições de um álbum, quando necessário, mesmo em tempos em que os críticos são “massacrados” nas redes sociais. Segundo ele, é muito comum que, de acordo com o tom da crítica, a repercussão seja boa ou ruim nas redes. “Muita gente teme hoje fazer uma crítica mais incisiva, com medo do ‘tribunal do Facebook’”.

Para ele, é importante manter a ética e apontar os problemas da obra, mesmo sabendo da repercussão que isso irá causar. “Eu já vi meu nome em mais de 700 comentários, todos me xingando. Justo. Não gostaram do que eu falei, assim como eu não gostei do disco”, completou.

E não parou por aí. Ainda sobre ética, Júlio falou sobre a importância de o crítico não se vislumbrar com seu trabalho (já que se relaciona com muitas celebridades), adotando uma linha elogiosa, para ficar bem com os músicos.  Ele disse que, apesar de manter contato com diversos artistas em nível pessoal, não deixa que isso afete sua postura profissional. Para exemplificar, citou o processo de construção da biografia que fez sobre Elis Regina. “Eu mantive contato com os três filhos, João Marcelo Bôscoli, Pedro Mariano e Maria Rita. Deixei claro que eles não iriam interferir no meu trabalho. E eles realmente não interferiram. O João Marcelo chegou a dizer que teve que parar a leitura do livro várias vezes, pois, ao ler a obra, tinha momentos em que gostou menos da mãe”.

Falar de uma personalidade do tamanho de Elis é algo bastante delicado, no entanto, quando a vontade de fazer um bom trabalho caminha com a organização, o resultado positivo aparece. Júlio fez mais de 100 entrevistas, envolvendo amigos, familiares, ex-funcionários, especialistas, além de ler outras obras envolvendo o nome da cantora.

“Tive uma reação boa dos três filhos [de Elis]. Eles me disseram que descobriram muitas coisas sobre a mãe através do livro”, contou.

Julio ressaltou que a crítica aprofundada, de responsabilidade, não é um trabalho que deve ser feito às pressas. “Muita gente me envia álbuns, manda mensagem todo dia e cobra uma análise do trabalho. Eu não atuo assim”.

Para o jornalista, a boa crítica não sai de um dia para o outro, sob pressão. “É preciso mergulhar no trabalho do artista”, acrescentou.

O método utilizado por Julio para fazer suas críticas foi motivo de muitas perguntas, como esta: “como você avalia o crescimento ou amadurecimento de um artista?”.

Ele respondeu: “ouvindo a obra do artista, ligando o novo disco aos antigos e aos diversos universos dentro da música”.

Julio deixou uma frase interessante, que mostra como o trabalho do crítico é por natureza polêmico, no que se refere à repercussão com o público. “O artista faz o trabalho, o crítico tenta explicá-lo. Dentro desse espaço, existem milhares de motivos para concordar ou discordar da crítica”.

O bate-papo com os alunos de Jornalismo, que deveria durar uma hora e meia, acabou se estendendo para quase duas horas, tamanha a empolgação dos estudantes.

*Brian Alan é Cecilia Ferreira são alunos de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Eles produziram essa cobertura para o Formando Focas em caráter colaborativo. 

Mandamentos importantes no uso do gravador de voz ou “não dê chance para o capeta”(rs)

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Gravar apenas com o celular pode ser arriscado/Crédito: Pixabay

*Por Patrícia Paixão

São recorrentes em sala de aula os casos de alunos que me procuram para lamentar uma entrevista perdida pelo mau uso ou por uma pane no gravador de voz.

E se há uma situação constrangedora, MUUUITO CONSTRANGEDORA, é ter que ligar para aquele entrevistado super ocupado e renomado, com o qual você usou todos os argumentos possíveis para conseguir um horário, e dizer: “Perdi a entrevista que fiz contigo. Você pode me conceder outra?”

Não!!!!!!!! Que vergonha alheia esse tipo de situação!! E é chato com todos os tipos de entrevistado, e não só com os famosos.

Das duas uma: ou o entrevistado se negará a conceder outra entrevista ou, se for muito bonzinho e quiser te ajudar, concederá a entrevista, mas não com a mesma empolgação e com os detalhes ditos na primeira vez em que conversou contigo.

Com base nos erros mais frequentes cometidos por aqueles que perdem a entrevista, preparei CINCO MANDAMENTOS IMPORTANTES NO USO DO GRAVADOR DE VOZ.

São básicos, são óbvios, mas ainda assim (pasme!) muitas vezes não são seguidos.

Vamos a eles:

1 –   Não gravarás apenas com o celular. Use preferencialmente o gravador de voz digital e, se conseguir, mantenha os dois gravando ao mesmo tempo (o gravador e o celular). Muitos alunos procuram-me lamentando-se de que estavam gravando apenas com o celular e, de repente, a bateria do aparelho acabou e não conseguiram terminar a entrevista. No caso da gravação pelo celular, lembre-se de manter o aparelho no modo “Não perturbe”, para evitar que pessoas te liguem ou mandem mensagem no momento da entrevista, interrompendo a gravação. Algumas baterias de celulares ficam fracas muito rapidamente com o uso de recursos multimídia. Esteja atento a isso. Gravar apenas com o celular é sempre um risco;

2 –   Verificarás se as pilhas do gravador estão em bom estado. Isso para que o aparelho não pare de funcionar durante a entrevista, por conta de pilha fraca. Não confie nas pilhas que já estavam dentro do gravador, troque-as por novas sempre antes de cada entrevista;

3 – Olharás para o gravador a cada cinco minutos (durante a entrevista), para ver se ele permanece gravando. Sim, coisas “sobrenaturais” acontecem como capetas que desligam o gravador do nada, sem que você perceba (rs). Já aconteceu comigo. Acredite!

4 – Não comprarás o gravador no dia da entrevista, tampouco o testarás minutos antes de se encontrar com o entrevistado. A chance de não saber mexer adequadamente no aparelho a tempo de fazer a entrevista é grande. Não dê chance para o azar. Seja prevenido comprando o aparelho bem antes e fazendo diferentes testes nele;

5 –   Assim que terminar a entrevista, salvarás o arquivo no seu computador e em um pen drive (por segurança), e retirarás as pilhas do gravador, para evitar que ele seja acionado sem querer na bolsa, e apague o conteúdo gravado. De novo: coisas “sobrenaturais” acontecem naquele dia em que você está com a sorte a seu favor…

Siga as dicas e, assim, terá sua estimada entrevista em total segurança 🙂

“Jornalista tem que ter olho no olho, entrevistar e ir às ruas”, defende a repórter especial da revista Época Cristiane Segatto

*Por Beatriz Bauer

O brilho no olhar e o entusiasmo demonstram o quanto um profissional ama o seu ofício. A forma apaixonada como fala de sua carreira ajuda a explicar o seu sucesso na profissão. No decorrer do bate-papo que a jornalista Cristiane Segatto teve com os alunos de jornalismo da Anhembi Morumbi, no dia 26 de abril, no campus Vila Olímpia, tudo isso ficou claro.

Vencedora de dois prêmios Esso de Jornalismo e várias outras premiações, a repórter especial da Revista Época, que atua na área do jornalismo da saúde há quase 20 anos,  mostrou, ao longo de uma hora de conversa com os estudantes, toda sua devoção pela arte de contar histórias, em especial no jornalismo de revista. A palestra aconteceu na aula da disciplina Produção de Revista, ministrada pela professora e jornalista Patrícia Paixão, responsável por esse blog (Formando Focas).

Cristiane ressaltou o quanto esse jornalismo é importante por poder ir mais a fundo em um assunto, por abordar aquilo que os jornais diários não conseguiram tratar. “As matérias que eu faço na revista surgem em cima de brechas deixadas pelo jornalismo diário, aspectos que as reportagens do hard news não conseguiram aprofundar”, contou a jornalista.

Para atingir esse aprofundamento, Cristiane sugere que o repórter viva o mesmo que o personagem retratado, que entre no mundo dele. Com essa atitude, a chance de o que estiver sendo falado ser mais próximo da realidade é maior. “Jornalista tem de ter olho no olho, entrevistar, ir às ruas”, completou.

Esse processo só será bem feito se o repórter for curioso e apurar a sua sensibilidade. Este aprendizado, aliás, Cristiane absorveu de uma professora da faculdade, que dizia que era preciso “ver com olhos de enxergar, ouvir com ouvidos de escutar”. Ao aguçar a sensibilidade e perceber os detalhes, é possível obter informações muitas vezes não ditas que enriquecem a narrativa.

Uma vez coletados e estruturados os dados, o jornalista precisa visualizar a reportagem e, então, em conjunto com o editor de arte, elencar quais os elementos que imagina para a finalização. Isso é importante, porque o leitor, primeiramente, é atraído pelas imagens, arte, título e subtítulos. O texto vem na sequência. Por isso, o trabalho em uma redação precisa ser sempre em parceria: “O leitor muitas vezes entra na sua reportagem pelo título, por um olho ou pela foto, então tudo precisa ser muito bem feito”.

Outro ponto abordado foi o fato de as pessoas, muitas vezes, acharem que o jornalista tem de escrever de forma rebuscada e difícil. Ela refuta essa ideia, principalmente por trabalhar na área da saúde que é repleta de termos técnicos e desconhecidos do grande público. Ao contrário do que se pensa, ela afirma que o papel do jornalista é transformar confusão em clareza, sem perder a profundidade. Ou seja, tem de tornar acessível para leigos assuntos tratados por profissionais.

Cristiane destacou que trabalhar no jornalismo de saúde não é fácil: “Muita gente escolhe essa área achando que se trata de algo mais fácil que cobrir Política ou Economia, só que a área de Saúde também envolve Política, Economia e muitos outros assuntos, muitos pontos polêmicos”. Segundo ela, para atuar nesse setor é preciso estudar bastante para não ser contestado: “Você vai entrevistar pessoas com um conhecimento muito grande, como médicos, pesquisadores.  Se você não estudar, se não for criterioso, corre o risco de uma dessas fontes te questionar ou de ser manipulado, por falta de conhecimento”.

Para a repórter, um bom jornalista tem de ter referências e seguir exemplos de quem admire, além de ler muito e conhecer ao máximo o meio em que atua. Cristiane citou alguns autores que a influenciaram a escrever de forma literária, como José Saramago, Machado de Assis, Jorge Amado e Ian McEwan. Tudo serve como repertório e amplia o universo do jornalista que, em algum momento, usará o conhecimento obtido.

A jornalista encerrou seu bate-papo falando sobre o que deveria ser o básico para todo profissional: dedicação. Para uma reportagem sair boa, é preciso usar bastante tempo, ser criterioso, ter rigor na apuração, ler muito e ser curioso, fazendo tudo isso com prazer.

De forma simples e cordial, ela deu o recado a todos que queiram obter êxito na área jornalística.

*Beatriz Bauer é aluna do sexto semestre de jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi, campus Vila Olímpia. Ela escreve para o Formando Focas em caráter colaborativo.

Carta de uma jornalista apaixonada

Carta

Divulgação/Comunique-se

*Por Patrícia Paixão

Em 2016, fui convidada pelo Portal Comunique-se para participar de um especial sobre o Dia do Jornalista.

Fiz esse texto que é minha homenagem a todos que escolheram A MELHOR PROFISSÃO DO MUNDO, O JORNALISMO.

Nele, falo sobre as dores e as delícias de ser jornalista (muito mais delícias que dores), através de uma carta que escrevi para mim mesma. A Patrícia Paixão de 40 anos (hoje 41 rs) escrevendo para a Patrícia Paixão de 19, uma foca.

Me emocionei muito redigindo este texto e sei que ele responde às dúvidas de muitos que pretendem seguir a profissão.

Hoje, 7 de abril de 2017, data em que mais uma vez comemoramos o Dia do Jornalista, republico a cartinha (com a data atualizada), com a mesma carga de emoção que me fez escrevê-la.

Espero que gostem 🙂

FELIZ DIA DO JORNALISTA! FELIZ NOSSO DIA ❤

EU SIMPLESMENTE AAAAAAAAAAAAMO ESSA PROFISSÃO!

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São Paulo, 7 de abril de 2017.

Querida Patrícia,

Tudo bem?

Quem escreve é você mesma, aos 40 anos.

Nesta data em que se comemora o Dia do Jornalista, resolvi te dar alguns conselhos e acabar com certas interrogações que andam colocando na sua cabeça sobre permanecer ou não no curso de jornalismo.

Sei que já te contaram sobre casos de familiares e conhecidos que fizeram jornalismo e não conseguiram trabalhar na área. Ou que trabalharam durante algum tempo e depois acabaram mudando de profissão.

Sei também que andam dizendo que o melhor seria você optar por uma profissão “mais séria” e “que desse mais dinheiro”, para garantir seu futuro e o de sua família.

Pois bem. Em vez de dar ouvido a esses questionamentos, lembre-se do que disse sua estimada professora de Língua Portuguesa do terceiro ano do ensino médio, da escola estadual “Professor José Marques da Cruz”. Lembra como ela te incentivou a prestar jornalismo pelo fato de você escrever bem?

Some a este precioso estímulo seu amor pela leitura e seu jeito inconveniente de querer opinar e estar por dentro de tudo o que acontece, querendo mudar o que considera injusto. Jeito este que lhe rendeu, quando pequena, alguns puxões de orelha, por se meter em “conversas de adulto”, e quebra-paus homéricos (já na adolescência) com alguns de seus familiares por pensar diferente de muitos deles em relação a assuntos polêmicos.

Escute também uma das poucas vozes sensatas que te rondam neste momento, a do seu pai.  Ele insiste em destacar que quem faz o que ama, dando o seu melhor, consegue vencer, por mais difícil que seja a profissão que escolheu. Ele está certo. Acredite!

Rica, realmente, você não vai ser. Pelo menos uma verdade foi dita por essas pessoas que estão empenhadas em te fazer desistir do jornalismo. Pra falar a verdade, aos 40 seus bens se resumirão a uma casa própria modesta e um carro popular “bem detonado”, diga-se de passagem.

Mas você vai conseguir pagar todas as suas contas, realizar alguns sonhos de consumo e, o mais importante, será uma pessoa plenamente realizada em diversos sentidos.

Sabe esse seu horror pela rotina? Pode ficar tranquila, porque, no jornalismo, você não corre o menor risco de ficar entediada. Todo dia conhecerá pessoas novas e aprenderá sobre diferentes assuntos. Começará como locutora da rádio da sua faculdade, comentando sobre Esportes, Economia, Cultura, entre outras editorias. Depois escreverá sobre a colônia japonesa, em um jornal voltado a brasileiros que moram no Japão; trabalhará como colunista de comportamento, escrevendo para pessoas que vivem sozinhas, dando dicas sobre como conquistar alguém; atuará na editoria de Política da agência de notícias de um dos principais jornais do país (a Folha de S.Paulo, que você tanto admira); será editora de duas revistas na área de papel e celulose e no mercado de indústria gráfica; escreverá sobre política tributária em um sindicato de funcionários da Receita Federal e será assessora de imprensa de organizações de diferentes setores.

Sabe esse seu hobby por viagens? Também será atendido. Como jornalista você terá a chance de conhecer diferentes lugares, suas culturas, suas peculiaridades.

Perderá, sim, finais de semana, feriados, Natal, Ano Novo, Carnaval, Páscoa, e adentrará madrugadas na redação. Trabalhará muito, muito mesmo. Mas também se sentirá fazendo parte da história ao participar de coberturas marcantes, como a dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA, um dos dias em que você mais vai trabalhar na vida. Você se sentirá orgulhosa de ter feito essa e outras coberturas. Vai vibrar com cada furo conseguido, com cada elogio que receber do público.

Ficará extremamente grata e sensibilizada ao notar alguns entrevistados contando suas histórias, com lágrimas nos olhos, abrindo suas vidas sofridas para você, vendo em seu trabalho a única saída para seus dilemas, já que o Estado e outras instituições que deveriam zelar pela sua proteção lhes viraram as costas. Você dará voz a essas pessoas que têm suas falas tantas vezes ignoradas e/ou silenciadas e perceberá que, com seu trabalho, a vida delas terá uma chance de ser modificada.

Entrará em contato com personalidades que costumam aparecer na telinha, enchendo os olhos de quem pensa que ser jornalista significa trabalhar na Globo e conquistar a fama. Aliás, ao longo de sua carreira vão te perguntar muitas vezes se você trabalha na vênus platinada. Acostume-se! Você perceberá que este contato com celebridades é irrelevante perto da chance de poder denunciar o que está errado no seu país. Aliás, prepare-se, porque denunciar o que não anda bem significa muitas vezes mexer com interesses de grupos poderosos, dispostos a perseguir e até mesmo calar quem deseja revelar seus mandos e desmandos.

Mas você vai superar cada obstáculo que aparecer no seu caminho, impulsionada pelo prazer de seguir numa profissão tão enobrecedora.

Um dia você decidirá deixar a redação para se tornar professora de jornalismo. Vai fazer essa opção para tentar ter uma vida mais organizada e com o objetivo de passar adiante toda experiência acumulada na área.

Continuará a escrever e a reportar, pois é um “vício” muito bom,  do qual você nunca vai conseguir se desvencilhar, mas desta vez com o pé na sala de aula, ajudando a formar profissionais que estão cheios de dúvidas e expectativas, como você está neste momento, aos 19, no primeiro ano do curso de jornalismo.

Lecionar será uma experiência igualmente enriquecedora. Você poderá discutir os erros e acertos que vê na profissão, passando seu idealismo e sua paixão aos discentes.

Em muitas aulas você vai se empolgar ensinando as técnicas de entrevista e reportagem que aprendeu ao longo da carreira. Vai comemorar cada conquista dos seus alunos como se fosse sua. Conseguirá ver seus sonhos jornalísticos sendo colocados em prática pelos seus pupilos, como se eles estivessem incorporando um pouquinho de você dia a dia.

Aos 40, você vai ouvir muita gente dizendo que o jornalismo está em crise. Sabe por quê? É que este novo meio de comunicação, que nesse momento você está vendo nascer, a tal da internet, ganhará força e realmente abalará os veículos tradicionais, dando a qualquer pessoa a oportunidade de divulgar informação. O impresso, em especial, perderá muitos leitores para a internet, que veiculará a notícia de forma mais rápida e sintética. Muitos dirão que a mídia impressa vai desaparecer. Haverá também uma dependência ainda maior da mídia em relação aos seus anunciantes e a grupos políticos e econômicos. Tente não se abalar com esses acontecimentos. Com um pouco de observação e cautela, você perceberá que a informação com credibilidade continuará dependendo do bom jornalismo, ou seja, da apuração, do bom texto e de todas as técnicas que você aprendeu na faculdade.

Você vai ver muitos colegas serem demitidos devido a tal crise do jornalismo? Sim, verá. Mas também verá formas interessantes de reportagem surgindo na internet, um jornalismo independente de interesses políticos e econômicos, como não vemos nas grandes redações. Muitos colegas sem espaço na grande imprensa apostarão nessas novas formas de comunicação, que buscam outros caminhos de sustentação financeira, a partir da contribuição do próprio público. Grandes reportagens continuarão a ser feitas, revelando feridas e males da nossa sociedade, mostrando que, apesar de todo o cenário de incertezas, o jornalismo continua sendo essencial.

Por tudo isso, querida Patrícia, digo com segurança: pode seguir tranquilamente no curso que escolheu.

Só não perca nunca sua sensibilidade social, sua perseverança e o seu amor pela profissão. Essa coisa do brilho no olhar, sabe? Brilho no olhar é TUDO! Ao longo da carreira você verá que os profissionais mais bem sucedidos são os que mantiveram o tesão pela área, a esperança de que você pode mudar o mundo com uma reportagem. É uma ilusão pensar assim? Sim, é! Mas é uma ambição extremamente importante para quem está numa profissão de natureza social.

Fácil não será. Aliás, vai ser bem difícil. Você vai ouvir pelo menos uns 30 “nãos” até conseguir sua primeira oportunidade de trabalho num mercado que é extremamente competitivo, e que ficará cada vez mais disputado. Ganhará pouco e nem sempre vai ser devidamente reconhecida, mas, com certeza, será feliz por fazer o que gosta e ver na sua carreira uma oportunidade de colaborar com um mundo melhor. Quer maior riqueza que esta??

Nos vemos daqui a 20 anos. Pode estar certa de que você não terá se arrependido. Como disse o mestre Gabriel García Márquez, esta é “a melhor profissão do mundo”. Não me imagino fazendo outra coisa.

Patrícia Paixão é jornalista e professora do curso de jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi, da Universidade Presbiteriana Mackenzie e das Faculdades Integradas Rio Branco. É também responsável pelo blog Formando Focas (www.formandofocas.com), voltado a estudantes de jornalismo e jornalistas recém-formados.